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Kokei Uehara


Símbolo do centenário da imigração japonesa, o engenheiro


Por Renato Faria


PERFIL

Nome: Kokei Uehara
Idade: 80 anos
Graduação: Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP, em 1953
Especialização: Doutorado em Hidrologia pela USP, em 1964
Onde trabalhou: professor da Escola Politécnica da USP, engenheiro na Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, representante brasileiro na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), engenheiro e conselheiro no DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), fundador da Fatec (Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo), entre outros.

Trabalho é o que não tem faltado para o engenheiro hidráulico Kokei Uehara nos últimos meses. Além das entrevistas de seleção de alunos intercambistas da USP (Universidade de São Paulo), Uehara precisa reservar espaço na agenda para suas funções de presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e da Associação dos 100 Anos da Imigração Japonesa. Sem contar as diversas homenagens que vem recebendo por sua contribuição à Engenharia brasileira. O engenheiro nasceu no Japão em 1927, mas partiu para o Brasil aos oito anos de idade. Apesar de não ter chegado em 1908 no Kasato-Maru, primeiro navio de imigrantes japoneses a aportar no País, ele é hoje um dos símbolos do Centenário da Imigração.

Ainda jovem Uehara teve de rever os planos que fazia para o futuro quando expôs a seu irmão, Kozo, seu desejo de ir à capital para estudar Medicina. Ele tinha acabado de completar o colegial em Olímpia, interior de São Paulo, e ainda trabalhava com a família na lavoura. Kozo, que se opunha à idéia do irmão, justificou sua posição afirmando que o Brasil já havia passado por uma primeira etapa de desenvolvimento, em que precisava de advogados para construir seu alicerce jurídico, e por uma segunda, em que necessitava de médicos para cuidar da saúde da população. Na época, o País entrava em uma terceira fase, de desenvolvimento de sua indústria e de sua infra-estrutura, e precisava de engenheiros para realizá-la. Kokei mantinha-se irredutível, queria ser médico. Só foi demovido de suas intenções com um vigoroso ultimato do irmão: "ou faz engenharia, ou continua na lavoura". Em 1949 ele começou o curso de Engenharia na Escola Politécnica. Apenas anos mais tarde descobriu a verdadeira preocupação do irmão, que temia pelo futuro profissional de Kokei. "Eles acreditavam que, na Engenharia, seria mais fácil ganhar a vida", explica.

No terceiro ano do curso, surgiram diversas oportunidades de estágio, nas quais o engenheiro vislumbrava oportunidades de conseguir uma remuneração que aliviasse as remessas mensais de dinheiro enviadas pela família. Escreveu aos irmãos para contar a novidade. Até hoje se lembra da primeira linha da carta enviada por Kozo.

Dizia algo como "se sua faculdade permite que você faça estágio, ela não presta. Se for fazer estágio, é melhor voltar para Olímpia". Kokei obedeceu. No ano seguinte, foi um dos dois escolhidos, dentre 40 candidatos, para se tornar aluno-assistente do laboratório de hidráulica recém-criado na Escola Politécnica. Apesar do interesse em se especializar em mecânica dos solos, aproveitou a oportunidade e deu ali os primeiros passos na carreira de sucesso que construiria na área de hidráulica. Foi um dos pioneiros a trabalhar com modelos reduzidos para estudos de barragem.

Depois que se graduou, continuou trabalhando no laboratório e, um ano e meio mais, ganhou uma bolsa de estudos para complementar sua formação em Paris. "Foi o primeiro 'parabéns' que recebi de minha família. Meu irmão admirava a capital francesa", revela. Fez um curso de Mecânica dos Fluidos na Sorbonne e de Hidráulica Geral na École Nationale de Ponts et Chaussées, além de estagiar em um laboratório de Hidráulica. As experiências culturais, que o engenheiro valorizava desde a adolescência, foram vividas com mais intensidade em Paris. Voltou depois de um ano e meio para continuar trabalhando no laboratório. Para complementar o salário, trabalhava à tarde na Comissão Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai.

Sob orientação de Paulo de Menezes Mendes da Rocha, fez os primeiros cálculos do estudo preliminar da barragem de Itaipu. Seu orgulho de ter participado do projeto é tanto que o engenheiro guarda, até hoje, a régua de cálculo usada em seu trabalho. Ao longo da carreira, participou ainda da construção de outras grandes barragens, como as de Barra Bonita, Ilha Solteira e Três Irmãos.

A partir de 1965, até o final da década de 1970, representou o Brasil no Decênio Hidrológico Internacional, programa da Unesco que procurava fazer um levantamento detalhado da quantidade de água disponível do planeta. "Em rios, lagos, oceanos, lençóis freáticos e em forma de vapor", assinala. Sua experiência lhe confere legitimidade para opinar, por exemplo, sobre a relação entre barragens e meio ambiente. Ele sabe que será criticado, mas defende a construção de barragens, sobretudo próximas a regiões secas e densamente povoadas. "É uma forma de acumular água para abastecer grandes áreas", justifica. Para ele, o custo-benefício de se alagar uma grande área em benefício da população do entorno é inquestionável.

"Os críticos se baseiam muito no achismo", afirma. Da mesma forma, defende o atual projeto de transposição do rio São Francisco que, segundo ele, alcança as pequenas propriedades no interior dos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Apesar de ser professor da Escola Politécnica da USP oficialmente desde 1958, Kokei mostra-se feliz em ser reconhecido como funcionário pela universidade desde 1954, quando ainda trabalhava no laboratório sem ser remunerado. Aposentado há dez anos, Kokei continua dando aulas gratuitamente na pós-graduação da Poli e colabora com a Comissão de Cooperação Internacional da USP. Em sua carreira acadêmica, também ajudou a fundar a Fatec. Sobre a biografia do engenheiro, estão disponíveis dois livros: "Domador de Rios", de Aldo Pereira, e "Kokei Uehara: Reflexões sobre a Engenharia e a Educação", organizado pelo historiador Shozo Motoyama.

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