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Entrevista
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Cultura sustentável


Evolução da engenharia construtiva e dos projetos demanda questionamento de processos e padrões estabelecidos


Por Bruno Loturco


Qual deve ser a relação da cobertura e da fachada com o meio? Aumentar a inércia térmica, com paredes verdes, por exemplo, é o mais adequado?
Certamente, mas que seja efetivamente verde, plantada, para sombrear o prédio. Há dois mil anos os árabes fazem paredes externas espessas para, com o frio da noite, a parede esfriar e não dar tempo de o calor do dia passar. E no meio havia um chafariz pra aumentar a umidade interna. O homem já fez todas as experiências, é só copiar e aplicar a tecnologia que temos hoje. Podemos usar inércia do solo.

Algum projeto atual adota solução semelhante?
A sede da prefeitura de Fukuoka, no Japão, projetada pelo arquiteto Emilio Ambasz, é um exemplo que ganhou um concurso internacional. Uma das fachadas é uma praça, verde, com vários patamares, janelas e queda d'água. Do outro, é um prédio semelhante aos demais. Outra coisa, adotada em países muito secos e que seria interessante para o Nordeste, por exemplo, são evaporadores para refrigerar casas.

É possível equacionar incidência solar sem gerar calor no ambiente?
Ao fechar um ambiente, a tendência é aumentar a temperatura. Com ventilação e evitando a entrada de muito calor e aglomerações, pode deixar a temperatura muito próxima à externa. É possível administrar, por exemplo, fazendo com que o prédio tenha massas significativas e necessárias à inércia. Ao usar divisórias leves, a tendência é que a temperatura oscile de acordo com a externa.

O conforto ambiental pode ser alcançado em qualquer projeto ou é exclusividade de obra cara e complexa?
Pode ser alcançado sempre. É possível fazer paredes de terra socada com 40 cm de espessura, garantida por 500 anos desde que protegida da água. Depende 90% de projeto, 10% de equipamento. Efeito estufa é o que mais acontece em edificações, principalmente nesses prédios com fachadas de vidro, o famoso pano de vidro. É um negócio perigoso.

Essa alternativa deveria ser banida?
Pode ser melhorada, porque ou me defendo ou aproveito a energia do sol. Percebe a diferença? No exterior, painéis solares nas fachadas geram energia ou aquecem água ao mesmo tempo em que são janelas. Existem vidros modernos, que mudam de cor ou são espelhados para diminuir o consumo de energia, embora exista o problema do reflexo.

No meio acadêmico é mais fácil difundir soluções alternativas em favor da sustentabilidade?
Já mandei projetos para a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) que foram rejeitados por não terem utilidade. Quis fazer avaliação ambiental de toda a USP (Universidade de São Paulo) e propus fazer coberturas verdes em todos os prédios. Com um milhão de metros quadrados, iria gerar 70% da energia e 100% da água que a Universidade precisa. Alegaram que a pesquisa é prematura. Mas se a idéia não for prematura, não é pesquisa. Aproveitamento é outro departamento, outra fase.

Por ter trabalhado no CSTB francês, diria que no exterior é diferente?
Morei dois anos na Europa e todas as idéias de pesquisa que tive viraram realidade. Aqui, nem o laboratório de desempenho que quis montar no IPT chegou ao fim. No mundo desenvolvido, manter as coisas iguais é a morte. No Brasil, mexer é perigoso.

Então falta muito investimento em pesquisa?
Vêem as propostas como estranhas porque não têm gente para avaliar. Quem avalia não sabe da quarta variável, o significado. Ser sustentável é questionar o significado em todas as ações.

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