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Arquitetura da baixa renda


Arquiteto fala do desafio de reduzir custos sem perder qualidade


Por Bruno Loturco


WILSON MARCHI

Formado há 15 anos pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), recebeu menção honrosa pelo trabalho de graduação, em que apresentou uma proposta de requalificação urbana e implantação de subprefeitura e teatro no bairro paulistano de Pinheiros. Desde 1992 no escritório EGC Arquitetura, tornou-se sócio de Elizabeth Goldfarb em 2001. A atuação principal voltou-se ao desenvolvimento de projetos de edifícios de escritórios e hoteleiros e conjuntos residenciais. Após o falecimento de Elizabeth, em 2004, assumiu a gestão do escritório, que conta 400 empreendimentos projetados, 300 obras executadas, 49 em construção e 51 em fase de desenvolvimento. Marchi é autor do livro Novas Tecnologias EGC Arquitetura.

As limitantes que costumam pautar qualquer projeto de arquitetura são potencializadas quando se trata de um empreendimento residencial para o segmento econômico. Partindo da premissa do baixo custo de construção, não há escapatória, a primeira ação é a mais óbvia: reduzir o tamanho das unidades. Ainda assim, é necessário atentar para a sempre presente necessidade de conforto e de manter baixos os custos condominiais e até mesmo de vida dos moradores. Um dos motivos para que esses empreendimentos, em geral, contem com grandes quantidades de unidades é a possibilidade de diluir os investimentos para implantar equipamentos de lazer ou mesmo creches. O papel do arquiteto é fundamental enquanto profissional capaz de realizar estudos de ergonomia, pesquisar sobre novas técnicas, produtos e sistemas construtivos, almejando sempre a racionalidade, conforme atesta Wilson Marchi. Catalisadora das soluções empregadas, a arquitetura pode interferir na escolha dos materiais e propor formas de baratear custos de manutenção dos espaços. Ao lidar com repetitividade, apesar de sofrer com a falta de personalização dos empreendimentos, tem a chance de retroalimentar projetos e processos a partir do observado durante a construção e mesmo operação dos condomínios. Nesta entrevista o arquiteto comenta sobre as negociações com contratantes focados na redução de custos e especula sobre a má remuneração dos profissionais, afirmando que, embora o volume de projetos seja maior - resultado do boom imobiliário - os custos e a complexidade dos trabalhos também aumentaram.

Como definir um empreendimento destinado à população de baixa renda? Como projetar para esse segmento?
Legalmente estabeleceu-se que as habitações de interesse social são empreendimentos que atendem à população com renda de até seis salários mínimos. Para que isso ocorra, as unidades devem ter área e custo reduzido. Projetar para esse segmento significa focar o projeto em resultados de elevado desempenho tecnológico com baixo custo, viabilizando a implementação e atendendo, ao mesmo tempo, a viabilidade financeira do incorporador, a qualidade dos espaços para o usuário final e a adequada inserção urbana.

Em que sentido a arquitetura pode baratear os custos? É papel da arquitetura buscar novas tecnologias construtivas ou novos materiais?
A arquitetura deve buscar o equilíbrio entre a funcionalidade e qualidade nos espaços, aliando racionalidade construtiva a especificações técnicas adequadas e visando o baixo custo e a qualidade de vida para os futuros moradores. Também deve maximizar a utilização das tecnologias existentes e desenvolver pesquisas com novas técnicas construtivas, materiais e processos.

Com menos espaço para trabalhar, quais as diferenças fundamentais do projeto de arquitetura para apartamentos e casas voltados para a baixa renda?
O projeto deve buscar a maximização de todos os espaços, pois não há espaço para ociosidade. As plantas são definidas a partir da organização rigorosa do mobiliário e da ergonomia.

É possível, mesmo com pouco espaço, garantir qualidade de vida nesses empreendimentos? Como nascem esses projetos?
A qualidade dos empreendimentos é um pressuposto inicial. Os projetos nascem da solução das unidades habitacionais e são definidos para que atendam a uma família. Os espaços coletivos são dimensionados para atender ao programa mínimo de atividades de lazer e esportivas. A qualidade se dá pelo conjunto das soluções e por seus atributos, como bom dimensionamento dos espaços, conforto, segurança, entre outros.

Os projetos são concebidos de forma a poderem ser replicados indefinidamente. Que vantagens e que problemas isso acarreta?
Podem ser replicados, pois as unidades habitacionais respondem ao programa de espaços que atendem a uma ampla gama populacional nos diversos aspectos. Evidentemente, as implantações são relativas à especificidade dos terrenos. As vantagens estão no controle do projeto, do processo construtivo e do orçamento, pois se sabe de todas as interferências, quantidades de materiais e respectivos custos. A obra, como um todo, fica mais controlada. No entanto, não é possível replicar os projetos indefinidamente porque há a necessidade constante de rever o programa, os sistemas construtivos, adequar às novas demandas culturais e econômicas. Também há a questão da identidade de cada empreendimento, que para os moradores é um fator importante.

Contratualmente, como é resolvida a questão da repetição de projetos?
As construtoras têm permissão de utilizar o mesmo projeto de arquitetura em outras obras?

Normalmente são definidas algumas torres padrão a serem replicadas. Contratualmente essa repetição é resolvida com a aplicação de um valor pela reutilização do projeto, como um royalty. A implantação dessa torre, a definição das locações, das vagas, lazer, cotas de implantação e adequações necessárias são remuneradas integralmente.

Em geral há pouca disposição no mercado de pagar por projetos? Com o boom imobiliário os arquitetos estão trabalhado mais pelo mesmo preço ou a remuneração melhorou?
Há disposição para pagar, mas menos do que o projeto, que concentra a expertise e pode gerar economia para o empreendimento. A receita aumentou em virtude do volume, mas as bases de honorários não sofreram alteração. Por outro lado, as despesas aumentaram com a necessidade de adequar a estrutura do escritório para atender à demanda. Assim, trabalhamos mais pelo mesmo preço, agravado pela própria conjuntura do boom imobiliário, que lida com terrenos mais problemáticos com relação a, por exemplo, documentação, contaminação do solo e desapropriações. Também há mais restrições para a aprovação nos órgãos públicos seja pelo tamanho dos empreendimentos, pela indefinição da legislação ou por novas exigências.

Quais as demandas específicas de condomínios para essa faixa de renda?
Procura-se atender às demandas básicas de lazer, como uma quadra esportiva, churrasqueira, salão de festas e playground. Em alguns empreendimentos de grande porte o programa é mais extenso, inclusive com a inclusão de creches, já que a maioria dos casais trabalha fora de casa. As demandas específicas se referem ao apoio para que as famílias possam ter tudo isso a um custo condominial reduzido e localização que facilite o acesso ao transporte público.

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