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Entrevista
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Cultura sustentável


Evolução da engenharia construtiva e dos projetos demanda questionamento de processos e padrões estabelecidos


Por Bruno Loturco


É uma necessidade criada pelas construtoras?
É mais barato e fácil fazer coisas que parecem flexíveis. Mas essa flexibilidade toda não vai ser usada. O homem é tradicional e não quer mudar muito.

A engenharia sabe o que é sustentabilidade?
Tem projetos um pouco melhores, buscando certificação Leed [Leadership in Energy Environmental Design], mas a engenharia brasileira não consegue entender alguns conceitos. Em uma conferência sobre a construção de piscinões em São Paulo eu disse que não precisavam ser construídos desde que algumas ruas fossem despavimentadas.

Como assim?
Ao despavimentar as ruas de um bairro residencial, colocando manta drenante, cascalho e areia, tudo passa a drenar e não precisa construir piscinão nenhum. Claro que isso não pode ser feito em grandes avenidas, mas poderia se tirar o pavimento de toda ilha de concreto ou rotatória e plantar grama para ajudar a segurar água. É mais barato do que asfalto e resolve o problema, pois é necessário diminuir em apenas 10% a carga sobre o sistema de drenagem.

Se não há compreensão sobre os conceitos de sustentabilidade, então os edifícios intitulados sustentáveis não seriam aprovados numa avaliação rígida?
Nenhum passa nem pelo primeiro crivo. Primeiro porque não temos tecnologia. Depois porque, apesar de algumas restrições, esquece-se de outras. Por exemplo, o salário de quem trabalhou para construir o edifício é aviltante e escravatício, não condiz com a mão-de-obra e há esforços inúteis decorrentes da não-mecanização do processo. Mesmo com bombas de concreto e outros equipamentos, ainda vemos muito operário carregando fôrma de um andar para o outro pela fachada. Não atendem ao primeiro ponto, que é a sustentabilidade humana.

A noção de sustentabilidade tem que ser ampliada.
Um edifício tem sistema para coleta de água de chuva, mas não trata. O outro trata, mas não se preocupa com energia. A segurança contra incêndio é um desastre no Brasil. Os prédios são mais modernos, mais econômicos, têm elevadores inteligentes e tudo, mas falta uma porção de coisas. E começa na mina. Se algum trabalhador foi explorado em algum lugar, já não funciona. Uma coisa depende da outra. Mesmo que se preocupe com água, pagou um salário ridículo. Isso quando registrou. É preciso cuidado, porque a sustentabilidade passa por variáveis das quais os engenheiros não gostam.

Como, por exemplo, desenvolvimento humano.
A reciclagem de 90% das latinhas de alumínio é anti-sustentável porque conta com uma mão-de-obra que se contenta em ganhar R$ 100 por mês garimpando latinha. Temos de questionar à custa de quê avançamos em certos aspectos de sustentabilidade. Isso é engenharia humana. Se o salário mínimo fosse de R$ 25 por meio-dia de trabalho, queria ver se os construtores usariam mão-de-obra pra carregar saco de cimento.

Seria imperativo sistematizar processos?
Teriam de usar equipamentos para produzir em dois dias o que se produz em cinco. Atualmente as instalações são feitas quebrando parede para passar cano, depois o fio e os componentes para, ainda, errar os fios na caixa. Alguém prova para mim que não é assim? Tem que ser com chicote para instalar rápido e pagar R$ 4 mil por mês ao operário, que vai fazer 20 apartamentos por dia. Não existe edifício sustentável porque tem exploração humana no sistema, que é baseado num custo baixo de construção.

Para pagar mais ao operário é necessário aumentar a produtividade?
Se o operário ganhar bem, tem que sistematizar ou não dá para pagar. É injusto pagar R$ 500 por mês para um operário empilhar tijolinho o dia inteiro. É porque tem escravo, ou então só milionário poderia fazer casa assim. Europa e Japão, que estão em outra fase de industrialização, trabalham com painéis parafusados.

Então a construção industrializada é mais sustentável?
Não necessariamente, mas tende a ser por restringir os problemas à indústria, onde são minimizadas perdas de materiais. No entanto, se o processo for o mesmo, com fôrmas mal-feitas e operários malpagos, dá na mesma. Como não é o normal, a industrialização leva à sustentabilidade e à diminuição do esforço humano.

Pensar no processo produtivo dos materiais é parte do projeto?
Tem que criar um repertório dos materiais e seus impactos, além de considerar o tipo de usuário e suas necessidades. Os melhores materiais, que devem ser preferidos do ponto de vista ambiental, são aqueles vivos, como é o caso da madeira, e os à base de óleos naturais ou água. A madeira é um grande material, mas só usamos para telhado, com dimensões exageradas. Pisos de linóleo, que vêm da linhaça, são espetaculares, duram muito e são totalmente recicláveis.

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