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Cultura sustentável


Evolução da engenharia construtiva e dos projetos demanda questionamento de processos e padrões estabelecidos


Por Bruno Loturco


E com relação a materiais que não são naturais?
Há os que exigem muita energia, mas que são fáceis de reciclar, como alumínio, aço e vidro. Também há materiais que, embora fáceis de reciclar, têm problemas ambientais, como o plástico. Os complexos, como o concreto, são complicados de se reutilizar.

Qual o problema com o concreto?
É espetacular, mas é um problema. Em uma caixa de madeira ou aço coloca-se areia, retirada de um rio, pedras, que acabaram com uma montanha, além de uma estrutura de aço e água. Isso tudo nunca vai voltar a ser o que era. É importante entender que não é sustentável, embora diminua o impacto ambiental, usar o entulho de concreto para fazer piso de estrada ou qualquer coisa.

Tem que voltar a ser o que era antes?
Como o caos é mais barato que a organização, é seis vezes mais caro reciclar do que jogar no lixo comum. A engenharia do futuro tem que se propor a crescer sem aumentar o consumo de material nem jogar nada fora. Não adianta picar pneu para usar em concreto. Tem que picar para fazer pneu. Senão não é sustentável, embora ambientalmente mais correto.

E é possível minimizar os efeitos desse ciclo?
Claro, usando materiais naturais em vez de sintéticos, materiais inorgânicos e de fácil reciclagem, como vidro, que dura muito, alumínio, ferro. Mas tem que tratar direito, proteger. E, ao reciclar, tomar cuidado pra aproveitar completamente. Sustentabilidade é um processo contínuo de aprendizado das novas tecnologias, sempre com a quarta variável, o significado.

Qual a importância do significado?
Não se pode impor uma norma porque não será obedecida. É como usar EPI [equipamento de proteção individual]. É questão de ensino, de significado, simbologia e cultura.

Que materiais a construção deveria condenar?
Não condenar, mas usar de forma diferente, na quantidade certa para obter a inércia necessária. Tem alguns materiais, como o PVC, que liberam fosgênio durante a queima. É o gás usado na primeira guerra para matar pessoas. Produtos químicos voláteis e alguns preservantes também devem ser evitados, como os à base de arsênico. Tintas à base de chumbo podem estar causando morte lá na origem. Têm cimenteiras sem os filtros necessários matando operários e a população do entorno com silicose. Alguns amiantos exigem mais cuidados.

Nesse contexto, qual a importância dos selos de certificação ambiental para produtos?
Selos são importantes, mas tem que se tomar cuidado e ter controle da qualidade. Não pode ser um certificado que vale para a amostra, mas sim para o sistema de produção. No entanto, o baixo volume de produção no Brasil não justifica fazer ensaio toda hora, o que dificulta a manutenção do controle da qualidade.

De que maneira um selo pode auxiliar na manutenção do controle da qualidade?
No Brasil, um selo de 1970 vale até hoje. A França introduziu um selo que avalia o edifício a partir do processo evolutivo, em que as exigências aumentam com o passar dos anos. Então, não é garantido que vai manter a certificação daqui cinco anos. Impõe a necessidade da inovação e do aprendizado no tempo, preparando para a geração futura de edifícios, que eu não sei se nossas construtoras vão fazer. O selo tem que evoluir com a tecnologia ou o fabricante não quer que as normas mudem para não perder o selo.

E qual a importância do volume de produção?
Para manter fiscais que entendem do processo e ganham bem. Não estamos preparados e não temos cursos dessas coisas. Não existe esse profissional, assim como não há engenheiro ambiental. Tem cursos de pós-graduação, mas muito rudimentares. Sem escala, não há cursos para formar engenheiros que avaliem projetos, alguém que sabe analisar, a partir da norma, do certificado e que seja aberto a inovações. Um engenheiro da prefeitura aprende lá dentro a avaliar, o que é um desastre do ponto de vista da sustentabilidade.

Os fabricantes têm materiais eficientes?
Alguns produzem até sem saber que são eficientes. Não há engenheiro de madeira no Brasil, alguém capaz de dizer como uma tora deve ser desdobrada para obter o máximo de rendimento. O produto é nobre, de baixo impacto ambiental, mas foi tirado da floresta sem muito critério. Aqui, talvez porque o mercado seja pequeno, ainda falta algo.

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