Membro da Coordenação de Engenharia da Fapesp há cinco anos, Hanai fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia entre 1993 e 1994. Leciona, desde 1992, para a graduação e a pós-graduação da EESC (Escola de Engenharia de São Carlos - USP), onde se formou em engenharia civil em 1972. Atualmente é chefe do Laboratório de Estruturas da EESC, coordenador e pesquisador principal de Projetos Temáticos da Fundação, coordenador de Projetos Integrados do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e coordenador do Comitê de Pesquisa e Desenvolvimento do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto). Faz pesquisas sobre recuperação, reforço e análise experimental de estruturas, pré-moldados, concretos especiais e sistemas construtivos.
Não restam dúvidas de que o investimento em pesquisa no Brasil é insuficiente. Apesar disso, quando existe e é incentivado, obtemos resultados expressivos. Exemplos sobram, como é o caso do projeto Genoma, da exploração de petróleo em águas profundas e até mesmo do combustível não-fóssil, com o álcool como exemplo máximo, cuja tecnologia poucos países detêm. A construção civil padece do mesmo efeito, com alguns agravantes. Primeiro, raramente existe a comunicação direta entre pesquisadores e a realidade de obra. Depois, a situação social do País praticamente obriga que o montante maior dos recursos seja destinado ao barateamento das habitações populares. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) avalia e dá suporte financeiro a propostas de pesquisa. Mantém programas de incentivo à pesquisa em empresas estatais e privadas de todos os portes, como o Pipe (Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas), o Pite (Parceria para Inovação Tecnológica) e o Consitec (Consórcios Setoriais para Inovação Tecnológica). Traduzem a intenção da Lei de Inovação, em vigor desde outubro de 2005, que procura fomentar o intercâmbio científico e a transferência de tecnologia. A atuação da Fundação pode ser conferida no site www.fapesp.br e também foi comentada pelo professor João Bento de Hanai nesta entrevista à Téchne.
Quais as linhas de pesquisa a Fapesp financia?
A Fundação financia qualquer tipo de proposta, a não ser em alguns programas especiais, em que induz linhas de pesquisa específicas.
Os projetos financiados devem estar, obrigatoriamente, vinculados à realidade de mercado?
No caso particular da construção civil, todos têm alguma inspiração na aplicação, mas também existem pesquisas teóricas, sem vínculo direto ou imediato com a produção, para resolver problemas da prática. No geral, é bem equilibrado e não é possível afirmar que a distribuição de recursos pende mais para a prática ou para a teoria. A tendência é que permaneça distribuído e é bom que seja assim.
Que pesquisas financiadas pela Fapesp contribuem para o setor da construção?
Há atividades de pesquisa e desenvolvimento em todos os ramos da construção. Algumas trabalham com novos materiais, patologias e durabilidade das construções, modelagem matemática e desenvolvimento de novos métodos de análise estrutural, gestão de empresas e organização do trabalho, gestão da qualidade e produtividade e reciclagem de materiais. Há também trabalhos que são realizados por pesquisadores de outras áreas e que repercutem direta ou indiretamente no setor. Pesquisas no campo da Ciência e Engenharia de Materiais cedo ou tarde se incorporam ao cotidiano da construção. Analogamente, na Arquitetura, na Engenharia de Produção, Elétrica ou de Minas, por exemplo, desenvolvem-se pesquisas que trazem contribuições expressivas ao setor.
Qual o percentual de pesquisas em construção financiadas pela Fapesp?
Como é difícil discernir as pesquisas dirigidas ao setor das demais, não há como dizer o percentual exato. No entanto, em 2004 a Fapesp aplicou cerca de R$ 400 milhões em bolsas de estudo e financiamento de pesquisas. Nos últimos anos, a área de engenharia tem recebido cerca de 15% desse total, ou seja, aproximadamente R$ 60 milhões. A engenharia civil conta com 12% do montante de todas as áreas da engenharia. Portanto, recebeu cerca de R$ 7 milhões em 2004. É um volume significativo de recursos, uma vez que se destina, em sua maior parte, às três universidades paulistas - USP (Universidade de São Paulo), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Unesp (Universidade Estadual Paulista) - que contam também com recursos de outras agências.
Existe a preocupação de aumentar o interesse das empresas em pesquisa?
Essa é uma preocupação nacional, tanto que a Lei de Inovação vem regulamentar e facilitar a relação entre empresas, universidades e institutos de pesquisa. Permite, por exemplo, que as instituições criem mecanismos de interação por meio de convênios.
Uma vez que as empresas investem, prioritariamente, em pesquisas de caráter prático, o equilíbrio citado acima não pode ser abalado?
É possível que haja mudanças, mas é algo que a comunidade científica analisa e que depende de políticas de distribuição de recursos. Todas as decisões da Fapesp são fundamentadas em anseios da comunidade. Um exemplo é o projeto Genoma, incentivado pela Fundação e que capacitou, nesse campo, dezenas de instituições de pesquisa.
