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Subterrâneo em revista



ANDRÉ PACHECO DE ASSIS

Marcelo ScandaroliEx-presidente da ITA (Associação Internacional de Túneis), liderando-a entre 2001 e 2004, é presidente das forças-tarefa "Treinamento e Educação", "Estruturas Subterrâneas de Relevância Mundial" e "Estudos de Viabilidade do Túnel do Estreito de Gibraltar", da mesma instituição. Leciona na UnB (Universidade de Brasília) e acaba de concluir estadia como professorvisitante do Instituto Tecnológico Federal de Lausanne, na Suíça. Graduado na UnB em 1980 e doutorado na Universidade de Alberta (Canadá) em 1990, concluiu pós-doutorado no Departamento de Engenharia de Minas na Escola de Minas Mackay, em Nevada, nos Estados Unidos, em 1997. Atual membro do corpo editorial do International Journal on Tunnelling and Underground Space Technology, de Londres, foi consultor da Companhia Vale do Rio Doce entre 1994 e 2000, do Consórcio Construtor do Metrô do Distrito Federal, entre 1998 e 2000, dentre outras atividades.

Quando a superfície está ocupada e é complicado ocupar o espaço aéreo, por motivos técnicos ou legais, a solução é crescer para baixo. Nessa situação, comum nos grandes centros urbanos, é que apostam as instituições tuneleiras mundiais por intermédio da ITA (International Tunnelling Association). Versátil, o subterrâneo pode abrigar desde obras de infra-estrutura de transportes, como túneis rodoviários ou ferroviários, incluindo o metrô, até redes de utilidade públicas, como tubulações de água, gás, eletricidade ou dados. Novas tecnologias, como as escavadoras não-tripuladas para túneis de diâmetro reduzido, têm trazido novas possibilidades para o setor tuneleiro mundial, diminuindo riscos e custos. Ainda assim,muito falta a ser feito, especialmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. Uma das principais questões a serem respondidas, conforme aponta André Assis nesta entrevista, diz respeito ao custo-benefício das obras subterrâneas. Para ele, analisar os túneis exclusivamente sob o ponto de vista imediato dos custos é garantia de abandonar os investimentos nessa área. Obras abaixo do solo exigem análises globais de custos de construção, operação e manutenção, além de custos indiretos com energia para transporte e riscos de acidentes, por exemplo. Mais do que uma decisão técnica, optar por esse tipo de obra é pensar estrategicamente. Tanto que, alerta Assis, se as empresas brasileiras não se organizarem para as demandas iminentes, o potencial brasileiro pode ser tomado pela iniciativa estrangeira.

De que maneira o uso do espaço subterrâneo promove a melhoria do ambiente urbano?
Sem dúvida alguma é no ambiente urbano que o uso do espaço subterrâneo vem se destacando em todo o mundo, como forma de revitalização dos centros. A "Era Ambiental" do uso do subterrâneo baseia-se na máxima utilização possível desse espaço para fins de infra-estrutura, liberando a superfície para fins mais nobres, tais como moradia, trabalho, lazer e entretenimento.

Com que obras, então, ocupar o subterrâneo?
Podemos citar os meios de transporte, em especial os de massa, as redes de utilidades públicas, garagens subterrâneas e até mesmo casos menos comuns, como cavernas e túneis para controle de enchentes e armazenamento de petróleo. Esses exemplos vêm ao encontro dos princípios ambientais.Vias de transporte subterrâneas, por exemplo, como alternativa às expressas de superfície ou elevados, não trazem os efeitos maléficos da segregação urbana ou de enorme desvalorização imobiliária das áreas vizinhas.

Isso significa que obras subterrâneas não provocam os mesmos efeitos?
No caso de priorizar sistemas metroviários subterrâneos, além das vantagens de um transporte rápido, pontual e seguro, reduzem-se os engarrafamentos e suas conseqüências. Além do mais, existe o bônus da valorização imobiliária. As garagens subterrâneas, além de alternativa ao infeliz conceito de edifícios-garagem, podem recuperar praças perdidas no passado ou criar novos espaços de lazer em substituição a estacionamentos de superfície. O mesmo vale para o armazenamento de petróleo em cavernas, que podem devolver grandes áreas urbanas, hoje ocupadas por tanques de estocagem.Alternativa ainda mais segura quanto a risco de incêndio e explosões.

