Onde se erra mais em projetos desse tipo?
Na compatibilização das informações das equipes.
É grande a quantidade de informações técnicas,
normativas e legais que precisam ser interpretadas, solucionadas e atendidas.
A troca dessas informações é sempre objeto de muito
cuidado e atenção.
Qualidade é um valor relativo em projetos para a classe
média baixa?
A qualidade é um valor absoluto para todas as classes, a exigência
das pessoas só tem aumentado com o aumento do acesso às
informações e com legislações que protegem
os consumidores. Atentos a isso projetamos com o intuito de oferecer o
maior nível de qualidade dentro das restrições orçamentárias,
sempre as questionando com visão crítica.
Na sua opinião, os empreendimentos construídos
hoje têm qualidade superior aos do passado apesar das restrições
quanto a espaço e infra-estrutura?
Tecnicamente as construções atuais têm qualidade superior
devido ao controle tecnológico mais rigoroso. Os elementos da cadeia
produtiva têm sistemas de gestão e controle de qualidade,
as normas técnicas são mais rigorosas e os processos construtivos
foram aperfeiçoados, além da implementação
das avaliações pós-ocupação. Isso leva
a uma revisão mais criteriosa dos empreendimentos, focada na qualidade.
Como se dá a relação entre sistema construtivo
adotado e concepção de projeto arquitetônico?
A concepção do projeto arquitetônico deve estar totalmente
harmonizada com a melhor forma de utilizar o sistema construtivo. Para
tanto é imprescindível que as equipes de arquitetura e engenharia
trabalhem de forma muito afinada para encontrar boas soluções.
Como retroalimentar o processo para que as interfaces e soluções
sejam otimizadas a partir daquilo que foi observado nas unidades já
prontas e em uso?
É necessário um trabalho rigoroso e uma equipe de projetos
bem articulada, que realize uma análise crítica dos resultados.
Deve considerar o projeto, a execução, a ocupação
e a verificação de possíveis patologias para possibilitar
o aprimoramento de soluções técnicas e executivas
e assim alimentar os projetos de arquitetura.
É possível conciliar redução de custos
com sustentabilidade? Como?
Com a racionalização e redução de desperdícios
na obra há contribuição para a redução
dos custos e do consumo de recursos naturais. Projetos que garantam um
bom desempenho de iluminação e ventilação
natural evitam o uso de equipamentos que demandem gastos de energia. O
reúso da água para fins não potáveis não
diminui o custo da obra, mas diminui os custos condominiais. Os custos
de sistemas de reúso de água, tratamento de esgoto, energia
solar ainda são elevados mas podem ser melhor absorvidos em empreendimentos
com um grande número de unidades.
Valorizar as áreas comuns, como salão de festas,
pode diminuir a importância - e o custo - das unidades?
Os espaços partem de programas mínimos. Então fica
difícil substituir ou compensar uma área em outra. O que
é possível é a complementação das unidades
com as áreas coletivas.
As construtoras têm exigências mais rigorosas para
reduzir os custos? Como o arquiteto estabelece limites para essas exigências?
Há, por exemplo, muita limitação de custos com relação
à utilização dos materiais de acabamento e elementos
construtivos, como esquadrias, gradis e elementos arquitetônicos,
o que limita muito a elaboração das fachadas. Para atender
às exigências das construtoras e ao mesmo tempo propor soluções
diferenciadas há muita negociação, pesquisas constantes
de novos materiais de acabamento e, necessariamente, criatividade para
recriar soluções estéticas a partir dos pouquíssimos
recursos disponíveis. Os limites devem respeitar os critérios
técnicos, das boas praticas construtivas e, principalmente, focar
na garantia da qualidade de vida aos moradores.
Como você vê o racha e a polêmica em torno
das eleições do IAB-SP? O senhor é favorável
à criação do conselho de arquitetura? O que isso
melhoraria?
Prefiro não me manifestar sobre o racha. Sou totalmente favorável
ao conselho exclusivo de arquitetura para que haja uma efetiva aproximação
dos problemas e questões pertinentes aos arquitetos e sua relação
com a sociedade.
Numa idade em os arquitetos ainda se esforçam para se
estabelecer, a sua sócia, Elizabeth Goldfarb, falecida em 2004,
contabilizava um número expressivo de projetos realizados. Foi
uma das arquitetas que mais projetou no País. O que isso mexia
na dinâmica do escritório? Qual o grande legado dela?
Elizabeth Goldfarb foi uma das primeiras arquitetas a perceber a necessidade
de reestruturar o escritório de arquitetura para atender a uma
demanda mais intensa, profissional e especializada. O modelo dos ateliês
cedeu espaço para uma organização estruturada que
atendesse às especificidades do mercado imobiliário ainda
em formação. Esse foco e a estruturação permitiram
absorver e produzir projetos de arquitetura com maior eficiência
e qualidade. O grande legado que nos deixou é a clareza da visão
integrada de todos os aspectos do projeto, da concepção
à execução, precisão no tratamento dado a
todas as questões e a sensibilidade para transformar sonhos e necessidades
em projetos e obras que perdurarão no tempo e no espaço.
Filosofia que norteia nosso escritório, que cresce em volume de
trabalho e qualidade juntamente com esse mercado tão intenso.
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