Qual deve ser a relação da cobertura e da fachada
com o meio? Aumentar a inércia térmica, com paredes verdes,
por exemplo, é o mais adequado?
Certamente, mas que seja efetivamente verde, plantada, para sombrear o
prédio. Há dois mil anos os árabes fazem paredes
externas espessas para, com o frio da noite, a parede esfriar e não
dar tempo de o calor do dia passar. E no meio havia um chafariz pra aumentar
a umidade interna. O homem já fez todas as experiências,
é só copiar e aplicar a tecnologia que temos hoje. Podemos
usar inércia do solo.
Algum projeto atual adota solução semelhante?
A sede da prefeitura de Fukuoka, no Japão, projetada pelo arquiteto
Emilio Ambasz, é um exemplo que ganhou um concurso internacional.
Uma das fachadas é uma praça, verde, com vários patamares,
janelas e queda d'água. Do outro, é um prédio semelhante
aos demais. Outra coisa, adotada em países muito secos e que seria
interessante para o Nordeste, por exemplo, são evaporadores para
refrigerar casas.
É possível equacionar incidência solar sem
gerar calor no ambiente?
Ao fechar um ambiente, a tendência é aumentar a temperatura.
Com ventilação e evitando a entrada de muito calor e aglomerações,
pode deixar a temperatura muito próxima à externa. É
possível administrar, por exemplo, fazendo com que o prédio
tenha massas significativas e necessárias à inércia.
Ao usar divisórias leves, a tendência é que a temperatura
oscile de acordo com a externa.
O conforto ambiental pode ser alcançado em qualquer projeto
ou é exclusividade de obra cara e complexa?
Pode ser alcançado sempre. É possível fazer paredes
de terra socada com 40 cm de espessura, garantida por 500 anos desde que
protegida da água. Depende 90% de projeto, 10% de equipamento.
Efeito estufa é o que mais acontece em edificações,
principalmente nesses prédios com fachadas de vidro, o famoso pano
de vidro. É um negócio perigoso.
Essa alternativa deveria ser banida?
Pode ser melhorada, porque ou me defendo ou aproveito a energia do sol.
Percebe a diferença? No exterior, painéis solares nas fachadas
geram energia ou aquecem água ao mesmo tempo em que são
janelas. Existem vidros modernos, que mudam de cor ou são espelhados
para diminuir o consumo de energia, embora exista o problema do reflexo.
No meio acadêmico é mais fácil difundir soluções
alternativas em favor da sustentabilidade?
Já mandei projetos para a Fapesp (Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo) que foram rejeitados
por não terem utilidade. Quis fazer avaliação ambiental
de toda a USP (Universidade de São Paulo) e propus fazer coberturas
verdes em todos os prédios. Com um milhão de metros quadrados,
iria gerar 70% da energia e 100% da água que a Universidade precisa.
Alegaram que a pesquisa é prematura. Mas se a idéia não
for prematura, não é pesquisa. Aproveitamento é outro
departamento, outra fase.
Por ter trabalhado no CSTB francês, diria que no exterior
é diferente?
Morei dois anos na Europa e todas as idéias de pesquisa que tive
viraram realidade. Aqui, nem o laboratório de desempenho que quis
montar no IPT chegou ao fim. No mundo desenvolvido, manter as coisas iguais
é a morte. No Brasil, mexer é perigoso.
Então falta muito investimento em pesquisa?
Vêem as propostas como estranhas porque não têm gente
para avaliar. Quem avalia não sabe da quarta variável, o
significado. Ser sustentável é questionar o significado
em todas as ações.
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