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Arquitetura da baixa renda


Arquiteto fala do desafio de reduzir custos sem perder qualidade


Por Bruno Loturco


Onde se erra mais em projetos desse tipo?
Na compatibilização das informações das equipes. É grande a quantidade de informações técnicas, normativas e legais que precisam ser interpretadas, solucionadas e atendidas. A troca dessas informações é sempre objeto de muito cuidado e atenção.

Qualidade é um valor relativo em projetos para a classe média baixa?
A qualidade é um valor absoluto para todas as classes, a exigência das pessoas só tem aumentado com o aumento do acesso às informações e com legislações que protegem os consumidores. Atentos a isso projetamos com o intuito de oferecer o maior nível de qualidade dentro das restrições orçamentárias, sempre as questionando com visão crítica.

Na sua opinião, os empreendimentos construídos hoje têm qualidade superior aos do passado apesar das restrições quanto a espaço e infra-estrutura?
Tecnicamente as construções atuais têm qualidade superior devido ao controle tecnológico mais rigoroso. Os elementos da cadeia produtiva têm sistemas de gestão e controle de qualidade, as normas técnicas são mais rigorosas e os processos construtivos foram aperfeiçoados, além da implementação das avaliações pós-ocupação. Isso leva a uma revisão mais criteriosa dos empreendimentos, focada na qualidade.

Como se dá a relação entre sistema construtivo adotado e concepção de projeto arquitetônico?
A concepção do projeto arquitetônico deve estar totalmente harmonizada com a melhor forma de utilizar o sistema construtivo. Para tanto é imprescindível que as equipes de arquitetura e engenharia trabalhem de forma muito afinada para encontrar boas soluções.

Como retroalimentar o processo para que as interfaces e soluções sejam otimizadas a partir daquilo que foi observado nas unidades já prontas e em uso?
É necessário um trabalho rigoroso e uma equipe de projetos bem articulada, que realize uma análise crítica dos resultados. Deve considerar o projeto, a execução, a ocupação e a verificação de possíveis patologias para possibilitar o aprimoramento de soluções técnicas e executivas e assim alimentar os projetos de arquitetura.

É possível conciliar redução de custos com sustentabilidade? Como?
Com a racionalização e redução de desperdícios na obra há contribuição para a redução dos custos e do consumo de recursos naturais. Projetos que garantam um bom desempenho de iluminação e ventilação natural evitam o uso de equipamentos que demandem gastos de energia. O reúso da água para fins não potáveis não diminui o custo da obra, mas diminui os custos condominiais. Os custos de sistemas de reúso de água, tratamento de esgoto, energia solar ainda são elevados mas podem ser melhor absorvidos em empreendimentos com um grande número de unidades.

Valorizar as áreas comuns, como salão de festas, pode diminuir a importância - e o custo - das unidades?
Os espaços partem de programas mínimos. Então fica difícil substituir ou compensar uma área em outra. O que é possível é a complementação das unidades com as áreas coletivas.

As construtoras têm exigências mais rigorosas para reduzir os custos? Como o arquiteto estabelece limites para essas exigências?
Há, por exemplo, muita limitação de custos com relação à utilização dos materiais de acabamento e elementos construtivos, como esquadrias, gradis e elementos arquitetônicos, o que limita muito a elaboração das fachadas. Para atender às exigências das construtoras e ao mesmo tempo propor soluções diferenciadas há muita negociação, pesquisas constantes de novos materiais de acabamento e, necessariamente, criatividade para recriar soluções estéticas a partir dos pouquíssimos recursos disponíveis. Os limites devem respeitar os critérios técnicos, das boas praticas construtivas e, principalmente, focar na garantia da qualidade de vida aos moradores.

Como você vê o racha e a polêmica em torno das eleições do IAB-SP? O senhor é favorável à criação do conselho de arquitetura? O que isso melhoraria?
Prefiro não me manifestar sobre o racha. Sou totalmente favorável ao conselho exclusivo de arquitetura para que haja uma efetiva aproximação dos problemas e questões pertinentes aos arquitetos e sua relação com a sociedade.

Numa idade em os arquitetos ainda se esforçam para se estabelecer, a sua sócia, Elizabeth Goldfarb, falecida em 2004, contabilizava um número expressivo de projetos realizados. Foi uma das arquitetas que mais projetou no País. O que isso mexia na dinâmica do escritório? Qual o grande legado dela?
Elizabeth Goldfarb foi uma das primeiras arquitetas a perceber a necessidade de reestruturar o escritório de arquitetura para atender a uma demanda mais intensa, profissional e especializada. O modelo dos ateliês cedeu espaço para uma organização estruturada que atendesse às especificidades do mercado imobiliário ainda em formação. Esse foco e a estruturação permitiram absorver e produzir projetos de arquitetura com maior eficiência e qualidade. O grande legado que nos deixou é a clareza da visão integrada de todos os aspectos do projeto, da concepção à execução, precisão no tratamento dado a todas as questões e a sensibilidade para transformar sonhos e necessidades em projetos e obras que perdurarão no tempo e no espaço. Filosofia que norteia nosso escritório, que cresce em volume de trabalho e qualidade juntamente com esse mercado tão intenso.

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