Antonio Carlos Zorzi
A especialidade em gestão da produção de edifícios levou Zorzi a dar aulas para as turmas do MBA homônimo da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo). Na prática, a partir dos mesmos conhecimentos, comanda a diretoria técnica da Cyrela Brazil Realty, construtora que, em 2006, construiu quase 300 mil m2 apenas na região da Grande São Paulo. Área essa sob a tutela de Zorzi, que também é responsável pelas operações da empresa, onde lida com exigências internas por produtividade e custos compatíveis com a realidade de mercado baseadas em procedimentos bem detalhados e rígidos padrões de qualidade. É mestre em engenharia pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) desde 2002, com graduação na Fesp (Faculdade de Engenharia de São Paulo), em 1981.
Em toda a indústria, empresas com propósitos bem consolidados costumam trabalhar com o dilema que contrapõe custos e qualidade. A pergunta constante nos corredores das diretorias é: podemos reduzir custos e aumentar a produtividade sem descuidar da qualidade do produto final nem da mão-de-obra? Exceder para o primor qualitativo pode acarretar em custos elevados no que diz respeito a orçamentos e prazos. Por outro lado, relegar a excelência em virtude do barateamento coloca em xeque o próprio sentido da atividade. Ou seja, faz questionar, no caso da construção civil, se uma construtora tem razão de existir senão para explorar as infinitas possibilidades da engenharia, contribuindo para o desenvolvimento financeiro e intelectual do País. A resposta talvez esteja na própria atividade construtiva, conforme revela a experiência bem-sucedida da Cyrela Brazil Realty. Para o diretor técnico da empresa, os resultados são positivos quando, além do lucro imediato com um empreendimento, os clientes dão informações sobre o desempenho da edificação e os fornecedores voltam a trabalhar com a construtora. Isso revela, por meio de uma ferramenta de gestão complexa, que investir em informação estratégica e em processos mais precisos de produção e gerenciamento é imprescindível para aumentar a produtividade. No entanto, ainda há fatores culturais que demonstram não bastar ter tecnologia à disposição para permanecer na vanguarda do mercado. Confira a seguir na conversa que Antonio Carlos Zorzi, diretor técnico da Cyrela, teve com a Téchne.
Quais os desafios enfrentados por uma construtora que atua no mercado imobiliário brasileiro?
Um quesito básico para a sobrevivência é a competitividade, com mão-de-obra e tecnologias construtivas eficientes para que exista viabilidade econômica e qualidade. Não participamos de concorrências, pois o incorporador é do mesmo grupo, mas o nível de exigência é alto e o desempenho é muito cobrado. Temos que alcançar custos compatíveis e manter a qualidade e o nome da empresa por meio de acertos com fornecedores e respeitando o especificado em projeto.
A maior dificuldade é conciliar preço à qualidade?
Não associo qualidade a custo, pois temos padrões de qualidade dos quais não fugimos. Procuramos melhorar o desempenho com parcerias e atuando junto a fornecedores de materiais e mão-de-obra. Esperamos que os grandes volumes que negociamos tragam resultados competitivos. Em contrapartida, por meio da gestão da construção, procuramos ajudar os fornecedores a reduzir custos e a aumentar a produtividade.
Como a construtora capta informações sobre as necessidades do mercado?
Por meio de pesquisas coordenadas pela área de incorporação. Além disso, pelo menos três áreas têm contato com o cliente no pós-venda e retroalimentam a incorporação. As áreas de Relacionamento com o Cliente, de Assistência Técnica e de Modificações detectam insatisfações em relação a patologias e a questões incorporadas ao projeto. Em paralelo, uma das alternativas do incorporador para facilitar a venda é a personalização de unidades superior a 50% e que capta as expectativas do cliente.
Há muitas peculiaridades entre os empreendimentos?
Cada empreendimento apresenta particularidades que exigem projetos específicos e técnicas construtivas não necessariamente iguais. Ao compararmos dois edifícios com mesmo conceito estrutural, será necessário desenvolver projeto de fôrma e cimbramento para cada um. Isso porque é muito provável que existam diferenças na altura entre pisos e espessuras de lajes, dentre outras.
Quais as dificuldades em atender a essas demandas?
Construir um prédio não é multiplicar a área dos pavimentos pela quantidade de andares. A personalização faz com que unidades teoricamente iguais apresentem diferenças significativas, envolvendo paredes internas, pontos elétricos e hidráulicos, materiais de acabamento, dentre outros. Isso exige eficácia na gestão de produção, que ficou mais delicada e complexa para a engenharia e para a equipe de produção.
Soluções flexíveis, como o drywall, ajudam a resolver problemas de personalização?
Com mais tempo para saber da decisão do cliente, ajuda, pois apresenta menos interfaces entre as variáveis e pode ter execução postergada. Isso minimiza efeitos decorrentes do tempo entre a decisão do cliente e a assinatura do contrato. Ao adiar o serviço, há menos chances de executar etapas que não deveriam ter sido realizadas.
Quais outras soluções facilitam a flexibilização?
Uma delas é o lançamento estrutural. Estruturas reticuladas de concreto e com vigas dificultam a personalização. Por isso edifícios de altíssimo padrão têm lajes planas ou protendidas. Em prédios com estrutura reticulada, nos pontos em que prevemos ampliação, como no caso de dormitórios reversíveis, tiramos a viga. Consideramos mudanças futuras para, no caso de um cliente tirar uma parede posteriormente, não surgirem patologias.
São graves ou recorrentes as complicações provocadas por falta de treinamento da mão-de-obra?
É o fator de maior influência nos problemas detectados em serviços. São perceptíveis diferenças na produtividade, qualidade final e terminabilidade do serviço ao executar tarefas com equipe treinada e qualificada. Assim, por se tratar de um serviço que é caminho crítico no cronograma e cuja qualidade influencia significativamente os demais subsistemas, a Cyrela executa serviços de carpintaria com mão-de-obra própria. Treinamos os operários com base em procedimentos padronizados e, por estarem há mais tempo na empresa, eles adquirem experiência e apresentam resultados surpreendentes em produtividade e qualidade do produto final.
Se a mão-de-obra brasileira tivesse formação técnica de boa qualidade, as construtoras poderiam trabalhar de forma diferente?
A qualificação da mão-de-obra, por participar ativamente dos resultados, pode influenciar a forma de trabalho da construtora e contribuir para a evolução do processo de gestão da produção. A melhoria da capacitação da mão-de-obra é uma necessidade efetiva do setor.
Como avaliar a mão-de-obra contratada?
Desde 2000 nosso sistema de gestão da qualidade baseia-se na ISO 9000 e não objetiva a publicidade, mas os resultados. Como prestamos serviços para nós mesmos, o sistema é bastante maduro, consolidado e repleto de procedimentos detalhados. Os serviços são avaliados durante e após a execução, contemplando o prestador de serviços nos quesitos mão-de-obra, qualidade, prazo, acabamento dos serviços e limpeza. Os relatórios são analisados e discutidos com os gerentes. Daí é montado um plano de ação e tomadas as providências consideradas necessárias.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>