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Os próximos 15


Expoentes da Téchne desde o início, os engenheiros Cláudio Mitidieri e Ercio Thomaz, membros do Conselho Administrativo da revista, fazem uma retrospectiva desses 15 anos e antecipam as tendências que vão figurar nestas páginas no futuro


Colaboraram: Gustavo Mendes, Eric Cozza e Paulo Kiss


CLÁUDIO VICENTE MITIDIERI FILHO
Formado pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) em 1980, Cláudio Mitidieri, 50 anos, está no IPT desde 1979. Prestou consultoria entre 1986 e 1992 e desde então é pesquisador do Instituto. Especialista em sistemas inovadores, pré-fabricados e drywall, dá aulas no Mestrado Profissional do IPT em três disciplinas: "Sistemas construtivos para habitação: inovação e desempenho"; "Qualidade no projeto e construção de edifícios" e "Metodologia da pesquisa tecnológica". É professor convidado da pós-graduação do Instituto Presbiteriano Mackenzie (SP).

ERCIO THOMAZ
Engenheiro civil pela Universidade Mackenzie (1973) e doutor pela Escola Politécnica da USP (1999), Ercio Thomaz, 57 anos, faz pesquisas e presta consultoria nas áreas de materiais de construção, estruturas, componentes e sistemas construtivos. Está no IPT desde 1980. Autor dos livros "Trincas em Edifícios" e "Tecnologia, Gerenciamento e Qualidade na Construção (PINI)", lecionou ao longo de 25 anos na Faculdade de Engenharia de Sorocaba e na Faculdade de Engenharia da Fundação Armando Álvares Penteado (SP). Coordena a cadeira de Patologias da Construção, do Mestrado Profissional do IPT.

Os engenheiros pesquisadores Cláudio Vicente Mitidieri Filho e Ercio Thomaz são os guardiões da qualidade da Téchne. Eles representam o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) no Conselho Administrativo da revista. A eles cabem, sugerir fontes, triar os artigos que serão publicados e fazer a revisão técnica a cada fechamento de edição. Pertencem a uma geração da engenharia responsável pela transição tecnológica da construção, que coincide com o nascimento da Téchne, em 1992, a abertura de mercado e chegada de sistemas construtivos estrangeiros. Dos escritórios e laboratórios da Divisão de Engenharia Civil do IPT e em inúmeras viagens, eles avaliaram dezenas de inovações, algumas certificadas com a Referência Técnica IPT, como sistemas de fôrmas e divisórias de gesso acartonado. Cláudio Mitidieri foi um dos pioneiros na implantação dos sistemas de construção seca no País, produzindo manuais, referências, prestando consultoria para fabricantes e participando dos primeiros seminários promovidos pela PINI e pela extinta Astic (Associação de Tecnologias Integradas na Construção). Ercio Thomaz, testemunha privilegiada dessa transformação, viu de perto as dificuldades de assimilação dos produtos em suas aulas em três faculdades de engenharia, percebeu a necessidade de maior coordenação nas obras e surpreendeu-se com a revolução na gestão nesses anos, o que lhe deu o mote para sua tese de doutorado, transformada em livro pela PINI. "Tecnologia, Gerenciamento e Qualidade na Construção" (2001), reserva boa parte de suas páginas a tratar da interface gestão–tecnologia. Na entrevista a seguir, eles fazem uma retrospectiva desses anos, dizem o que deu e o que não deu certo, fazem críticas à falta de investimento na qualificação profissional e antecipam as tendências dos próximos 15 anos, como o impacto das questões de sustentabilidade na construção. Ambos participaram nos últimos anos da elaboração da Norma de Desempenho de Edifícios Habitacionais de até Cinco Pavimentos, prestes a ser publicada.

Apesar de o Brasil ter crescido pouco nos últimos 15 anos, a construção civil parece ter assimilado rápido as tecnologias que desembarcaram no País. Vocês concordam?

Ercio Thomaz – Depois de uma década praticamente perdida, houve uma boa evolução nos últimos cinco, seis anos. No meu livro "Tecnologia, Gerenciamento e Qualidade na Construção" [Editora PINI], de 2001, eu destacava a consolidação de produtos como o drywall e o PEX, por exemplo, que hoje estão plenamente assimilados.

Cláudio Mitidieri – Até o final da década de 1980, trabalhava-se com sistemas fechados. A cada processo construtivo, correspondia um grupo de produtos. Não havia muita liberdade. Na década seguinte, pudemos passar para os sistemas abertos. A cobertura, paredes e instalações podem ser compostas de diversas formas. Trocamos execução por instalação, com sistemas montados. Os primeiros trabalhos sobre drywall coincidem justamente com o nascimento da revista Téchne, em 1992.

O nascimento da Téchne também coincide com um movimento de transformação nos conceitos de gestão e planejamento. Ouvimos à exaustão nesses anos conceitos como racionalização, industrialização, lean construction, fast construction e a obsessão pela ISO. Há mais marketing do que mudança propriamente?

Mitidieri – Não acho que seja só marketing. Desempenho, por exemplo, você não citou. Foi preciso uma geração, 25 anos, para que a importância dos parâmetros de desempenho fossem assimilados pela construção. Houve uma grande revolução na gestão da qualidade com os programas setoriais. Planeja-se muito mais hoje do que há 20 anos, até por conta da necessidade de se obter ganhos financeiros em obras com orçamentos apertados. Todas essas ondas, digamos, foram importantes e tiveram um papel transformador.

Thomaz – Houve uma verdadeira revolução na gestão, basta comparar a organização das obras dos meus tempos de estudante. Não tínhamos as ferramentas de gestão que temos hoje. Comprava-se material na véspera de aplicar. No entanto, acho que vale uma ressalva: fomos de um extremo ao outro. Aprimoramos a gestão, mas a engenharia foi ficando de lado. Nós ministramos aulas de pós-graduação e percebemos que os engenheiros não estão capacitados a pensar e aplicar tecnologia. Há cursos de liderança, de empreendedorismo e das coisas mais estranhas. O ensino ficou para trás. Sem dúvida a universidade está uma década defasada da engenharia que se faz nos canteiros. Não é empreendedorismo nem criatividade que vai suprir a falta de conhecimento do engenheiro.

Mitidieri – Eu acrescentaria que falta engenharia na obra. Há obras de grande porte sendo tocadas por engenheiros inexperientes, em todos os aspectos.

Costuma-se dizer que a boa engenharia é a soma balanceada de qualidade, custo e prazo. Vivemos nesse momento um boom imobiliário que tende a desbalancear esse tripé. As empresas têm reduzido muito os prazos de obras e travam uma luta feroz contra os custos. Qual a conseqüência disso?

Mitidieri – Querer reduzir prazo e custo é salutar, desde que se mantenha o foco na qualidade. A questão tecnológica está bem resolvida, temos muitas opções. Falta, sim, qualificação para aplicar bem esse produto na obra. Há uma dissociação entre a tecnologia disponível e a capacitação de quem aplica, usa esses materiais. Não é só instalador, mestre e oficiais. Os engenheiros também precisam ser capacitados para usar as alternativas tecnológicas dentro dos parâmetros desse tripé.

Thomaz – O domínio da tecnologia está com o fornecedor. O construtor perdeu esse domínio. As obras não estão mais no controle das construtoras, foi tudo terceirizado. Há 200, 300 pessoas no canteiro e só quatro ou cinco são da construtora. Até o empreiteiro tem os seus terceirizados. As construtoras não se deram conta de que estão perdendo know-how. As construtoras estão se tornando meras atravessadoras na arte de construir.

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