A pesar da variedade de caminhos a seguir dentro da profissão, poucos engenheiros podem se orgulhar de ter trilhado novos rumos em sua carreira sem se prender apenas aos cálculos. Como diz Júlio Capobianco, "a vida não é só matemática", e isso ele entende muito bem. Em 60 anos de profissão, Capobianco exerceu simultaneamente os cargos de engenheiro, construtor, empresário e diretor de diversas empresas, mostrando ao mercado que uma boa visão de negócios somada a investimentos audaciosos são elementos fundamentais para firmar uma carreira sólida e constituir uma empresa consolidada.
Essa versatilidade só foi possível graças à escolha de sua profissão. Influenciado por seu pai, o empresário não teve dúvidas ao optar pelo curso de Engenharia Civil da Poli-USP, considerado um dos mais abrangentes da época. Foi na universidade que Capobianco teve a oportunidade de aprender sobre os conceitos teóricos da construção civil. Entretanto, nem todos os ensinamentos se restringiram à grade acadêmica."Os fundamentos e a prática, esses sim, aprendi com meu pai e avô nas visitas às obras", revela.
Após a conclusão de seu curso,Capobianco iniciou sua carreira como supervisor de cálculos da Construtora Capobianco S/A, onde permaneceu por um ano. Em 1948, o engenheiro passou a trabalhar na área de projetos de estruturas atuando como assistente de Paulo Franco da Rocha, ex-diretor do IPT e USP. "O Paulo Franco da Rocha foi um mestre em estruturas. Nesse período (1948-1950) tive a oportunidade de vivenciar a execução de numerosos projetos de fundações e estruturas de edifícios", conta.
Contudo, foi a partir de 1950 que a carreira como empresário ficou evidente. Sua primeira empresa, a Ribeiro & Capobianco, Ltda. foi aberta em sociedade com seu cunhado e também engenheiro, Custódio Ribeiro Ferreira Leite. Desde então, uma série de outras empresas foram fundadas e dirigidas por Capobianco, como a Territorial São Paulo e Agrocap, além do ITQC (Instituto Brasileiro de Tecnologia e Qualidade da Construção) e a ABCC (Associação Brasileira dos Certificadores da Construção).
O carro-chefe, no entanto, ficou a cargo da Construcap, fundada em 1955, em parceria com os engenheiros José Mandacaru Guerra, John Ulic Burke Jr., José Ribeiro do Valle e Iório Adami, cujo objetivo inicial era executar apenas estruturas de edificações.
Pouco foi preciso para que Capobianco, seguindo as tendências do mercado,mudasse o rumo de sua carreira mais uma vez. Naquele momento, a infra-estrutura rodoviária brasileira encontrava-se em expansão e investir no setor era uma oportunidade altamente lucrativa. "Entrar nesse meio não era fácil. Nós tínhamos os requisitos necessários à construção, mas em estradas éramos calouros", conta. Por essa razão, o engenheiro não demorou a incorporar ao grupo Construcap a Construtora Pereira de Souza para executar tais atividades. Para Capobianco, a diversificação de trabalhos ainda é a melhor solução para o sucesso dos negócios."O importante é manter o pé em várias canoas, pois nunca se sabe qual vai afundar."
Outro ponto de vista muito defendido pelo engenheiro e considerado um avanço na construção civil foi a inserção do conceito de qualidade nas obras. Isso só foi possível, no entanto, com a criação do ITQC,em 1992.Nesse período, Capobianco ainda exercia a presidência do SindusConSP. Portanto, a melhor solução para evitar o conflito de interesses foi o desenvolvimento de uma instituição independente e qualificada que certificasse as construtoras, contribuindo, ainda, com a redução do desperdício de materiais no canteiro.
Outro fato que colaborou para a criação do instituto estava na discrepância obtida ao comparar preços em uma concorrência. "Com a qualidade exigida pelo ITQC, as empresas tiveram que nivelar seus preços na construção", conta Capobianco."Em pouco tempo, o instituto se tornou a maior certificadora da construção civil do País. Com ele introduzimos o Qualihab (Programa da Qualidade da Construção Habitacional) em diversas obras nacionais", lembra.
O conceito de qualidade trouxe, ainda, muitos avanços em termos de materiais na engenharia. Para se ter uma idéia, sem um rigoroso controle da qualidade não seria possível desenvolver o concreto de alto desempenho, responsável por diversas mudanças na arquitetura em termos de estrutura. "Apesar da qualidade das estruturas nacionais, o Brasil ainda perde quanto à questão das formas, mais valorizadas em outros países", avalia Capobianco.
Uma das grandes realizações do engenheiro refere-se à continuidade da Construcap. Capobianco se orgulha por consolidar uma empresa de tradição familiar que há anos vem passando de geração em geração. "A sucessão ainda é, para muitas empresas, um dos maiores problemas na continuidade dos negócios. Hoje, a vida média de uma construtora no País não passa de 15 anos", estima.
Dentre as obras mais recentes executadas pela construtora está a construção de edifícios para o Instituto Presbiteriano Mackenzie (São Paulo) e do CEU Aricanduva (Centro Educacional Unificado, São Paulo), em 2003, além da reforma e expansão da área de embarque e desembarque do Aeroporto Santos Dumont, em 2004."Minha última façanha foi a criação do Instituto Cultural Capobianco,no Centro de São Paulo", conta.
Após numerosos projetos, o engenheiro continua a surpreender e mostrar que sua versatilidade vai além dos negócios. Além da supervisão da Construcap, Capobianco dedica seu tempo a outras atividades culturais, como a pintura de quadros e a escrever livros.
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