Os fabricantes deveriam ter um sistema de coleta dos sacos de
cimento entregues à obra, por exemplo?
Deveriam cobrar uma taxa por saco não devolvido. Com pilha é
igual. Ao devolver, recebe de volta. Se não devolver, arca com
o prejuízo. O sistema tem que ser mais agressivo.
E jogar a responsabilidade para o consumidor?
Não, no bolso dele.
Os projetistas brasileiros têm capacidade de desenvolver
projetos sustentáveis?
Estamos mais atrasados que os outros, mas acho que ninguém no Mundo
tem. Há escritórios fazendo esforços para se atualizar,
mas as escolas não ensinam. Na Escola Politécnica da Universidade
de São Paulo há uma disciplina optativa de sustentabilidade,
por onde passam 30 alunos de 600. E todas as engenharias têm problemas
de sustentabilidade.
O senhor afirmou, anteriormente em entrevista à Téchne,
que os profissionais fogem de análises de variáveis conflitantes.
De quê decorre essa fuga?
Primeiro porque vêm de uma sociedade perdulária. Ao entrar
na faculdade o aluno ganhou um carro sem nunca ter discutido a necessidade
do carro. Na faculdade, ninguém ensina pra ele que um sistema sustentável
faz em meia-hora o que os outros fazem em cinco. Tem aula de desenho,
matemática, física, conforto, mas jamais sustentabilidade.
Essa palavra não existe.
E quanto às imposições de mercado baseadas
em padrões culturais?
O primeiro grande problema é fazer com que as pessoas pensem em
viver mais simples, destruindo menos o meio ambiente. É difícil
porque é uma sociedade de consumo exigindo mudanças violentas
de comportamento.
Quando essa consciência chegará à construção
civil?
A construção é o mais retrógrado dos setores
e foi o último a buscar o Total Quality Control, a ISO 9000. Existe
tanta simbologia embutida na casa, no lugar de trabalho, na altura do
prédio, que será o último a padronizar as operações,
seja no Brasil ou no Japão. É muito mais fácil criar
um sistema de reciclagem de automóveis, como fez a Mercedes, que
recicla 90% do carro, do que de edifícios.
Isso devido à cultura?
É uma mistura de cultura com padrões muito estabelecidos.
O Japão precisou de uma grande crise, também imobiliária,
para mudar. A nossa crise vai chegar, resta saber quando, pois estamos
vendendo apartamento a torto e direito sem escolher muito bem os credores.
E economia é o próprio sistema insustentável.
As coberturas das nossas construções ainda são
um desastre?
Existe tecnologia, mas os telhados vazam no Brasil. Um dos grandes problemas
é a falta de manutenção. O futuro está nas
coberturas verdes, com jardins, menos agressivas ao ambiente por aumentar
a inércia e melhorar a isolação térmica. Com
menos sol, os materiais duram mais. Mesmo assim, tem que ser fácil
de renovar a impermeabilização a cada dez anos.
Nossos projetos de cobertura são malconcebidos?
As vigas geralmente têm um tamanho absurdo, com duas vezes mais
madeira do que o necessário. E as tesouras no Brasil têm
caibro no meio, o que não se faz. Tem que ser um "W"
para descarregar fora do meio e dar menor momento, diminuindo o vão
e exigindo menos madeira.
Quais os principais problemas das nossas fachadas?
Não existe face ruim, existe projeto ruim. Temos que usá-las
ativamente, para aproveitamento de energia, e não apenas como proteção
passiva. Podemos colocar painéis solares na face oeste, que tem
muita radiação e sofre com problemas de aquecimento.
Deveríamos explorar melhor a incidência do sol?
Sem dúvida. Meu filho está reformando seu apartamento e
o projeto, de 20 anos, diz que a laje do terraço tem que ter cor
de cimento. Ele pintou de branco para diminuir a quantidade de lâmpadas
e tomou uma bronca do condomínio. No entanto, se fechar com vidro
pode pintar, o que só pode ser brincadeira, já que é
face oeste e, ao fechar, vai criar um efeito estufa. Não há
modernização da mentalidade coletiva. Existem regras sociais
que fazem todos andarem juntos, como gado, e serem incapazes de pensar.
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