Por que as empresas participam pouco do setor de pesquisas?
É uma questão da cultura empresarial. Investir em pesquisa significa alocar recursos e correr riscos. Em grande parte das situações é menos arriscado comprar uma tecnologia pronta do exterior e adaptá-la. No entanto, isso cria uma relação de dependência da qual só é possível sair quando houver capacidade de fazer pesquisa e se auto-sustentar.
Qual o caminho para incentivar o mercado a participar do desenvolvimento tecnológico?
Não só o mercado, mas os institutos de pesquisa e a universidade também precisam se preocupar mais com a interação com o setor produtivo. Vejo o mercado muito preocupado com os problemas imediatos e práticos e a universidade com teses e artigos que, muitas vezes, ficam na prateleira. A sociedade precisa integrar mais a cadeia de conhecimento com a produtiva.
Quais as propostas para que isso ocorra?
Tem que haver iniciativa das associações de classe e de produtores. No caso do Ibracon, estamos tornando o desenvolvimento mais transparente, para que interesse ao setor produtivo e atraia parcerias. Pelo lado do setor produtivo tem que haver a conscientização da qualidade e da produtividade, além da necessidade de pensar alguns anos à frente em competitividade e inovação tecnológica. Não vejo nada que possa chegar e causar um grande impacto, mudando tudo de uma hora para outra.
Como o setor científico pode aumentar a segurança das empresas ao investir em pesquisa?
Estabelecendo parcerias. O governo federal, por meio do Ministério de Ciência e Tecnologia, mantém programas de desenvolvimento tecnológico e há os chamados fundos setoriais, como o da Agência Nacional de Petróleo, que recebe uma porcentagem do faturamento das empresas para aplicar em pesquisa.
Existe algo parecido para a construção civil?
Não diretamente, mas pesquisas na área de petróleo envolvem um lado da construção, como o desenvolvimento de plataformas e infra-estrutura. Toda a parte ligada à prospecção, por exemplo, também existe na área de energia, com a construção de barragens.
De que maneira o setor pode organizar-se para investir conjuntamente em pesquisa?
Sou mais envolvido com o setor de concreto e estruturas e posso afirmar que o Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto) procura articular o setor produtivo com o setor de pesquisa e desenvolvimento. O Instituto tem promovido congressos com participação bastante expressiva da indústria, de empresários e engenheiros. Não é um encontro apenas de pesquisadores. O mesmo pode ser feito por outras entidades.
Por que o conhecimento científico está mais próximo das empresas em países desenvolvidos?
Nos Estados Unidos, aproximadamente 70% dos doutores estão nas empresas. São pessoas altamente qualificadas, que dominam a metodologia de pesquisa e desenvolvimento e estão usando o conhecimento científico para produzir tecnologia dentro das empresas. No Brasil, a relação é inversa e até menos de 30% dos doutores está na indústria. Isso é parte da cultura científica e tecnológica e depende de um processo de amadurecimento. Afinal, enquanto o Hemisfério Norte tem instituições que se dedicam à pesquisa há mais de uma centena de anos, nosso sistema de pós-graduação é relativamente recente, da década de 70.
Há alguma maneira de aproveitar esse conhecimento que já existe nos países desenvolvidos?
Sim, mas é necessário estar preparado ou então nem é possível entender o que está sendo feito. Muitas vezes pensamos que podemos acompanhar processos construtivos, como já acompanhei visitas a fábricas de pré-moldados na Europa, e tentar fazer aqui. Mas a assimilação do conhecimento não é imediata.
As diferenças são muito grandes ou podemos alcançar o estágio evolutivo desses países?
Temos capacidade de fazer e somos muito competitivos em algumas áreas, mas precisamos investir em educação e pesquisa. Vimos que a Petrobrás investiu muito em pesquisa e desenvolvimento e não é à-toa que tem capacitação para extrair petróleo em alto-mar. O mesmo ocorre com a Embrapa e a Embraer, que são exemplos emblemáticos do investimento em pesquisa.
A construção brasileira já produziu alguma grande inovação?
Desenvolvemos e consolidamos tecnologias de construção de infra-estrutura, como barragens, estradas, pontes, túneis, portos e aeroportos, vias metroviárias, etc. No entanto, como tudo que acontece no mundo científico e tecnológico, há necessidade de um programa consistente de desenvolvimento e investimentos mais significativos, o que nem sempre acontece no Brasil.
No caso da construção civil brasileira, existem setores bastante evoluídos, como o do concreto, e outros que são deixados de lado. Por que essa disparidade?
É uma questão de mercado interno e faz parte da cultura construtiva. Um operário americano ou europeu ganha cerca de US$ 25 por hora e, por isso, há maiores investimentos em equipamentos para baratear a mão-de-obra. Ao mesmo tempo, como é um mercado consumidor mais exigente e com poder aquisitivo elevado, utiliza materiais de melhor desempenho e qualidade. Aqui preferimos baratear o custo dos materiais. Então, não é falta de capacidade das empresas brasileiras, mas conseqüência da condição atual, pois nossas empresas competem em concorrências de todo o mundo.
