O engenheiro mecânico queria ser cadete, mas se tornou supervisor das maiores obras hidrelétricas do País
Reportagem de Bruno Loturco
PERFIL
Nome: José Gelázio da Rocha Idade: 78 anos Graduação: em Engenharia Mecânica e Elétrica, iniciada na Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1946, e concluída na Escola Politécnica da USP, em 1951 Empresas em que trabalhou: Cherp (Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo), Celusa (Centrais Elétricas de Urubupungá S/A), Cesp (Companhia Energética de São Paulo), Eletrobrás (Centrais Elétricas Brasileiras S/A), Itaipu Binacional e Isoterma Cargos que exerceu: chefe do Departamento Técnico da Cesp de 1966 a 1973, superintendente de Engenharia da Itaipu Binacional, de 1974 a 1978, diretor de Planejamento da Eletrobrás de 1978 a 1979, vice-presidente da Cesp entre 1979 e 1983 e presidente da Imbel (Indústria de Material Bélico do Brasil), de 1981 a 1989
O trabalho teve início em 29 de fevereiro de 1952. A superstição, no entanto, em torno da data bissexta fez com que Gelázio pedisse para ser registrado apenas em 1o de março. Mesmo assim, o recém-formado engenheiro ficou insatisfeito com o trabalho altamente mecanizado e sem desafios da planta. A sorte chegou logo e, em abril, começou a trabalhar na área que lhe garantiria muito do que conquistou na carreira. Uma vez no Daeesp (Departamento de Águas e Esgotos do Estado de São Paulo) foi trabalhar nas usinas do Rio Pardo.
Na década que passou lá, teve a oportunidade de viajar à Europa por oito meses para acompanhar estudos do vertedouro hidráulico de uma das usinas do complexo, conhecer centrais em diversos países e observar a aplicação da teoria que já conhecia.
O Departamento deu também a oportunidade de saber mais a respeito dos rios paulistas, principalmente do rio Paraná e do Salto de Urubupungá. Conseqüência dos estudos foi a concepção, e entrega à comissão interestadual da bacia Paraná-Uruguai, em 1955, dos projetos das Usinas Hidrelétricas de Jupiá e Ilha Solteira. No entanto, o projeto só começou a tomar corpo em 1960, com Carvalho Pinto no poder.
Foi nesse ano que a ensecadeira começou a ser construída e a Celusa (Centrais Elétricas de Urubupungá S/A) foi criada. Gelázio, por intermédio de seu amigo pessoal, Plínio de Arruda Sampaio, pôde assistir às reuniões organizadas pelo brigadeiro Faria Lima para discutir a viabilidade da construção da usina. Posteriormente, veio o convite para ocupar o cargo de coordenador do projeto do Rio Urubupungá. Na mesma época surgiu a idéia de otimizar o aproveitamento do Rio Tietê, com a união deste ao Rio São José dos Dourados e a criação da barragem de Três Irmãos. De concepção de Gelázio, o conjunto gera hoje cerca de 600 MW de potência instalada.
Com uma carreira bastante ligada às cíclicas mudanças políticas, Gelázio viu seu projeto de construção de Ilha Solteira sair do papel no instante em que Ademar de Barros assumiu o governo paulista. Segundo conta, o governante defendia que era essencial pensar na questão energética com dez anos de antecedência e, por isso, ordenou o início das obras, concluídas em 1978.
O sucesso desses empreendimentos tornou, aos olhos do governador Laudo Natel, o engenheiro mecânico a pessoa ideal para ocupar, em 1966, a chefia do departamento técnico da recém-criada Cesp (Companhia Energética de São Paulo), que coordenaria todos os projetos do ponto de vista da engenharia. Mais uma vez à mercê dos humores políticos, em 1973 houve uma reestruturação na Companhia e o departamento técnico do qual Gelázio era chefe foi praticamente extinto.
O mal-estar na Cesp durou pouco. Apenas até o engenheiro John Reginald Cotrim chamar-lhe às pressas ao Rio de Janeiro, emergência que obrigou Gelázio a cancelar uma viagem ao Paquistão. O motivo do chamado era a convocação de Cotrim à direção técnica de Itaipu, com a conseqüente obrigação de nomear dois superintendentes. O novo diretor tencionava nomear nosso personagem à Superintendência de Engenharia, como ocorreu em 1974. "Não mexi um dedo para ser chamado a Itaipu, fui nomeado devido à minha competência técnica", resume Gelázio, que também conta ter sido o período na Binacional um dos melhores de sua carreira, equivalente apenas ao período em que trabalhou para o governo Ademar de Barros.
Em Itaipu se deparou com a questão da freqüência, que no Brasil é de 60 Hz e no Paraguai é de 50 Hz. Sugeriu mudar a forma de transmissão de corrente alternada para corrente contínua, mas o problema se tornou político e só foi solucionado após reunião com o Ministério de Minas e Energia para explicar que era inviável financiar a adequação paraguaia aos nossos padrões. A corrente contínua foi, por fim, adotada.
Após um ano como diretor de Planejamento da Eletrobrás, assumiu a vice-presidência da Cesp, em 1979, para trazer à tona a questão nuclear. Depois dos quatro anos que considera os mais difíceis de sua carreira, aposentou-se. Ainda assim, passou oito anos à frente da presidência da Imbel, de onde saiu com o "mesmo título que teria se tivesse seguido carreira militar". Atualmente, trabalha num projeto de central reversível na Serra do Mar paulista, que está pronto e depende de iniciativa pública para se tornar realidade.
Dez perguntas para José Gelazio da Rocha
1) Obras marcantes de que participou: execução das usinas Hidrelétricas da Companhia Energética Urubupungá e da Usina Itaipu Binacional
2) Obras mais significativas da engenharia brasileira: todo o aproveitamento idealizado e realizado pela Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco
3) Realização profissional: projetar o conjunto das Centrais Hidrelétricas de Urubupungá, composto pelas usinas de Jupiá, Ilha Solteira e Três Irmãos, pois era uma iniciativa fantástica e inovadora para a época
4) Mestres: Roberto Mange, devido à fabulosa capacidade de organização, e Luiz Cintra do Prado, com quem teve aulas de física na Poli
5) Por que escolheu ser engenheiro: por influência de um amigo da família, Manoel Teófilo da Costa, que era engenheiro militar, que me incentivou a ingressar na Escola de Cadetes. Não passei, mas não desisti da profissão
6) Melhor escola de engenharia: Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
7) Um conselho ao jovem engenheiro: convencer-se de que o que sabe nunca é o bastante e perceber que só trabalhando vai entender a teoria aprendida na escola
8) Principal avanço tecnológico recente: acredito que na área hidrelétrica não há mais grandes novidades, pois está plenamente dominada e exige apenas imaginação dos profissionais. No entanto, ainda é possível inovar muito na área da eletrônica
9) Indicação de livro: não destaca nenhum
10) Um mal da engenharia: a soberba de pensar saber tudo e não valorizar o próximo e o trabalho alheio