Construtor e ex-professor do curso de pós-graduação em engenharia civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Emilio Kallas tem uma visão bastante abrangente dos problemas relativos à formação e atividade da construção civil brasileira. Formado pela Poli em 1973, pós-graduou-se em Administração Contábil e Financeira pela Escola de Administração da Faculdade Getúlio Vargas. Retornou à Poli e lá concluiu o mestrado em 1981, doutorando-se em 1989. Foi consultor da área de Avaliação Econômica das Habitações e Racionalização de Custos do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) e da área de obras da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). É membro do conselho editorial da revista Téchne.
Há aproximadamente um ano algumas das principais construtoras brasileiras abriam capital e começavam a atuar à mercê dos humores que comandam a bolsa de valores. Sob um rótulo de "profissionalização efetiva", tiveram que adequar muito mais que o departamento de tesouraria para obter sucesso – ou ao menos sobreviver – num mercado dominado pela especulação e que não tolera falhas. Os efeitos práticos da abertura de capital ainda não podem ser notados a olho nu, mas decorrem de uma concorrência muito mais acirrada, que exige redução de custos com aumento de eficiência e preciso cumprimento de prazos. Dentre as principais diferenças está a exposição a que estão submetidas essas empresas, sujeitas à transparência dos processos exigida pelo mercado. De acordo com o entrevistado desta edição de Téchne, o engenheiro e construtor Emilio Kallas, o nível técnico do setor deve aumentar para atender à demanda imposta. Junto com essa elevação, a valorização dos corpos técnicos das empresas, que ganham também em responsabilidade. No entanto, ainda há ajustes a serem feitos para que esse mecanismo funcione de fato. O primeiro deles seria a mudança de foco dos próprios investidores, que deveriam se preocupar mais com a capacidade técnica e de gestão de uma empresa do que com sua capacidade de acumular empreendimentos. Depois, uma profunda revitalização das leis trabalhistas, sociais, ambientais e construtivas, que atualmente engessam a atividade construtiva, principalmente por haver enormes incompatibilidades entre os prazos das atividades judiciárias e da construção civil.
Com a abertura de capital a concorrência entre as construtoras aumentou de fato?
Aumentou e irá aumentar mais. Haverá muito mais produtos para a escolha do consumidor e isso possivelmente fará com que os preços caiam. Entretanto, gostaria de fazer uma separação entre incorporadora e construtora, pois a maior concorrência será entre as primeiras, que desenvolvem os produtos residenciais ou comerciais. Não perceberemos, a princípio, essa concorrência porque haverá um grande aumento nos insumos desses produtos, em especial haverá acréscimos nos custos dos terrenos e de mão-de-obra. Quanto às construtoras, essas têm que estar preparadas técnica e tecnologicamente para enfrentar o desafio.
Como uma construtora se prepara, técnica e tecnologicamente falando, para a abertura de capitais?
O grande patrimônio de uma construtora sempre foi seu quadro técnico, mas, infelizmente, nas últimas duas ou três décadas, esse foi muito pouco valorizado. Agora, com algumas incorporadoras e construtoras capitalizadas, haverá necessidade de produzir mais residências em prazos menores e com redução de custos. Isso provocará a valorização do quadro técnico da empresa, fazendo com que ele seja adequadamente remunerado.
Quando começa a atuar na bolsa, qual passa a ser a postura da empresa em relação às técnicas construtivas e aos produtos utilizados?
Pela transparência com que essas empresas são obrigadas a operar, os cuidados com relação a técnicas construtivas e aos produtos serão intensificados. Qualquer falta de conhecimento será catalisada e em médio prazo os consumidores começarão a entender que não se compra apartamento somente pelo preço do metro quadrado. Ou seja, outros fatores começarão a aparecer.
Qual a importância da qualidade técnica e tecnológica para a abertura de capital?
A compra de uma ação de uma incorporadora ou construtora deveria ser decidida pela análise de sua capacidade administrativa e pela sua forma de gestão. Como investir numa empresa que tem como negócio a produção de apartamentos e casas sem examinar profundamente seus quadros, em especial o técnico? Muitas vezes vejo analistas mais preocupados em examinar o landbank da empresa do que sua capacitação técnica.
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