A customização
dos apartamentos deixou de ser uma tendência para se tornar um diferencial
competitivo no mercado imobiliário. De olho nessa nova realidade,
as construtoras já perceberam o forte apelo comercial das plantas
flexíveis na venda de unidades. Mas se por um lado elas permitem
que o usuário personalize seu apartamento, adaptando-o às
suas reais necessidades, todas as suas facilidades e vantagens só
são possíveis graças às soluções
estruturais adotadas a partir do projeto.
Em geral, a maior flexibilidade pressupõe grandes vãos
de lajes, que induzem a maiores espessuras desse elemento estrutural e,
conseqüentemente, a maiores espessuras médias da estrutura
(relação entre volume da estrutura daquele pavimento e sua
área de projeção), repercutindo diretamente nos custos
finais da obra. "Essa solução é economicamente
mais viável para apartamentos de alto padrão", observa
Jorge Batlouni, diretor técnico da Construtora Tecnum. Embora mais
comum nesse nicho de mercado, o projetista estrutural José Roberto
Braguim, da OSMB Engenheiros Associados e presidente da Abece (Associação
Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) ressalta que a oferta
desse tipo de planta não tem sido uma estratégia de marketing
restrita a esse segmento. Ele faz questão de lembrar que hoje já
são inúmeros os empreendimentos para baixa renda que contam
com esse benefício. São edifícios construídos
em alvenaria estrutural e com lajes convencionais que vencem vãos
de até 4,50 m, possibilitando a integração da sala
com o primeiro dormitório. "O custo do investimento se dilui
na escolha dos acabamentos, geralmente mais baratos", explica Braguim.
Seja para atender às necessidades do mercado de baixo ou alto
padrão, o que importa é pensar em soluções
eficientes, não só do ponto de vista estrutural mas também
sob os aspectos de construção e custos. Embora não
haja "receita de bolo", a execução de lajes sem
vigas, por exemplo, é apontada pelos especialistas como ótima
alternativa quando se pretende garantir a flexibilização
do layout. Esse recurso estrutural apresenta várias vantagens construtivas
e funcionais, entre elas as execuções de armação
e de fôrmas mais simples (as vigas acarretam muitos recortes); diminuição
da altura total do edifício; tetos planos ou lisos e sem delimitação
de espaços. O projetista estrutural Ricardo França, do escritório
França e Associados, lembra que essa solução permite
mudanças de paredes sem a interferência das vigas internas
e são capazes de vencer vãos de mais de 6 m. "É
a alternativa mais cara mas pode ser viabilizada graças à
racionalização da mão-de-obra no canteiro",
garante.
Outro ponto importante que merece atenção é o papel
estrutural das vigas que cumprem a função de distribuição
das cargas verticais proporcionando estabilidade e resistência ao
conjunto construtivo. Juntamente com os pilares, criam os pórticos,
eficiente solução para o contraventamento de edificações
muito altas. Por isso, se eliminadas, por conta da maior deformabilidade
e da concentração de esforços nas regiões
dos pilares, geralmente exigirão lajes de espessuras maiores. As
lajes sem vigas também são menos eficientes para garantir
a estabilidade global do edifício, problema que pode ser contornado
com o uso de núcleos rígidos constituídos por pilares
em volta da caixa dos elevadores e por paredes estruturais (pilares-parede)
posicionadas em geral nas fachadas laterais dos edifícios com planta
predominantemente retangular. "Soluções estruturais
que encarecerão a obra", observa França.
Com ou sem vigas
Entre as soluções sem vigas, estão as lajes cogumelo.
De acordo com o projetista, são as melhores opções
estruturais para plantas flexíveis pois vencem vãos superiores
a 6 m permitindo maior liberdade para mudanças de paredes. Porém,
são mais difíceis de serem executadas exigindo reforços
na região dos pilares com o uso de capitéis, que podem ser
constituídos por aumento da seção do pilar abaixo
ou por aumento da espessura da laje em volta do pilar.
De acordo com Libânio Miranda Pinheiro, professor doutor do Departamento
de Engenharia de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos
da Universidade de São Paulo, tanto as lajes convencionais quanto
as lajes sem vigas podem ser maciças ou nervuradas. As maciças
são mais tradicionais, mais pesadas e funcionam melhor como diafragmas
rígidos, porém são mais caras principalmente pelo
custo das fôrmas e do escoramento. O professor lembra que a laje
nervurada é outra boa opção para vencer grandes vãos.
Apesar de possuir maior espessura, essa alternativa consome menos concreto
por conta dos vazios entre as nervuras que podem ser aparentes ou preenchidos
com materiais inertes, como tijolos cerâmicos e EPS, resultando
em um conjunto mais leve. O consumo de aço também é
menor, pois a espessura maior aumenta a eficiência das barras. Outra
vantagem das lajes lisas nervuradas é permitir que as vigas e capitéis
sejam embutidos na espessura da laje. "Para que as lajes não
resultem muito espessas, são usadas vigas com largura maior que
a espessura, as chamadas vigas chatas ou vigas-faixa", lembra.
Outro recurso possível, principalmente quando o projeto solicita
vãos maiores que 6 m, é o uso de protensão em que
parte da armadura é submetida a tensões prévias,
provocando inicialmente compressão no concreto, de maneira adequada,
de modo a diminuir os esforços finais e os deslocamentos das lajes.
Em princípio, a protensão pode ser aplicada em qualquer
tipo de laje mas exige cuidados de projeto e execução. São
mais caras que as demais soluções e exigem mão-de-obra
especializada, mas apresentam vantagens comerciais que podem compensar
o maior custo de execução.
Fator mão-de-obra
Outro item importante que deve ser computado antes da escolha final é
o custo da mão-de-obra, principalmente quando pago por empreitada.
O projetista estrutural Ricardo França lembra que há duas
modalidades praticadas no mercado para cálculo desses valores:
por metros cúbicos de concreto lançado ou pelos preços
separados de lançamento do concreto, execução do
aço e montagem e desmontagem de fôrmas. Caso opte pela primeira,
o construtor deverá estar atento a qualquer acréscimo na
altura da espessura de laje, situação bastante comum quando
o projeto requer grandes vãos. "Um aumento de 4 cm na espessura
da laje, por exemplo, implicará 50% a mais de custo com mão-de-obra
e materiais", ressalta o projetista.
Para evitar esse problema, a alternativa que vem sendo adotada pelas
construtoras é a contratação de mão-de-obra
própria e paga por hora. Jorge Batlouni, diretor técnico
da Construtora Tecnum, explica, por exemplo, que quando se adota a solução
com lajes planas e maiores vãos a produtividade (quantidade de
horas para se executar uma unidade de serviço) do carpinteiro aumenta
muito. "A alternativa para a redução desse indicador
é medi-la em homem-hora por metro quadrado de fôrma executada",
aconselha. O diretor lembra também que, por se tratar de uma laje
mais espessa, o custo do escoramento e o consumo de concreto e aço
também se elevarão e que, em função dos custos
relativos desses insumos, uma solução adotada numa época
pode não ser a mais econômica em outra. Por isso, o ideal
é fazer simulações das diversas tipologias, analisando
o custo dos materiais e mão-de-obra envolvidos. "A decisão
nunca poderá ser imediata", alerta.

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