O acidente na Linha 4 do Metrô de São Paulo que tragicamente matou sete pessoas abalou a engenharia civil brasileira. E para acentuar o quadro, nos dias que se seguiram ao fato, o setor foi ainda mais atingido com variadas especulações sobre as causas do acidente – uma prática infeliz, mas recorrente em episódios do gênero, que esbarra em limites éticos e de responsabilidade profissional. É natural que um acidente de tais proporções crie forte demanda por informações. Debates sobre a redução de riscos, a melhoria da qualidade e as técnicas envolvidas nas obras subterrâneas são bem-vindos e necessários. Apontar prematuramente as causas do acidente, entretanto, é subestimar a engenharia nacional. É ignorar a complexidade técnica envolvida em uma obra desse porte e os métodos periciais que vão identificar, de fato, as falhas que ocasionaram o desabamento. É por esse motivo que Téchne não irá especular. Aguardaremos o laudo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), para quem a missão foi sabiamente confiada. Será a partir desse documento – não divulgado até o fechamento desta edição – que vamos debater, do ponto de vista técnico, as causas diretas do desabamento e ampliar também a discussão sobre supostas causas indiretas, como as formas de contratação de obras públicas. Afinal, ocorrências dessa natureza obrigam o setor a se repensar não apenas do ponto de vista técnico, mas também em relação aos seus valores básicos e procedimentos de gestão. Precisamos debater, por exemplo, a falsa idéia corrente na sociedade de que a engenharia civil é uma ciência exata, desvinculada das condicionantes de custo e prazo impostas pelos contratantes. Registramos aqui nosso compromisso de não esquecer o assunto. Afinal, a nossa engenharia tem obrigação de aprender com seus erros – sejam técnicos, contratuais, econômicos ou até políticos. De forma aberta, franca e sem traços de corporativismo.