Os recentes acidentes seriam um reflexo da crise da engenharia civil brasileira? Ou uma oportunidade para a sociedade aprender a valorizá-la? O que hoje pode ser visto como ataque ou humilhação talvez seja o ponto de partida para uma necessária mudança de paradigma. Fato é que, pouco mais de um mês após a tragédia do Metrô em São Paulo, a queda de uma marquise, no Rio de Janeiro, fez novas vítimas. Esta edição já previa uma matéria sobre essas estruturas, planejada bem antes da trágica ocorrência. Não por acaso, pois o problema das marquises causa preocupação no meio técnico há muito tempo. O Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto) e a Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) já haviam dado o alerta para o grave risco dessas estruturas desabarem sobre o passeio público por má conservação ou até por mau dimensionamento. É claro que, assim como no caso do Metrô, a engenharia nacional não merece ser crucificada. Para a sociedade, entretanto, as questões se confundem. As pessoas assistem aos telejornais e, pasmas, lançam sérias dúvidas sobre o trabalho dos engenheiros, sua capacitação técnica e até sobre a ética dos profissionais. Mesmo cientes dos preconceitos envolvidos e do sensacionalismo que por vezes percorre a cobertura de alguns poderosos veículos de comunicação, julgamos necessário discutir o assunto e procurar, sem ufanismo ou corporativismo, resgatar a imagem da profissão. Formação acadêmica, atualização profissional, legislação e contratos de obras públicas, terceirização e qualidade são temas que precisam ser valorizados não apenas em páginas de revistas ou eventos setoriais. Devem fazer parte do cotidiano dos profissionais. E de volta às marquises, há um perigo "suspenso" sobre nossas cabeças. O presidente do Ibracon, o professor Paulo Helene, acredita que está na hora de reduzir, na norma, as tolerâncias de abertura de fissuras e recomendar o uso de concretos mais coesos, menos permeáveis e até de armaduras inoxidáveis ou galvanizadas. Helene revela que países como Argentina e Estados Unidos já adotaram leis rigorosas tanto na execução quanto na manutenção dessas estruturas. Não devemos fazer o mesmo?