Victório
Duque Semionato
O engenheiro ingressou na Mendes Júnior em 1974 como estagiário
de projetos hidrelétricos. Passou por diversas áreas na
empresa, visitou e participou de obras no Brasil e no exterior, como
as usinas hidrelétricas de Itumbiara, de Itaipu, Plataforma de
Pampo e Gasoduto Bolívia-Brasil. Na década de 1990, participou
da construção da Usina Hidrelétrica TSQ-1, na China,
em uma das primeiras obras com participação de empresas
estrangeiras após a abertura da economia socialista.
O engenheiro participou também de obras em Honduras, Chile, Bolívia,
Equador, República Dominicana e Peru. Hoje, é diretor
da área de Engenharia da construtora, cargo que ocupa desde 2004.
Desde a abertura econômica promovida por Deng Xiaoping, sucessor
de Mao Tsé-Tung, o crescimento da demanda energética chinesa
exigiu grandes investimentos em infra-estrutura. Mais do que investir
em novas usinas, a intenção do governo era mudar a matriz
energética termelétrica – menos eficiente –
para a nuclear e hidrelétrica. No início da década
de 1990, uma missão de empresas chinesas veio ao País em
busca de parceiros para a construção da hidrelétrica
TSQ-1. A parceria vencedora era formada pela estatal militar Jiangnan
e pela brasileira Mendes Júnior, que trabalhou no país entre
1994 e 2001. O diretor de engenharia da construtora, Victório Duque
Semionato, acompanhou de perto o processo e relata à Téchne
a transformação tecnológica nesse período.
Em dez anos, a construção no país passou de um estágio
de uso de materiais precários a uma intensa industrialização.
O aprendizado, contudo, deu aos chineses uma ousadia perigosa, e a pressa
tem levado à ruína, com freqüência, algumas obras.
Pontes e edifícios desabam até mesmo antes de serem concluídos.
Mas os negócios da Mendes Júnior do outro lado do mundo
pararam por aí. De 2000 em diante, o governo fechou o cerco e tornou
mais difícil a entrada de construtoras estrangeiras. "Eles
deixaram de ser atrativos", conclui Semionato. Atualmente a China
está construindo no rio Yang-Tsé a Usina de Três Gargantas,
que tomará da binacional Itaipu o título de maior hidrelétrica
do mundo.
O interesse dos chineses pela geração hidrelétrica
de energia é recente. Por quê?
Desde a abertura econômica promovida pelo líder chinês
Deng Xiaoping, a China sempre teve um déficit energético
muito grande – a matriz é predominantemente térmica,
com o uso de carvão como combustível. E as usinas termelétricas,
tecnologicamente ultrapassadas, apresentam baixa eficiência energética
e altos índices de emissão de poluentes. A partir da década
de 1980, o governo foi gradativamente abrindo os grandes projetos de infra-estrutura
à participação de empresas estrangeiras, sempre associadas
a empresas locais. Houve no país um impulso muito forte na geração
nuclear e hídrica de energia elétrica. A partir disso, algumas
empresas brasileiras de engenharia começaram a prestar assessoria
técnica para as empresas estatais de energia e para os bureaus
de engenharia – escritórios estatais de estudos e projetos.
Quando, de fato, foi possível construir na China?
As empresas brasileiras inicialmente participaram de assessoria a vários
bureaus para fazer análises dos principais projetos, dos principais
potenciais de geração hídrica no país. Após
esses estudos, que começaram no final da década de 1980,
iniciou-se um processo de abertura para a participação de
empresas estrangeiras também na construção de hidrelétricas,
por meio de consórcios com empresas chinesas. Na parceria, as empresas
chinesas ficavam responsáveis pela execução dos projetos
e as estrangeiras entravam com sua tecnologia, seu planejamento dentro
do segmento de construções hidrelétricas.
Foi quando a Mendes Júnior entrou no mercado chinês...
Nosso contrato teve início em dezembro de 1994 e terminou em
2001, mas nós mantivemos contato com a China de 1993 a 2002. Não
fiquei lá permanentemente, mas ia ao país com freqüência
porque era membro da diretoria do consórcio [responsável
pela construção da hidrelétrica TSQ-1]. Com isso,
nós tivemos a oportunidade de conviver com a transformação
socioeconômica e cultural de massa daquele país.
Como se firmou a parceria com os chineses?
No início da década de 1990, foi colocado em licitação
internacional pelo governo chinês o projeto da hidrelétrica
TSQ-1, localizada ao norte da província de Yunnan, região
meridional da China. O governo então selecionou várias empresas
estatais de construção de hidrelétricas para escolher
seus parceiros internacionais. Em 1992, organizou-se uma missão
com algumas empresas chinesas interessadas em associar-se a empresas brasileiras
para participar dessa licitação. Essas empresas vieram para
o Brasil e visitaram, entre outras, a Mendes Júnior. Eram seis
ou sete empresas chinesas. Uma delas, a Jiangnan – um batalhão
de engenharia do Exército –, manifestou interesse em se associar
à nossa construtora.
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