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Habitações de baixo custo mais sustentáveis



Muito se tem falado ultimamente sobre sustentabilidade e construções sustentáveis. Mas o que seriam construções sustentáveis? Seriam aquelas que atendessem adequadamente às dimensões da sustentabilidade. Normalmente, tais dimensões são entendidas como aquelas associadas a questões econômicas, sociais e ambientais. Mais recentemente, como menciona a Agenda 21 para a Construção Sustentável, esse número de dimensões foi ampliado e passou a incluir aspectos culturais (identidade com a cultura ou anseios culturais de uma população), políticos (participação da população-alvo nas decisões que lhe dizem respeito), entre outros. Dentro desse quadro cabe assinalar que não existem (ou se existirem, são muito raras) construções sustentáveis. Elas constituem metas a serem buscadas, gradativamente. O que se pode almejar construir são, então, construções mais sustentáveis, em cuja materialização se tenta introduzir tais dimensões.

O Norie (Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação), um dos braços do PPGEC-UFRGS (Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), que se dedica à área de construção, vem desenvolvendo pesquisas, desde o início desta década, que resultaram em propostas para conjuntos habitacionais e habitações voltadas a populações de baixa renda.

Neste artigo é apresentada uma dessas habitações, o PCA (Protótipo Casa Alvorada), cujo processo de projeto foi iniciado em 1997 e envolveu uma equipe composta por mais de 30 profissionais de diferentes áreas (arquitetos, engenheiros civis e agrônomos), todos alunos do Norie. Um modelo experimental foi construído no Campus do Vale da Universidade e, desde então, o foco dos estudos tem sido o aprimoramento e a avaliação das alternativas e soluções implantadas (figura 1). O objetivo da construção do protótipo não foi elaborar um modelo a ser reproduzido em larga escala, mas testar, investigar e examinar alternativas tecnológicas mais sustentáveis, com menor impacto ao meio ambiente, e capazes de efetivamente atender às necessidades dos futuros moradores.

O modelo da Casa Alvorada também foi inserido em um estudo maior, o projeto CETHS (Centro de Tecnologias Habitacionais Sustentáveis) (figura 2), no qual oito habitações foram construídas, ocupadas e posteriormente submetidas a três avaliações pós-ocupação, quanto ao alcance dos diversos aspectos priorizados na etapa de projeto, tais como conforto ambiental e funcionalidade da edificação. O objetivo das avaliações foi a verificação da satisfação dos usuários depois de um, de três e de cinco anos de ocupação.

Projeto
A concepção arquitetônica do Protótipo Casa Alvorada foi determinada a partir de diretrizes gerais relacionadas a projetos sustentáveis e de requisitos típicos do programa de necessidades para uma família pequena, o que incluiu: dois dormitórios, sala e cozinha conjugados, banheiro, área de serviço e uma área de acesso coberta por pérgula. Em resposta às condicionantes, gerou-se uma habitação de planta aproximadamente quadrada (figuras 3 e 4), com reentrâncias nos espaços correspondentes à área de serviço e à entrada. A área construída resultante corresponde a 50,5 m², sendo que o projeto buscou priorizar os seguintes aspectos:
Acessibilidade universal: todos os espaços de passagem, assim como o banheiro, foram projetados com espaçamentos adequados para a movimentação independente de idosos e deficientes físicos.

Adequação climática: os espaços de maior permanência foram voltados para norte e leste, por serem as orientações solares mais adequadas para a cidade de Porto Alegre. Aqueles orientados para norte apresentam um pé-direito variável e, na parte mais alta, foram posicionadas janelas com o intuito de favorecer a iluminação natural e a ventilação convectiva (figura 3). Essa diferença de altura é determinada pela inclinação da cobertura, que é constituída de duas águas e, predominantemente, voltada para sul, como artifício para a redução da intensidade de incidência solar.

A oeste da habitação foi implantada uma pérgula com o objetivo de dotar essa fachada, que é a mais preocupante quanto à incidência de radiação solar, de sombreamento durante o verão. Por meio da inserção de vegetação caducifólia, esse sombreamento é obtido sem comprometimento à incidência solar durante o inverno, visto que, no Rio Grande do Sul, ganhos térmicos são desejáveis durante esse período. Na área de acesso, ao norte, foi adotada a mesma alternativa de sombreamento com pérgulas e com vegetação caducifólia, gerando um espaço aberto, propício ao convívio nas diversas estações do ano.

Águas: dois sistemas foram implantados. O primeiro é responsável pela captação e aproveitamento de água da chuva para fins não potáveis. A água coletada do telhado é armazenada em um reservatório específico e reaproveitada para descarga do vaso sanitário.

O segundo corresponde a um sistema local, modular, de tratamento das águas residuárias. É um sistema simplificado, que utiliza materiais comuns, requer pouquíssima manutenção e não necessita de energia externa para o seu funcionamento. Os resultados decorrentes de sua aplicação a vários projetos demonstram que esse sistema apresenta eficiência de tratamento muito superior ao de sistemas convencionais, particularmente em empreendimentos habitacionais de interesse social, normalmente fazendo uso de soluções de "fim de tubo".

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