Secretário-executivo do Programa Qualihab, Pileggi não é engenheiro, mas administrador de empresas desde 1972 e bacharel em Direito desde 1968 pelas faculdades de Administração de Empresas de Ribeirão Preto e Laudo de Camargo, da mesma cidade. Teve passagem pelo Banco Mundial e trabalha há 30 anos com gestão pública, tendo exercido cargos de consultor técnico do Programa de Implantação do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, diretor-administrativo e financeiro da Cohab-RP (Companhia Habitacional de Ribeirão Preto), secretário-adjunto da Secretaria da Habitação do Estado de São Paulo entre 1995 e 1996, presidente da Comissão Permanente de Licitações entre 1996 e 1999 e coordenador do PBQP-H (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat).
Aplicação prática de inovação tecnológica é, não raro, sinônimo de altos investimentos iniciais e, por conseqüência, privilégio das camadas sociais com maior poder aquisitivo. Por isso soa estranho quando o assunto é a adoção de modernos sistemas tecnológicos em empreendimentos habitacionais para a população de baixa renda. A lógica da organização social, a capacidade da indústria tecnológica de baixar custos quando se trata de larga escala e, essencialmente, mudanças significativas nos projetos de instalações explicam o fenômeno que vem ocorrendo no Estado de São Paulo. Sistemas que ainda não são aplicáveis nem em condomínios de luxo equipam prédios construídos pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), como é o caso da internet via rede elétrica ou mesmo do acompanhamento em tempo real do consumo de água, gás e eletricidade. Com foco na redução de custos de construção e, principalmente, de pós-ocupação, o Qualihab (Programa da Qualidade da Construção Habitacional do Estado de São Paulo) aposta na tecnologia embarcada para desonerar as famílias e tornar menos atraentes os contratos de gaveta ou a cessão dos imóveis ao tráfico, por exemplo. Em um futuro próximo, em virtude das influências do poder de compra do Estado, podemos esperar a difusão dos conceitos e tecnologias para o mercado em geral. O entrevistado deste mês da Téchne, o secretário-executivo do Programa, Raphael Pileggi, critica os métodos construtivos tradicionais e demonstra o papel do Estado no mecanismo de pesquisa voltada à utilização efetiva.
Que tecnologias prediais são adotadas hoje nos empreendimentos da CDHU?
São sistemas individualizados de medição de água, energia e gás, que, por conseqüência, alteram os projetos. No lugar de todo o cabeamento elétrico, passamos um barramento, que não possui soldas ou parafusos, apenas plugues e que reduz em 16% o custo de investimento no sistema elétrico. No caso do gás o investimento é reduzido em mais de 60% porque levamos um único tubo, que se distribui pelo edifício, com uma única fonte de reposição. Além disso, reduzem também o custo pós-ocupação, entre 4 e 6%. Já a medição de água reduz apenas o valor para o mutuário, em torno de 30%.
Na habitação popular, o que motiva a busca por novas tecnologias?
A real razão para começarmos a alterar o projeto não é o mero valor de pesquisa, mas a diminuição dos custos de pós-ocupação. Constatamos que, ao vender moradia para uma população que ganha até três salários mínimos, embora com prestação subsidiada pelo governo, os custos de pós-ocupação crescem mensalmente. O mutuário passa a pagar prestação da CDHU, condomínio, contas de água e energia, IPTU, despesas que não tinha quando estava na favela e era "gato" tanto de água quanto de eletricidade. Então, tivemos a idéia de utilizar tecnologias embarcadas, eletrônicas ou não, para reduzir os custos de pós-ocupação.