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Alto desempenho, baixo impacto


A correta escolha da fachada garante maiores conforto e eficiência energética nas edificações. A polêmica que não cala é: fachadas cortina podem gerar pequeno impacto ambiental?


Simone Sayegh


A eficiência de uma fachada está atrelada à sua capacidade de reduzir impactos ambientais no funcionamento do edifício como um todo, e em sua própria construção. Para serem consideradas de baixo impacto ambiental as fachadas desse tipo devem fazer parte de um macrossistema edificado de alta eficiência energética. A aferição dos níveis de eficiência de uma envoltória só pode ser feita em conjunto com o nível do desempenho ambiental de todos os subsistemas que compõem o edifício.

De acordo com a especialista em fachadas de baixo impacto, a pesquisadora Mônica Marcondes, do Labaut (Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP - Universidade de São Paulo) não existe padronização nem solução ideal para uma fachada ser considerada de alta eficiência energética. "O primeiro passo é saber que tipo de respostas se espera de uma fachada", explica. Em primeiro lugar, a envoltória deve ter a função básica de proteger o interior do edifício. Para tanto deve apresentar alta estanqueidade à água, poeira e ruídos, aliada à rigidez, durabilidade e baixo custo de manutenção. Em um segundo momento pode ser exigido da envoltória o fornecimento de luz, calor ou ventilação. Todos esses aspectos devem ser levados em conta quando o projetista desenvolve o edifício. Se à função da fachada forem adicionados conceitos de baixo impacto ambiental, o universo amplia-se e o objetivo da envoltória passa também a abranger a busca pelos confortos térmico, acústico, luminoso e pela eficiência energética.

Para Mônica Marcondes, o projeto de fachadas de baixo impacto deve levar em conta cinco pontos básicos, que partem de um projeto integrado no qual se relacionam variáveis climáticas, o entorno, o usuário e o edifício. As características físicas da construção, como tipo de estrutura, forma, tipologia, orientação, pé-direito, mobiliário, revestimentos etc., devem se alinhar com o uso do espaço, medido pelo período de ocupação ao longo do dia, tempo de permanência, atividade desenvolvida, tipo e idade dos usuários e demanda de equipamentos (veja tabela 1).

A aferição desses pontos permite dimensionar a carga térmica do ambiente em questão e leva diretamente ao uso de dispositivos de conforto ambiental. Nesse campo, devem ser avaliadas as diferentes percepções do usuário, os aspectos fisiológicos aliados aos psicológicos, as exigências ambientais humanas mínimas e as normas brasileiras e internacionais. "Todas essas premissas levam a uma mudança de paradigmas que ainda esbarra em muitas barreiras culturais no Brasil", explica. Os set points dos equipamentos de ar-condicionado estão sempre regulados para manter os ambientes em uma temperatura de aproximadamente 21oC, muito frio para os padrões brasileiros. "As mulheres são as que mais sofrem", explica.

O Centro Empresarial Nações Unidas tem índice WWR (que mede a relação entre a área opaca e a transparente das fachadas) de 50%, considerado satisfatório para a capital paulista

Além dos aspectos de conforto ambiental, para garantir maior sustentabilidade na própria execução das fachadas devem ser empregados materiais que não resultem em resíduos excessivos e entulhos não-recicláveis, que não liberem no ar produtos considerados danosos à natureza, como compostos de cloro e carbono, e que não exijam para sua produção consumo excessivo de energia.

O arquiteto Paulo Duarte, consultor de fachadas da PCD Consultores, acredita que, nos trópicos, existem duas funções críticas e comuns à grande parte das fachadas: uma é permitir a passagem de luz suficiente para garantir conforto visual, de maneira a otimizar o consumo de energia para a iluminação artificial; outra é diminuir a quantidade de calor que passa de fora para dentro e reduzir o consumo de energia para a climatização. Podem também ser adotadas soluções passivas de ventilação, que diminuem o uso do ar-condicionado. "A ventilação natural deve ser apoiada em condições favoráveis de sombreamento", explica. Soluções baseadas nesse conceito podem ser largamente utilizadas para edifícios de poucos pavimentos como hospitais, laboratórios ou escritórios. No entanto, o arquiteto alerta que a abertura de vãos nas fachadas de edifícios comerciais altos, em cidades como São Paulo, é limitada pelo ruído excessivo e a má qualidade do ar. "Existem soluções sustentáveis mais adequadas para essas fachadas, mas elas estão atreladas ao grande cuidado no projeto e na execução", explica.

Para o arquiteto, obras de uso "coletivo", como edifícios de apartamentos ou de escritórios, dificilmente conseguem vender a idéia de sustentabilidade devido ao quase total desconhecimento e desinteresse do mercado consumidor a esse respeito. "Junte-se a isso o interesse relativo dos investidores, visando apenas ofertar algo diferente, que está em moda", critica.

Soluções adequadas
No Brasil, a partir da década de 80 começaram a ser projetados prédios com fachadas inteiramente transparentes, as chamadas cortinas de vidro seladas, importadas de modelos norte-americanos. Essa solução já foi exaustivamente discutida por especialistas que a consideram de pouca eficiência energética para o clima brasileiro, mesmo incluindo-se os avanços de alguns tipos de vidro frente às solicitações térmicas. De acordo com Mônica Marcondes, alguns produtos oferecidos no mercado são balizados por normas estrangeiras de países de clima temperado a frio, portanto, ao contrário do que se propõem, permitem a passagem de luz e calor. "Mesmo a condição de reflexão proposta por alguns tipos de vidro só aumenta o problema do vizinho", acredita.

Já o consultor Paulo Duarte acredita ser possível montar uma envoltória satisfatória com o uso de esquadrias bem apropriadas e a correta escolha de vidros. "Hoje os vidros disponíveis apresentam desempenho excepcional, ajudando muito, mesmo num país tropical", acredita. "O primeiro critério é haver preocupação real e verdadeira com a questão da sustentabilidade", conclui.

Toda essa discussão, no entanto, não pode deixar de lado índices bem aceitos no mundo todo, inclusive no Brasil, como o WWR (Window to Wall Ratio), que mede a relação entre a transparência e a opacidade da envoltória. Idealmente para São Paulo, um índice de 50% seria satisfatório, em oposição à grande massa de edifícios altos de escritórios em que essa relação sobe para quase 100%. A Torre Norte do Cenu (Centro Nações Unidas), projeto do escritório de arquitetura Botti Rubin, tem um índice de 50% e portanto é considerado um dos edifícios de melhor eficiência energética em São Paulo. Mas a solução mais adequada veio de um projeto de 1960 do arquiteto Rino Levi, hoje o edifício do Banco Itaú, na avenida Paulista, zona Sul da capital. Todas as fachadas foram tratadas de maneira diferenciada com cálculos e estudos de insolação. O resultado é típico da arquitetura moderna: a incorporação de sistemas de proteção solar passivos, como os brises, e fachadas cegas, com massa exposta, com alta inércia térmica e sombreamento garantido. "Um prédio de quase 50 anos ainda é o melhor de São Paulo em termos de conforto térmico e eficiência energética", explica Mônica. Ou seja, os brises tão difundidos na arquitetura moderna, se empregados nas fachadas certas e exteriormente à envoltória, suplantam a eficiência de torres totalmente de vidro, sem nenhuma proteção solar passiva, e suas altas demandas energéticas.

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