Apesar
de dispor das mais modernas tecnologias no que se refere a fôrmas
para estruturas de concreto, o Brasil ainda não possui normas técnicas
específicas para os produtos e para os projetos de fôrmas
e cimbramentos. A primeira iniciativa para a criação dessa
normatização teve início há pouco mais de
um ano e as discussões vêm reunindo fabricantes, projetistas
de fôrmas e projetistas estruturais para traçar as diretrizes
da nova norma brasileira. Um esboço do texto do documento estava
previsto para ser apresentado no final de 2007, mas, como ainda não
se chegou a um acordo em algumas questões polêmicas -
como a execução do escoramento remanescente -, a previsão
de entrega do trabalho do comitê foi prorrogada para o final de
2008.
"Acho que essa norma vai deixar bem claro que a fôrma é
um produto técnico que deve ser dimensionado e gerenciado pelo
profissional habilitado para tal", afirma Paulo Nobuyoshi Assahi,
projetista da Assahi Engenharia. Sobretudo no mercado dos produtos de
madeira, é muito comum que os projetos de fôrmas e escoramento
sejam elaborados por projetistas não-engenheiros, sem conhecimento
técnico adequado do funcionamento do sistema e de sua interação
com o restante da obra. "Esse é um serviço que interfere
principalmente na qualidade final da estrutura de concreto. Se mal executado
ou mal dimensionado, vai afetar de maneira grave o seu desempenho",
alerta o engenheiro.
O tempo que a norma levará para ficar pronta é um indício
de que a resolução do problema não é tão
simples. Como o que está em jogo é a qualidade da estrutura
de concreto, é preciso delegar de forma precisa as responsabilidades
de cada um dos especialistas envolvidos nessa etapa da obra, principalmente
quando o assunto é escoramento remanescente. "É uma
'bola dividida' e nem o projetista, nem o fornecedor de equipamento metálico
assumiam a responsabilidade; e apenas alguns poucos projetistas de fôrmas
têm feito isso", explica Assahi.
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| Muitos fabricantes de fôrmas (foto) e cimbramentos
metálicos desembarcaram no Brasil após a estabilização
da economia |
O também projetista de fôrmas Nilton Nazar afirma ainda
que a normatização trará benefícios para a
qualidade das chapas de compensado disponíveis hoje no mercado.
Segundo o engenheiro, poucos são os fabricantes que oferecem produtos
duráveis no País. "Em geral são de empresas
que exportam para países mais exigentes e que acabam adquirindo
maior tecnologia", explica. Nesses países - por exemplo,
os europeus e o Japão - existem normas que exigem ensaios
e certificação da qualidade para cada um dos lotes adquiridos.
Na opinião de Nazar, três ensaios fundamentais devem constar
da norma para assegurar a qualidade da chapa de compensado: o ensaio de
módulo de elasticidade, o de resistência à tração
e de resistência à abrasão. "Isso não
é nenhuma utopia", afirma Nazar. "É que nós
não estamos acostumados a exigir a qualidade nesse nível
de aprofundamento."
Madeira planejada
A norma de fôrmas atualmente em discussão chega quase 40
anos após a primeira tentativa de otimização do sistema.
Até o final da década de 1960, pode-se dizer que a execução
das estruturas de concreto armado dava-se de forma rústica, com
a produção e montagem das fôrmas realizadas de forma
desorganizada. As conseqüências eram óbvias: altos índices
de desperdício de material, reaproveitamento quase nulo e baixa
produtividade da mão-de-obra. Com pouquíssimo ou nenhum
planejamento, os ajustes das dimensões eram feitos in loco e mais
sujeitos a imprecisões, o que trazia riscos à qualidade
final da estrutura. Segundo o engenheiro Paulo Assahi - que pesquisou
em seu trabalho de mestrado os sistemas de fôrmas para estruturas
de concreto -, com a intenção de buscar a redução
dos custos de produção, a melhoria da produtividade e do
aproveitamento da madeira na obra, o engenheiro Toshio Ueno desenvolveu
na época um sistema de fôrmas embasado na aliança
dos conhecimentos da engenharia civil e das experiências práticas
nos canteiros de obras.
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| A sistematização dos projetos de fôrmas
de madeira, que trouxe ganho de produtividade e redução
de perdas foi um dos principais avanços na área |
Com esse sistema, finalmente todas as peças de madeira do sistema
de fôrmas e cimbramentos passaram a ser previamente projetadas.
Os desenhos passaram a ser entregues ao marceneiro, que já confeccionava
as peças em suas dimensões finais. O projeto incluía,
ainda, as seqüências detalhadas de montagem e os procedimentos
necessários para a inspeção da estrutura pronta.
Eliminava-se, portanto, o acerto das dimensões durante a montagem
das fôrmas. Bastava encaixar as peças prontas umas nas outras,
ajustando-se os encontros entre elas. Surgiu, também, a prática
do escoramento residual - a distribuição estratégica
de escoras que permitia a retirada de até 90% da fôrma que
seria utilizada nas concretagens seguintes. Num primeiro momento, o procedimento
previa o posicionamento dessas escoras entre três e cinco dias após
a concretagem, pouco antes do descimbramento da estrutura. Tempos depois
passou-se a posicionar essas escoras antes ou durante as concretagens
das vigas e lajes, para se obter a distribuição mais adequada
dos carregamentos. Hoje, ambas as práticas são adotadas:
os que adotam a primeira acreditam ser saudável para a estrutura
sofrer uma breve deformação nas idades prematuras; os defensores
da segunda prática são mais cautelosos e preferem "aliviar"
a carga sobre elementos recém-moldados. Esse, aliás, é
um dos pontos polêmicos que está sendo debatido pelo grupo
que elabora a norma de fôrmas.
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