UALFRIDO
DEL CARLO
Graduado em 1963 pela Universidade de São Paulo, passou dois
anos no CSTB (Centre Scientifique et Technique du Bâtiment), na
França, como técnico de nível superior. Atuou na
implantação de laboratórios de análise de
conforto ambiental no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas
do Estado de São Paulo), onde foi Chefe de Agrupamento. Desde
1994 pesquisa e atua na área de sustentabilidade das edificações
e sustentabilidade na arquitetura e urbanismo, sob enfoque do desempenho.
Hoje, testa em sua própria casa algumas das soluções
que defende.
Ao receber a reportagem de Téchne em sua casa, um laboratório
prático de soluções sustentáveis, o engenheiro
Ualfrido Del Carlo iniciou a conversa pontuando que a engenharia moderna
é obrigada a trabalhar com três variáveis que foram
historicamente ignoradas: responsabilidade ambiental, responsabilidade
social e sustentabilidade. Conseqüentemente, a evolução
do raciocínio leva a extrapolar o tripé, formado por matéria,
processo e forma, que sustenta a atividade da Engenharia.
É fundamental à nova engenharia, segundo explica, considerar
a quarta variável, o significado. Para tanto, deve questionar processos,
padrões e imposições culturais em busca da função
e da simplificação das soluções. Trata-se,
afinal, de aproximar a engenharia das reais necessidades humanas, principalmente
porque a construção civil é protagonista no cenário
de poluição ambiental. "As organizações
humanas precisam passar por uma mudança fundamental para se adaptarem
ao novo ambiente empresarial e tornarem-se sustentáveis",
resume. Logo, a noção de sustentabilidade envolve conceitos
mais amplos, que integram homem, meio ambiente e edificações.
Assim, além de contar com projetos concebidos a partir de novos
conceitos, a engenharia sustentável tem alternativas aos processos
convencionais também para preservar o homem, mecanizando processos.
Apesar de haver um panorama mundial favorável, Ualfrido acredita
que a construção civil será o último setor
a adotar uma nova postura, pois nem mesmo o meio acadêmico compreende
alguns dos conceitos fundamentais à engenharia.
Quais questões devem ser respondidas para que um produto
ou processo possa ser classificado como sustentável?
A engenharia sustentável procura responder se as matérias-primas
vêm de mineração e processos que respeitam o meio
ambiente e as relações sociais; se os processos industriais
são de baixo impacto ambiental e social; se os produtos garantirão
ao usuário facilidade de uso com baixo impacto ambiental e social
durante toda a vida útil; e se, ao fim da vida útil, será
possível reciclar com lixo zero.
Com base nisso, a engenharia tem que se recriar?
Com o preço de energia e água aumentando, tem que pensar
em economizar. Por exemplo, a cada 5 kg de cobre são gerados, na
mina, 955 kg de sucata contaminada com metal pesado, que afeta o lençol
freático. É preciso também atentar para lesões
nos operários e populações vizinhas à mina.
Para ser sustentável, tem que saber se não há crianças
trabalhando na mina de onde vem o carvão para sua churrasqueira.
Há projetos de arquitetura que têm conceitos de sustentabilidade
muito interessantes, mas que não respondem a tudo isso.
É responsabilidade da empresa construtora responder a
essas perguntas?
Deveria ser, mas a própria sociedade, por desconhecimento, se sujeita
a comprar coisas totalmente fora das regras de produção.
O consumidor pode ser alertado para mudar de postura ao sentir a necessidade
da sobrevivência.
Sustentabilidade e custo de manutenção e operação
se relacionam de alguma forma?
Tem uma palavra antes, que é durabilidade. Depois, a qualidade
tem que ser alta e a manutenção barata e fácil de
fazer, com linguagem universal para adaptar novos produtos. Tem que considerar
durabilidade, operação e manutenção.
É possível avaliar a sustentabilidade de um edifício
a partir dos custos de operação e manutenção?
Nenhum edifício atingiu ainda a sustentabilidade, mas podem ser
avaliados pela economia de água, uso de água de chuva, uso
de materiais de menor impacto, facilidade de reciclagem, em como ajuda
o usuário a fazer reciclagem e manutenção.
Então a sustentabilidade também depende da capacidade
de se adaptar?
De ser flexível, de usar materiais fáceis de reciclar e
reutilizar, de fácil manutenção e que utilizam todas
as fontes disponíveis e renováveis. Ainda é tênue,
mas é o caminho.
Podemos dizer que a flexibilidade de ambientes aumenta a vida
útil dos edifícios?
A flexibilidade de ambientes é um mito. O Centro Pompidou, na França,
todo desmontável, é modificado raramente porque dá
um trabalho danado mexer nas paredes. É difícil alguém
mudar pra valer, e fazer tudo móvel para um dia colocar uma porta
é antieconômico. Flexibilidade é importante para edifícios
de laboratório, hospitais, indústrias, onde as técnicas
mudam muito. Em apartamento ninguém mexe depois que está
pronto. Não vale a pena ser flexível, pois é mais
barato o homem mudar do que mudar a parede.
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