CLÁUDIO
VICENTE MITIDIERI FILHO
Formado pela Escola Politécnica da USP (Universidade
de São Paulo) em 1980, Cláudio Mitidieri, 50 anos, está
no IPT desde 1979. Prestou consultoria entre 1986 e 1992 e desde então
é pesquisador do Instituto. Especialista em sistemas inovadores,
pré-fabricados e drywall, dá aulas no Mestrado Profissional
do IPT em três disciplinas: "Sistemas construtivos para habitação:
inovação e desempenho"; "Qualidade no projeto
e construção de edifícios" e "Metodologia
da pesquisa tecnológica". É professor convidado da
pós-graduação do Instituto Presbiteriano Mackenzie
(SP).
ERCIO THOMAZ
Engenheiro civil pela Universidade Mackenzie (1973)
e doutor pela Escola Politécnica da USP (1999), Ercio Thomaz,
57 anos, faz pesquisas e presta consultoria nas áreas de materiais
de construção, estruturas, componentes e sistemas construtivos.
Está no IPT desde 1980. Autor dos livros "Trincas em Edifícios"
e "Tecnologia, Gerenciamento e Qualidade na Construção
(PINI)", lecionou ao longo de 25 anos na Faculdade de Engenharia
de Sorocaba e na Faculdade de Engenharia da Fundação Armando
Álvares Penteado (SP). Coordena a cadeira de Patologias da Construção,
do Mestrado Profissional do IPT.
Os engenheiros pesquisadores Cláudio Vicente Mitidieri Filho e
Ercio Thomaz são os guardiões da qualidade da Téchne.
Eles representam o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do
Estado de São Paulo) no Conselho Administrativo da revista. A eles
cabem, sugerir fontes, triar os artigos que serão publicados e
fazer a revisão técnica a cada fechamento de edição.
Pertencem a uma geração da engenharia responsável
pela transição tecnológica da construção,
que coincide com o nascimento da Téchne, em 1992, a abertura de
mercado e chegada de sistemas construtivos estrangeiros. Dos escritórios
e laboratórios da Divisão de Engenharia Civil do IPT e em
inúmeras viagens, eles avaliaram dezenas de inovações,
algumas certificadas com a Referência Técnica IPT, como sistemas
de fôrmas e divisórias de gesso acartonado. Cláudio
Mitidieri foi um dos pioneiros na implantação dos sistemas
de construção seca no País, produzindo manuais, referências,
prestando consultoria para fabricantes e participando dos primeiros seminários
promovidos pela PINI e pela extinta Astic (Associação de
Tecnologias Integradas na Construção). Ercio Thomaz, testemunha
privilegiada dessa transformação, viu de perto as dificuldades
de assimilação dos produtos em suas aulas em três
faculdades de engenharia, percebeu a necessidade de maior coordenação
nas obras e surpreendeu-se com a revolução na gestão
nesses anos, o que lhe deu o mote para sua tese de doutorado, transformada
em livro pela PINI. "Tecnologia, Gerenciamento e Qualidade na Construção"
(2001), reserva boa parte de suas páginas a tratar da interface
gestão–tecnologia. Na entrevista a seguir, eles fazem uma
retrospectiva desses anos, dizem o que deu e o que não deu certo,
fazem críticas à falta de investimento na qualificação
profissional e antecipam as tendências dos próximos 15 anos,
como o impacto das questões de sustentabilidade na construção.
Ambos participaram nos últimos anos da elaboração
da Norma de Desempenho de Edifícios Habitacionais de até
Cinco Pavimentos, prestes a ser publicada.
Apesar de o Brasil ter crescido pouco nos últimos 15 anos,
a construção civil parece ter assimilado rápido as
tecnologias que desembarcaram no País. Vocês concordam?
Ercio Thomaz – Depois de uma década praticamente
perdida, houve uma boa evolução nos últimos cinco,
seis anos. No meu livro "Tecnologia, Gerenciamento e Qualidade na
Construção" [Editora PINI], de 2001, eu destacava a
consolidação de produtos como o drywall e o PEX, por exemplo,
que hoje estão plenamente assimilados.
Cláudio Mitidieri – Até o final
da década de 1980, trabalhava-se com sistemas fechados. A cada
processo construtivo, correspondia um grupo de produtos. Não havia
muita liberdade. Na década seguinte, pudemos passar para os sistemas
abertos. A cobertura, paredes e instalações podem ser compostas
de diversas formas. Trocamos execução por instalação,
com sistemas montados. Os primeiros trabalhos sobre drywall coincidem
justamente com o nascimento da revista Téchne, em 1992.
O nascimento da Téchne também coincide com um movimento
de transformação nos conceitos de gestão e planejamento.
Ouvimos à exaustão nesses anos conceitos como racionalização,
industrialização, lean construction, fast construction e
a obsessão pela ISO. Há mais marketing do que mudança
propriamente?
Mitidieri – Não acho que seja só
marketing. Desempenho, por exemplo, você não citou. Foi preciso
uma geração, 25 anos, para que a importância dos parâmetros
de desempenho fossem assimilados pela construção. Houve
uma grande revolução na gestão da qualidade com os
programas setoriais. Planeja-se muito mais hoje do que há 20 anos,
até por conta da necessidade de se obter ganhos financeiros em
obras com orçamentos apertados. Todas essas ondas, digamos, foram
importantes e tiveram um papel transformador.
Thomaz – Houve uma verdadeira revolução
na gestão, basta comparar a organização das obras
dos meus tempos de estudante. Não tínhamos as ferramentas
de gestão que temos hoje. Comprava-se material na véspera
de aplicar. No entanto, acho que vale uma ressalva: fomos de um extremo
ao outro. Aprimoramos a gestão, mas a engenharia foi ficando de
lado. Nós ministramos aulas de pós-graduação
e percebemos que os engenheiros não estão capacitados a
pensar e aplicar tecnologia. Há cursos de liderança, de
empreendedorismo e das coisas mais estranhas. O ensino ficou para trás.
Sem dúvida a universidade está uma década defasada
da engenharia que se faz nos canteiros. Não é empreendedorismo
nem criatividade que vai suprir a falta de conhecimento do engenheiro.
Mitidieri – Eu acrescentaria que falta engenharia
na obra. Há obras de grande porte sendo tocadas por engenheiros
inexperientes, em todos os aspectos.
Costuma-se dizer que a boa engenharia é a soma balanceada
de qualidade, custo e prazo. Vivemos nesse momento um boom imobiliário
que tende a desbalancear esse tripé. As empresas têm reduzido
muito os prazos de obras e travam uma luta feroz contra os custos. Qual
a conseqüência disso?
Mitidieri – Querer reduzir prazo e custo é
salutar, desde que se mantenha o foco na qualidade. A questão tecnológica
está bem resolvida, temos muitas opções. Falta, sim,
qualificação para aplicar bem esse produto na obra. Há
uma dissociação entre a tecnologia disponível e a
capacitação de quem aplica, usa esses materiais. Não
é só instalador, mestre e oficiais. Os engenheiros também
precisam ser capacitados para usar as alternativas tecnológicas
dentro dos parâmetros desse tripé.
Thomaz – O domínio da tecnologia está
com o fornecedor. O construtor perdeu esse domínio. As obras não
estão mais no controle das construtoras, foi tudo terceirizado.
Há 200, 300 pessoas no canteiro e só quatro ou cinco são
da construtora. Até o empreiteiro tem os seus terceirizados. As
construtoras não se deram conta de que estão perdendo know-how.
As construtoras estão se tornando meras atravessadoras na arte
de construir.
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