Perfil
Nome:
Natan Jacobsohn Levental
Idade: 69 anos
Graduação: engenharia civil na Universidad
de Montevideo, no Uruguai, em 1961
Especialização: Pontes e Grandes Estruturas
Empresas em que trabalhou: Spie Batignolles, Consultores
Gerais para o Anel Rodoviário de São Paulo, A. Araújo
Projetos Industriais, Iesa (Internacional de Engenharia S.A.), Ultratec
e NJL Engenharia e Projetos
Cargos exercidos: engenheiro de projetos na Spie Batignolles,
fiscal na Consultores Gerais para o Anel Rodoviário de São
Paulo, engenheiro de projeto de estruturas metálicas na A. Araújo
Projetos Industriais, chefe de engenharia civil na Iesa, chefe de engenharia
civil na Ultratec, dono da NJL Projetos
Não fosse o leve sotaque, ninguém diria que Natan Jacobsohn
Levental é estrangeiro. A fluência na língua portuguesa
foi conquistada durante os últimos 35 anos em que viveu no País,
onde desembarcou para trabalhar no projeto do Anel Rodoviário de
São Paulo. Hoje, já está mais que entrosado na engenharia
brasileira: além de coordenar a divisão técnica de
estruturas do Instituto de Engenharia e ser conselheiro da Abece (Associação
Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural), tem três filhos
formados pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São
Paulo).
Antes mesmo de começar a faculdade, Jacobsohn já era quase
um engenheiro. Quando vivia com os pais, que tinham uma pequena confecção
na capital uruguaia, Montevidéu, era ele o responsável pela
manutenção das máquinas de costura. A tarefa não
era simples, como se pode pensar. Como o maquinário era importado,
não havia facilidade para se encontrar peças de reposição.
Para contornar as dificuldades e economizar o dinheiro da família,
era preciso usar a cabeça. "Eu improvisava, usava peças
de outras máquinas, que tinham outras funções",
explica. Fato que, em sua opinião, foi fundamental para desenvolver
uma das habilidades que considera fundamental a um engenheiro –
a criatividade.
Apesar das tarefas, não deixou de se dedicar aos estudos. Sobretudo
durante a fase preparatória para ingresso na universidade –
os dois últimos anos do equivalente ao ensino médio brasileiro.
"Não é como o vestibular brasileiro, em que o descontrole
emocional no dia da prova pode colocar tudo a perder", conta Jacobsohn.
À época, a seleção era feita por meio da avaliação
exaustiva dos alunos no biênio. "Apenas 10% dos alunos passavam
para o último ano de preparatório. Do restante, apenas outros
10% ingressavam na universidade. Foram os anos mais penosos de minha carreira",
revela. Ao fim do processo, obtivera o direito de cursar engenharia na
Universidade de Montevidéu.
No início, um período de dúvidas. Não sabia
se cursaria Engenharia Mecânica ou Civil, mas optou pela segunda,
com ênfase em estruturas. De lá, acredita, saiu com um diferencial
em relação à maioria dos engenheiros: conseguia pensar
tridimensionalmente. Não à-toa. "Certamente, era porque
eu passei boa parte do meu tempo tocando, manuseando as peças.
Eu me acostumei a pensar os elementos espacialmente", revela o engenheiro.
Concluiu o curso em 1961, mesmo ano em que foi contratado pelo escritório
uruguaio de uma empresa francesa, atualmente conhecida como Spie Batignolles.
Durante os 11 anos em que trabalhou para a empresa, passou boa parte do
tempo na "ponte aérea" Montevidéu–Paris
para participar dos projetos de obras industriais europeus da empresa.
"Lá, vi que os problemas de cálculo propostos na graduação
em engenharia eram muito mais difíceis do que os da faculdade em
Montevidéu", relata.
Ali, era bem remunerado, mas uma proposta melhor partiu do Brasil. "Ofereceram-me
um salário 20% maior que o da Spie Batignolles, e eu vim para cá",
conta Jacobsohn. Validou seu diploma na Poli-USP e em 1972 foi cumprir
sua nova função: fiscalização das empresas
de engenharia e consultoras contratadas para executar os projetos de pontes
e viadutos do Anel Rodoviário de São Paulo. Área
na qual, até então, não havia trabalhado.
