RICARDO JULIÃO
Formado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie, em 1972. De 1968 a 1969 estudou os temas "Desenho Urbano e os Problemas das Grandes Metrópoles Contemporâneas" na Universidade de Sorbonne, na França. Em 1977, cursou "Administração e Planejamento Hospitalar", em Miami, Flórida. Em 1979, fundou o escritório Ricardo Julião Arquitetura e Urbanismo. Foi co-fundador e sócio da construtora Marcos Tomanik (1970 a 1976) e da Conserve Consultoria e Engenharia (1970 a 1978). Dentre diversos projetos, destaca o Cidade Nova, em Manaus, o Hotel Comandatuba, no Município do Una, na Bahia, Hotel e Shopping Center Bebedouro, em Bebedouro, em São Paulo. Na capital paulista, realizou projetos como o do restaurante Friday's, restaurantes McDonald's, Hotel Mercure e uma fábrica e edifícios administrativos para a Basf.
Cabe ao arquiteto coordenar e compatibilizar os diversos projetos que compõem uma construção? Para o arquiteto Ricardo Julião, a resposta é sim. "Não entendo como o arquiteto abre mão disso", indaga Julião, que há mais de 27 anos chefia um escritório de arquitetura que leva o seu nome. Privilegiar a função em vez da forma e realizar o acompanhamento técnico da obra, na opinião dele, também são atribuições da sua profissão. "Além de representar a vontade, o desejo e o bolso do cliente, só o arquiteto tem uma visão completa do projeto para coordená-lo", diz Julião que defende a idéia de que o arquiteto deve ser ao mesmo tempo criador e técnico da obra, a exemplo de renascentistas como Leonardo da Vinci e Michelangelo. Conceitos como plano de carreira e programa de capacitação interna fazem parte do seu escritório de arquitetura, composto por 51 funcionários.
"Ter uma perspectiva faz as pessoas investirem na empresa", acredita Julião que atualmente tem como sócios os arquitetos Márcia Mourad e Luiz Renato Horta Siqueira.A empresa carrega no currículo importantes projetos nas áreas comercial, educacional, hospitalar, residencial, institucional e de lazer. "Fazer de tudo", como o próprio Julião diz, é uma estratégia empresarial para sobreviver no inconstante mercado brasileiro. Investir no trabalho voluntário também caracteriza seu escritório, que é autor de projetos como a sede da Casa Hope, entidade sem fins lucrativos que oferece assistência social integral à criança portadora de câncer.
Na sua opinião, quais as principais mudanças ocorridas na profissão desde a sua formação, em 1972?
Uma das maiores mudanças é privilegiar a função em vez da forma. A idéia de que o arquiteto é um sonhador que privilegia a forma e que só faz coisas caras corresponde a uma falsa imagem divulgada por gerações anteriores. Hoje, os arquitetos, sobretudo os jovens, têm uma idéia clara de que seu papel social é atender ao homem e não à sua vaidade.
Falar e conhecer claramente a linguagem técnica, ter boas noções de estrutura, de mecânica dos solos e instalações é fundamental para que o profissional de hoje faça uma obra viável, sobretudo no que se refere aos custos e atendimento das necessidades do cliente. O arquiteto está retomando o papel de criador e técnico, a exemplo de arquitetos do passado como Michelangelo e Leonardo Da Vinci.
Seu escritório faz a coordenação de projetos complementares, atividade que não é muito difundida em escritórios de arquitetura. Quais são as ações envolvidas na coordenação de projetos?
Quando digo coordenação de projetos, também me refiro à compatibilização e ao gerenciamento. No meu escritório, todas essas atividades são feitas pela mesma pessoa, ou seja, por um arquiteto coordenador de projetos. É ele quem compatibiliza diferentes projetos e exige dos projetistas as devidas correções, para que o trabalho fique adequado àquilo que o arquiteto imaginou e ao que o cliente desejou num determinado momento. Esse é um trabalho específico que não pode ser decidido pelo calculista ou qualquer outro projetista complementar.
O construtor não dispõe de instrumentos para garantir uma boa execução da obra apenas com os projetos, separadamente?
Eu acredito que não. O projeto tem que ser coordenado, compatibilizado e gerenciado por outra pessoa. O construtor encontra conflitos que devem ser resolvidos por terceiros. Por exemplo: um pilar foge da parede. E agora? Ele pode tirar dois centímetros do pilar? Não é obrigação do construtor pensar nessas coisas. Simplesmente porque não é o negócio dele. Assim como não é o meu negócio construir.
A atividade de coordenação cabe naturalmente ao arquiteto?
Sem dúvida. No mínimo, cabe ao escritório autor do projeto de arquitetura. Nenhum outro profissional está mais apto a fazer a coordenação dos projetos complementares do que o arquiteto, pois é ele que representa a vontade, o desejo e o bolso do cliente. O arquiteto é como o maestro de uma orquestra. Só ele tem uma visão espacial completa para regê-la. Ninguém melhor do que ele está apto para acompanhá-la, fiscalizá-la e incorporar idéias técnicas dos outros projetistas complementares no seu trabalho. E, além de coordenar, deve fazer a compatibilização dos diferentes projetos. É ele que deve dizer aos outros projetistas complementares o que fazer, pois ele fala pelo cliente. Eu não entendo como alguns arquitetos abrem mão disso.
O futuro da profissão depende da postura do arquiteto frente a essa questão?
Como é a atuação dos arquitetos em outros países? Claro que depende. Em muitos países, como os de língua espanhola, por exemplo, os arquitetos não só assumem a coordenação, como também a direção geral da obra. E recebem por isso. Aqui, no Brasil, dizem: "Ah, mas o mercado não paga os arquitetos por isso". Não paga por conseqüência. É uma reação ao fato de o arquiteto fazer mal o trabalho ou, simplesmente, de não fazer esse trabalho. Não podemos deixar que esse problema também aconteça com a coordenação. Isso é obrigação do arquiteto.
Muitos arquitetos também não fazem o acompanhamento técnico da obra.
Nós temos um departamento só para isso. O projeto é muito importante no início do processo, mas depois ele vai perdendo importância. Assim, quem faz o acompanhamento técnico da obra fica fortalecido em todo o processo, mesmo no fim, quando o projeto já não é mais tão importante.
Outra vantagem de fazer o acompanhamento técnico é ter um controle sobre o resultado final da obra e aprender o que mais convém ou não ao seu cliente. Essa atividade nos permite, por exemplo, saber quais são os fornecedores que cumprem bem o seu papel e quais não cumprem. Acompanhar a obra nos ensina a separar o joio do trigo.
Quem faz a escolha dos fornecedores no seu escritório? Esse trabalho é feito pelos coordenadores de projeto, que devem submeter a decisão a mim e aos meus dois sócios. Aliás, meu escritório é conhecido no mercado por ser absolutamente isento em relação aos fornecedores. Um arquiteto que tenha quaisquer vínculos com o fornecedor seja ele familiar, financeiro ou afetivo, não estará fazendo a melhor especificação para o seu cliente.
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