FRANCISCO PAULO GRAZIANO
Membro-relator da comissão de revisão da NBR 6118-2003 - Projeto de Estruturas de Concreto - e projetista estrutural há mais de duas décadas, tem vasto conhecimento sobre as virtudes e defeitos do texto normativo. Atualmente afastado do movimento pró-revisão e da Abece, vê com otimismo a abertura a sugestões oriundas da comunidade. É engenheiro civil formado pelo Instituto Mauá de Tecnologia, em 1976, e Mestre em Engenharia de Estruturas pela Escola Politécnica da USP, em 1988. Desde 1979 é professor do Departamento de Estruturas e Fundações da Poli e, desde 1997, responde pela cadeira de concreto armado e protendido da Mauá. Em 2004 foi eleito engenheiro-destaque do ano em engenharia de estruturas, pelo prêmio Emílio Baumgart. Em 2003 assumiu a direção da Pasqua & Graziano Associados, escritório de consultoria, concepção estrutural e projetos. |
Ao lançar o movimento Ação Abece NBR 6118:2003 - Pró-Revisão 2008, a Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural procura manter o texto da NB-1 atual e pertinente com a evolução tecnológica, a mesma motivação que pautou a última revisão,vigente desde março de 2004.A iniciativa é pioneira em dois sentidos. Primeiro porque, embora recomendável, não é comum no Brasil, revisarse uma norma passado tão pouco tempo desde a publicação.Depois,porque em vez de reunir especialistas em torno do texto para propor mudanças, a Associação fez de seu site um canal para o recebimento de propostas a partir da comunidade construtora.A idéia é,portanto, que a norma se adapte definitivamente à realidade executiva, angariando elementos que eliminem problemas de interpretação e moldando as diretrizes também com base nos custos que representam. Francisco Paulo Graziano, ausente dessa iniciativa, mas relator e usuário do texto anterior,aprova a ação e acredita que o maior defeito da norma, a falta de clareza em alguns tópicos, será minimizado.Obviamente, a proposta reflete também uma das maiores preocupações da Abece na atualidade, a falta de valorização do profissional estruturalista. Nesse sentido, busca salientar responsabilidades e esclarecer a influência sistêmica dos custos e desempenhos da estrutura. Para tanto,uma norma atual é imprescindível para aproveitar objetivamente os avanços tecnológicos na área de concreto. Ademais, o setor se mostra ativo e atento aos anseios do mercado da construção.
Passados pouco mais de três anos desde a publicação, por que propor alterações para a NBR 6118?
A idéia é que a norma não fique tanto tempo sem revisão. O texto de 78 teve uma pequena atualização em 1980, com revisão mesmo só em 2003. A intenção é fazer tudo mais rápido, para que não fique desatualizada em relação à técnica.
O que é falho no texto atual?
Existem insatisfações com alguns pontos, textos e interpretações, ou com a experimentação de procedimentos cujos resultados não sejam muito bons.Mesmo tendo empreendido esforços para a redação da norma, o exercício gera correções e atualizações e é bobagem imaginar que tudo está perfeito. Pode ser que alguns casos não tenham sido bem cobertos ou que estejam pouco claro. A Abece fez um canal para o recebimento de proposições.
Existem pontos que nitidamente precisam de revisão?
Mudanças radicais, de forma nenhuma, mas talvez alguns pontos venham a ser discutidos sob uma luz diferente. Lógico que sou suspeito porque, ao ler muito um texto, pensamos em "como deveria ser". Existem melhorias a serem feitas na redação da parte de torção, por exemplo, e sobre como usar algumas expressões. Punção é um assunto que está em evolução e merece contribuições. O dimensionamento de pilares e armaduras ficou bastante econômico e, talvez,mereça uma avaliação para vermos se é isso mesmo que queremos.
Por que é importante receber sugestões da comunidade?
Como começamos a discutir isso entre 1992 e 1993, passei a entender melhor muita coisa que achava conflitante. Acompanhei tanto a evolução do texto, que ficou óbvio, mas quem lê pela primeira vez tem dificuldades. Por isso acredito que as revisões terão um ponto de vista didático para tornar o texto mais claro. Garanto que boa parte das críticas terá a ver com mau entendimento do texto.
A norma deve se tornar mais exigente com a segurança?
Ao contrário, no caso de dimensionamento de pilares abriu possibilidades de obter mais economia, o mesmo ocorrendo com cisalhamento. Um tópico que talvez possa ensejar redução de custos é pilarparede, que foi onerado e pode ser explorado. Os aspectos de durabilidade e cobrimento têm exigências adicionais que não vão mudar e teremos que nos adaptar.
Os cursos falam de código de defesa do consumidor. Por que o consumidor final deveria se interessar pela norma?
Para perceber a importância,mas acho difícil que se interesse. Conheceria a seguinte realidade.Uma estrutura,em um prédio de apartamentos representa de 20 a 25% do custo de construção. Se pensarmos que toda e qualquer melhoria ou benefício implementado depende de seu bom desempenho, problemas estruturais inviabilizam uma obra mesmo que os materiais sejam de primeira linha e a execução cuidadosa.
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