Mas a empresa desapareceu quatro anos depois. Ficou sabendo de seu fim
durante a viagem de férias, em 1976, que fez de carro entre São
Paulo e Montevidéu. O frio na barriga foi inevitável. "Eu
não tinha contatos no Brasil", lembra o engenheiro. Apesar
do temor, quase imediatamente foi contratado pela A. Araújo Projetos
Industriais e voltou a trabalhar na área a que estava acostumado
na multinacional francesa.
Dois anos depois, mudou novamente de empresa, e foi para a Internacional
de Engenharia, onde participou dos projetos que considera os mais importantes
da carreira: a construção do Pólo Petroquímico
da Coopesul, em Triunfo (RS), e o Terminal de Passageiros do Aeroporto
Internacional de Guarulhos – um dos primeiros elaborados com o auxílio
de computador no País.
Depois de passar pela Ultratec em meados da década de 1980, montou
em 1989 um escritório próprio de consultoria em projetos
estruturais, a NJL Engenharia e Projetos. Já estabelecido, não
tinha mais o problema da falta de contatos no País. Passou a realizar
serviços terceirizados para as empresas para as quais já
havia trabalhado, além de montar a própria carteira de clientes
– entre eles arquitetos e fábricas de estruturas metálicas.
Pontes, terminal de passageiros, pólos petroquímicos e
até plataformas de petróleo da Petrobras. A habilidade de
se adaptar a projetos tão distintos Jacobsohn credita ao tempo
que dedicou à graduação. "A faculdade nunca
vai lhe dar conhecimento prático, que você só aprende
no mercado. Mas é lá que você adquire a formação
para se adaptar no futuro a qualquer tipo de trabalho", explica.
Ele exemplifica com o caso dos três filhos. Todos cursaram engenharia
– em especialidades diferentes – na Poli-USP, mas hoje nenhum
deles pratica a profissão. Além da formação
teórica, Jacobsohn acredita que a formação prática
deve ser contínua. "A aprendizagem acontece também
nos projetos pequenos", afirma.
Dez perguntas para Natan Jacobsohn Levental
1) Obras marcantes das quais participou: Terminal de
Passageiros do Aeroporto Internacional de Guarulhos, Pólo Petroquímico
da Coopesul (RS) e algumas plataformas de petróleo da Petrobras
2) Obras marcantes da engenharia brasileira: Usina de
Itaipu, pelo tamanho e pelo desafio; e o Complexo Viário Jornalista
Roberto Marinho, que une beleza arquitetônica e grandes soluções
estruturais
3) Realização profissional: realizar projetos
de grande complexidade e de pequeno porte com o mesmo empenho e aprender
sempre, mesmo nas pequenas obras
4) Mestres: Augusto Carlos de Vasconcelos, Julio Ricaldoni
e Eladio Dieste
5) Por que escolheu ser engenheiro: desde a infância,
tinha contato com as máquinas de costura dos pais, fazendo a manutenção.
Não sabia se seguiria a engenharia mecânica, eletrônica
ou civil, mas na faculdade optou pela última
6) Melhor instituição de ensino da engenharia:
são duas: Escola de Engenharia de São Carlos e Escola Politécnica,
ambas da USP
7) Conselho ao jovem profissional: procurar tirar o máximo
de proveito de cada trabalho que tenha que realizar para crescer profissionalmente
8) Principal avanço tecnológico recente:
o computador, instrumento que agilizou o trabalho do engenheiro estrutural,
acabando com seu trabalho braçal
9) Indicação de livro: "Teoria da
Estabilidade Elástica", de Stephen Timoshenko, uma obra de
início do século 20 que ainda é referência
quando o assunto é flambagem de estruturas
10) Um mal da engenharia: o grande mal é também
o grande bem – o advento da informática. Apesar de facilitar
o trabalho de cálculos e de desenho na engenharia, os computadores
fizeram com que os engenheiros se sentissem onipotentes, o que é
nocivo para a carreira