Qual o panorama para o setor tuneleiro? Os governos tendem a investir mais nesse tipo de obra-de-arte?
É de franca expansão em termos mundiais. De forma geral, os países desenvolvidos, que já contam com eficientes redes de transporte, têm se voltado para a atualização e reabilitação desse tipo de infra-estrutura, para a construção de túneis, adequados às novas especificações dos trens de alta velocidade, e de estruturas subterrâneas específicas para a revitalização dos centros urbanos. Exemplos são a Artéria Central de Boston e o Projeto Stuttgart 21.Nos países em desenvolvimento, onde as áreas metropolitanas não deixam de crescer e carecem de todo tipo de infra-estrutura, as maiores demandas estão nos transportes de massa e nas redes de utilidades públicas.

Essas demandas, no caso dos países em desenvolvimento, dependem de que para se tornarem realidade?
Estes e outros exemplos mostram que o setor cresce e que a demanda futura é ainda maior. A capacidade de transformar demanda em obras depende muito das prioridades dos governos e, infelizmente, infra-estrutura não tem sido prioridade no Brasil já há muitos anos. O que tem sido feito é muito pouco, e sob pressão do atraso, do caos urbano. No momento presenciamos um aumento da rede do Metrô de São Paulo de cerca de 15 km nos próximos quatro anos,o que para o Brasil é um marco.No entanto,a Espanha construiu 120 km de metrô em dez anos; a Coréia do Sul, 160 km e a China, 400 km. Ou seja, ainda temos muito a caminhar nessa área. Se priorizássemos esse tipo de transporte, certamente teríamos pelo menos dez cidades brasileiras com metrôs em construção e expansão.

Para onde o Brasil tem direcionado o potencial tecnológico tuneleiro?
Nos últimos anos,no Brasil, a novidade foi o setor de energia. As hidrelétricas, ao buscarem arranjos mais competitivos e de menor impacto ambiental, encontraram como solução a priorização do circuito hidráulico subterrâneo. Esse tipo de obra subterrânea está em franca expansão no Brasil.

Desenvolvemos tecnologia específica para esse tipo de obras?
Em toda obra complexa, como as subterrâneas, existe desenvolvimento tecnológico, adaptação de métodos construtivos ou equipamentos e instrumentos. Mas no Brasil não temos o hábito da patente e muito pouco tem sido reconhecido como tecnologia desenvolvida no País.

E em relação à técnica, para onde tem se desenvolvido o setor?
O setor tem se desenvolvido e aperfeiçoado tecnologicamente em todas as direções. No caso da escavação seqüencial há muito desenvolvimento nos equipamentos de perfuração, escavação e aplicação de concreto projetado, bem como nas tecnologias de melhoria de maciço e nos produtos, incluindo aditivos,membranas de impermeabilização e explosivos.No caso da escavação mecanizada de face plena, as tuneladoras, o salto tecnológico na última década foi estrondoso, principalmente com a pressurização da face durante a escavação aliada à resposta em tempo real de diversos tipos de monitoração. Assim, hoje é possível medir o recalque de uma edificação e a máquina se auto-ajustar para minimizar os possíveis danos.

Quais novas tecnologias já são realidade e quais devem se tornar corriqueiras no futuro?
Uma tecnologia que vale ser destacada é a das tuneladoras não-tripuladas de pequeno diâmetro, guiadas por sistemas de posicionamento e úteis para túneis de utilidades públicas. Embora já em uso,devem ser tornar corriqueiras devido ao pouco distúrbio provocado no ambiente urbano. Por fim, a tecnologia mais futurista, mas que certamente vai se tornar realidade, é a dos túneis flutuantes, usados para cruzar corpos de água sem a necessidade de irem ao fundo, mas ao mesmo tempo deixando uma cobertura de água para tráfego de embarcações.Essa tecnologia irá permitir a travessia onde o fundo é muito profundo, exigindo longos alinhamentos, ou em condições geológicas extremamente desfavoráveis.

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