Otema sustentabilidade vem sendo alvo de estudos e pesquisas em volume crescente, principalmente na última década. O conceito de sustentabilidade hoje é encarado de forma mais ampla, de maneira a tratar o ambiente físico, o econômico e o social, de forma equilibrada. Porém, observa- se que, em edificações, a maior parte das pesquisas realizadas, mesmo as de cunho essencialmente tecnológico, não têm conseguido abordar a questão com a desejada abrangência.
O presente artigo expressa uma reflexão sobre o vasto campo tecnológico da busca da sustentabilidade no edifício.Parte dos pressupostos de que o projeto é uma das peças-chave na articulação da referida busca e de que não dispomos de informações sobre sustentabilidade na edificação adequadamente tratadas e sistematizadas, prontas para a aplicação pelos projetistas. Parte também do reconhecimento de que, no Brasil,muitos esforços genuínos estão sendo despendidos na busca da sustentabilidade na edificação. Mas, assim como alguns resultados positivos relevantes vêm sendo efetivamente alcançados, percebe-se a ausência de um divisor comum, de uma matriz geral capaz de explicitar, entre os muitos elos das extensas cadeias produtivas que desembocam no edifício, os diversos pontos passíveis de melhorias quanto à sustentabilidade. Muitas vezes, o que hoje consideramos como "edifício sustentável" decorre de um entendimento apenas parcial do problema.
Ainda que este breve trabalho pretenda abordar apenas questões inerentes à construção formal, precedida de projeto, cabe, de imediato, um comentário. É sabido que grande parte das áreas edificadas, pelo menos nas metrópoles brasileiras, são de cunho informal e, na maioria das vezes, não seguem um projeto.As opiniões variam, mas já houve quem afirmasse que 70% das construções, em São Paulo, são informais. Para trabalharmos na realidade atual cabe, pelo menos, ter a consciência de que deveremos também estender instrumentos de busca da sustentabilidade para os que constroem sem projeto formal, informando-os, na medida do possível, sobre os prejuízos ambientais que se associam à edificação. É desejável,por exemplo,que de alguma maneira, a informação de caráter técnico-ambiental chegue à obra irregular, seja por meio de folhetos, cartilhas e demais meios, seja pela incorporação, às embalagens de produtos de construção, de dados ambienartigo tais. Atacadistas e depósitos de materiais de construção seriam pontos de divulgação bastante favoráveis para esse tipo de informação.
Sustentabilidade no edifício: algumas visões parciais
O grande volume de informação que hoje circula faz chegar até nós tanto bons conhecimentos quanto afirmações imprecisas, incompletas ou até mesmo equivocadas. Aos poucos, conceitos parciais ou mesmo errôneos podem virar verdades absolutas para alguns, uma vez que leram alguma coisa a respeito na internet ou em uma propaganda confundida com matéria técnica. No que diz respeito a edificações e sustentabilidade, o fato é notório.Ainda que, no período recente, alguns novos edifícios venham, de fato, incorporando recursos nitidamente favoráveis à sustentabilidade, incluindo cuidados ambientais na construção, ou sistemas de economia de água ou de energia elétrica, de utilização da água de chuva e de fontes alternativas de energia, o processo geral da produção do edifício continua envolvendo enormes prejuízos acumulados à natureza. Isso fica evidente se consideramos todas as complexas cadeias produtivas associadas à construção civil, que incluem desde a extração de diversas matérias-primas, passando pela fabricação de materiais e componentes construtivos e estendendose por sua reunião no edifício. Ao longo de todo esse complexo processo, áreas às vezes distantes foram degradadas,muita energia foi gasta em produção e transporte, muitos efluentes danosos foram lançados e, não raro, alguma mão-de-obra passou por algum tipo de utilização predatória.
Além desse primeiro desvio conceitual, hoje fortemente presente, há uma segunda variante de informação incompleta, que tem ganhado raízes, e redunda no conceito vigente de materiais naturais como materiais sustentáveis. Se uma casa é construída com madeira, tende automaticamente a ser denominada de sustentável ou ambientalmente correta, não importando se a madeira utilizada tenha sido utilizada, por exemplo, em São Paulo, vinda do Pará, acumulando grande energia no transporte e, eventualmente, passando por algum tipo de imunização que pode envolver produtos prejudiciais à saúde.Nessa óptica mais ampla, até mesmo alguma madeira certificada pode facilmente ser considerada como não sustentável. O mesmo se aplica a componentes cerâmicos para alvenarias ou para coberturas, largamente entendidos como materiais naturais, pois provêm do barro, esquecendo-se da enorme quantidade de energia gasta em sua produção e transporte, ou das crateras nas regiões de extração de argila.
É sabido que a maior parte dos materiais e componentes utilizados na construção, entre diversos fatores desfavoráveis, do ponto de vista ambiental, demandam, entre outros insumos, grandes quantidades de energia para sua produção (e gastar muita energia significa ter que produzi-la, o que envolve, via de regra, sérios prejuízos ambientais, mesmo em se tratando de hidrelétricas). Acumulamse, ainda, prejuízos nas áreas e regiões de extração das matérias-primas, envolvendo desde a simples retirada de materiais - com a conseqüente criação de buracos em cavas ou túneis, a contaminação de solos e de cursos d'água por efluentes industriais, a criação de pilhas de rejeitos etc. Esse fato, em parte, se repete nos processos de produção de alguns materiais e componentes construtivos.
O cimento, a brita, o aço, o alumínio, o cobre, o latão, o vidro e os componentes cerâmicos, tradicionais constituintes do menu básico da construção, dão claros exemplos do ponto de vista do consumo de energia e de impactos ambientais.Mas se temos certa consciência dos prejuízos à natureza associados à indústria de materiais e componentes de construção, é também necessário admitir que não temos ainda sucedâneos convincentes para a maioria dos produtos mencionados e que, provavelmente, seu uso deve ainda se prolongar por muito tempo.
Não devemos, porém, de forma alguma, deixar de tentar compreender, em detalhe, o que ocorre no macrocomplexo da construção civil, no que diz respeito à sustentabilidade. Somente pesquisas abrangentes, com a leitura desapaixonada dos danos ambientais acumulados ao longo dos processos envolvidos, podem encaminhar ações responsáveis e balizadas, a médio e longo prazo.Com certeza, estamos falando de trabalhos de longa duração, que podem demandar esforços por extenso período, mas que devem ser iniciados de imediato, para que esforços mais direcionados e consistentes passem a pautar a genuína busca da sustentabilidade. Tais esforços devem abranger desde a origem dos materiais e componentes construtivos, passando pela concepção, construção, uso,manutenção e reforma do edifício e alcançando sua desativação e demolição, aí incluindo a destinação final do entulho ou sua reciclagem.
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