De que forma a Fapesp poderia incentivar a mudança dessa cultura?
A cultura construtiva faz parte de um complexo conjunto de valores. Muda à medida que os indivíduos crescem com educação, treinamento, consciência do seu valor na sociedade e com a diminuição da distância social. A melhoria do nível técnico-cultural só será alcançada quando um operário tiver consciência e reconhecimento dos seus valores individuais e as mínimas condições econômicas de aplicá-los nos seus empreendimentos pessoais. Isso vale para todos os atores da construção civil. Como professor, vejo nos últimos dez anos uma clara diminuição da motivação de alunos e professores quanto à qualidade do ensino e do aprendizado da profissão. É preciso valorizar o conhecimento e a capacidade de inovação e acabar com essa história de que a teoria não se aplica na prática.
Em construção civil a tendência é desenvolver tecnologias novas ou baratear as existentes?
Os dois. Temos problemas da má distribuição de renda e baixo poder aquisitivo, com a necessidade de desenvolver habitações para a população de baixa renda e, por outro, temos que dominar a tecnologia de ponta para nos mantermos competitivos do ponto de vista internacional.
É possível produzir boa tecnologia construtiva a custo baixo?
Acredito que sim, mas costumo analisar os empreendimentos e qualificar as soluções técnicas adotadas quanto à adequação tecnológica, levando em conta as condições e fatores limitantes vigentes no momento das decisões. Ou seja, a solução mais adequada é aquela que, naquele momento, melhor atende ao conjunto de requisitos da obra. Quando o custo é a limitante principal, a tecnologia mais adequada passa a ser a que satisfaz a requisitos técnicos mínimos e à disponibilidade financeira. No caso de habitações de interesse social, está claro que a solução não se limita ao desenvolvimento tecnológico, pois é uma situação muito mais complexa, de emergência social.
No caso do concreto, o que devemos esperar para o futuro próximo?
Seguimos as tendências mundiais, com os concretos de alto desempenho e auto-adensáveis. Existem trabalhos em São Paulo, em nível internacional, que abordam a previsão de vida útil das estruturas. No entanto, na prática, temos deficiência no monitoramento e manutenção de estruturas. A maioria dos acidentes é conseqüência da falta de manutenção e conservação.
A prática construtiva é um gargalo para o conhecimento científico que se produz?
Quando estudamos determinado assunto, pensamos anos à frente, com materiais e técnicas que ainda não são de uso corrente. Sabemos que, ao serem implementados, surgirão dificuldades com relação ao custo e à falta de mercado ou gente preparada para executar. É o caso do concreto de alta resistência, um material que propicia grande durabilidade com elementos esbeltos e maiores vãos. No entanto, exige um controle de qualidade apurado e mais rigoroso.
Que setores da construção carecem mais de investimento e pesquisa?
Para definir quais os setores mais necessitados deveria conhecer todos e avaliar o impacto das transformações tecnológicas. O que afirmo com convicção é que há carência de um processo de interação mais afinado entre pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, envolvendo a cadeia produtiva, representada pelas empresas, e a do conhecimento, representada pelas universidades e institutos de pesquisa.
O investimento em pesquisa é prioritário para o desenvolvimento da construção?
Antes mesmo de inovações mais avançadas, o setor da construção necessita de aperfeiçoamento dos fundamentos tecnológicos da produção, da qualidade e da produtividade. Isso está diretamente ligado à presença de profissionais bem qualificados, imbuídos de uma filosofia social e tecnologicamente correta.
De que maneira incutir essa consciência nos profissionais?
Melhorando a qualidade dos cursos de formação profissional, o que não depende somente das escolas, mas da motivação dada pelo mercado. Na medida em que o conhecimento, a competência, a criatividade técnica e a qualidade dos serviços forem valorizados pelos gestores do processo de construção, instala-se um círculo virtuoso cujos resultados devem aparecer rapidamente.
As pesquisas em saneamento e habitação são prioritárias na nossa construção?
Dentre os aspectos a discutir no que se refere à relação entre saneamento e construção, o que desponta desde os primeiros movimentos de uma obra é a gestão de resíduos. O curioso nesse assunto é que a construção, ao mesmo tempo em que gera um grande volume de resíduos, pode também viabilizar o aproveitamento de resíduos.
Para onde caminham as pesquisas nesse sentido?
Há pesquisas em diversas direções, como as que tratam da reciclagem de resíduos na produção de concretos e argamassas e de blocos de concreto. Há também trabalhos que visam a aplicação de borracha granulada, obtida pela moagem de pneus servidos, no concreto asfáltico. Pesquisadores da área de Ciência e Engenharia de Materiais mostram-se atentos às aplicações de materiais reciclados na construção, como os plásticos e os resíduos de madeira. Pesquisadores da Engenharia Sanitária e da construção civil têm estudado o uso racional da água em edifícios, assim como o reúso de águas servidas.