A
eficiência de uma fachada está atrelada à sua capacidade
de reduzir impactos ambientais no funcionamento do edifício como
um todo, e em sua própria construção. Para serem
consideradas de baixo impacto ambiental as fachadas desse tipo devem fazer
parte de um macrossistema edificado de alta eficiência energética.
A aferição dos níveis de eficiência de uma
envoltória só pode ser feita em conjunto com o nível
do desempenho ambiental de todos os subsistemas que compõem o edifício.
De acordo com a especialista em fachadas de baixo impacto, a pesquisadora
Mônica Marcondes, do Labaut (Laboratório de Conforto Ambiental
e Eficiência Energética da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP - Universidade de São Paulo) não existe padronização
nem solução ideal para uma fachada ser considerada de alta
eficiência energética. "O primeiro passo é saber
que tipo de respostas se espera de uma fachada", explica. Em primeiro
lugar, a envoltória deve ter a função básica
de proteger o interior do edifício. Para tanto deve apresentar
alta estanqueidade à água, poeira e ruídos, aliada
à rigidez, durabilidade e baixo custo de manutenção.
Em um segundo momento pode ser exigido da envoltória o fornecimento
de luz, calor ou ventilação. Todos esses aspectos devem
ser levados em conta quando o projetista desenvolve o edifício.
Se à função da fachada forem adicionados conceitos
de baixo impacto ambiental, o universo amplia-se e o objetivo da envoltória
passa também a abranger a busca pelos confortos térmico,
acústico, luminoso e pela eficiência energética.
Para Mônica Marcondes, o projeto de fachadas de baixo impacto
deve levar em conta cinco pontos básicos, que partem de um projeto
integrado no qual se relacionam variáveis climáticas, o
entorno, o usuário e o edifício. As características
físicas da construção, como tipo de estrutura, forma,
tipologia, orientação, pé-direito, mobiliário,
revestimentos etc., devem se alinhar com o uso do espaço, medido
pelo período de ocupação ao longo do dia, tempo de
permanência, atividade desenvolvida, tipo e idade dos usuários
e demanda de equipamentos (veja tabela 1).
A aferição desses pontos permite dimensionar a carga térmica
do ambiente em questão e leva diretamente ao uso de dispositivos
de conforto ambiental. Nesse campo, devem ser avaliadas as diferentes
percepções do usuário, os aspectos fisiológicos
aliados aos psicológicos, as exigências ambientais humanas
mínimas e as normas brasileiras e internacionais. "Todas essas
premissas levam a uma mudança de paradigmas que ainda esbarra em
muitas barreiras culturais no Brasil", explica. Os set points dos
equipamentos de ar-condicionado estão sempre regulados para manter
os ambientes em uma temperatura de aproximadamente 21oC, muito frio para
os padrões brasileiros. "As mulheres são as que mais
sofrem", explica.
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| O Centro Empresarial Nações
Unidas tem índice WWR (que mede a relação entre
a área opaca e a transparente das fachadas) de 50%, considerado
satisfatório para a capital paulista |
Além dos aspectos de conforto ambiental, para garantir maior sustentabilidade
na própria execução das fachadas devem ser empregados
materiais que não resultem em resíduos excessivos e entulhos
não-recicláveis, que não liberem no ar produtos considerados
danosos à natureza, como compostos de cloro e carbono, e que não
exijam para sua produção consumo excessivo de energia.
O arquiteto Paulo Duarte, consultor de fachadas da PCD Consultores, acredita
que, nos trópicos, existem duas funções críticas
e comuns à grande parte das fachadas: uma é permitir a passagem
de luz suficiente para garantir conforto visual, de maneira a otimizar
o consumo de energia para a iluminação artificial; outra
é diminuir a quantidade de calor que passa de fora para dentro
e reduzir o consumo de energia para a climatização. Podem
também ser adotadas soluções passivas de ventilação,
que diminuem o uso do ar-condicionado. "A ventilação
natural deve ser apoiada em condições favoráveis
de sombreamento", explica. Soluções baseadas nesse
conceito podem ser largamente utilizadas para edifícios de poucos
pavimentos como hospitais, laboratórios ou escritórios.
No entanto, o arquiteto alerta que a abertura de vãos nas fachadas
de edifícios comerciais altos, em cidades como São Paulo,
é limitada pelo ruído excessivo e a má qualidade
do ar. "Existem soluções sustentáveis mais adequadas
para essas fachadas, mas elas estão atreladas ao grande cuidado
no projeto e na execução", explica.
Para o arquiteto, obras de uso "coletivo", como edifícios
de apartamentos ou de escritórios, dificilmente conseguem vender
a idéia de sustentabilidade devido ao quase total desconhecimento
e desinteresse do mercado consumidor a esse respeito. "Junte-se a
isso o interesse relativo dos investidores, visando apenas ofertar algo
diferente, que está em moda", critica.
Soluções
adequadas
No Brasil, a partir da década de 80 começaram a ser projetados
prédios com fachadas inteiramente transparentes, as chamadas cortinas
de vidro seladas, importadas de modelos norte-americanos. Essa solução
já foi exaustivamente discutida por especialistas que a consideram
de pouca eficiência energética para o clima brasileiro, mesmo
incluindo-se os avanços de alguns tipos de vidro frente às
solicitações térmicas. De acordo com Mônica
Marcondes, alguns produtos oferecidos no mercado são balizados
por normas estrangeiras de países de clima temperado a frio, portanto,
ao contrário do que se propõem, permitem a passagem de luz
e calor. "Mesmo a condição de reflexão proposta
por alguns tipos de vidro só aumenta o problema do vizinho",
acredita.
Já o consultor Paulo Duarte acredita ser possível montar
uma envoltória satisfatória com o uso de esquadrias bem
apropriadas e a correta escolha de vidros. "Hoje os vidros disponíveis
apresentam desempenho excepcional, ajudando muito, mesmo num país
tropical", acredita. "O primeiro critério é haver
preocupação real e verdadeira com a questão da sustentabilidade",
conclui.
Toda essa discussão, no entanto, não pode deixar de lado
índices bem aceitos no mundo todo, inclusive no Brasil, como o
WWR (Window to Wall Ratio), que mede a relação entre a transparência
e a opacidade da envoltória. Idealmente para São Paulo,
um índice de 50% seria satisfatório, em oposição
à grande massa de edifícios altos de escritórios
em que essa relação sobe para quase 100%. A Torre Norte
do Cenu (Centro Nações Unidas), projeto do escritório
de arquitetura Botti Rubin, tem um índice de 50% e portanto é
considerado um dos edifícios de melhor eficiência energética
em São Paulo. Mas a solução mais adequada veio de
um projeto de 1960 do arquiteto Rino Levi, hoje o edifício do Banco
Itaú, na avenida Paulista, zona Sul da capital. Todas as fachadas
foram tratadas de maneira diferenciada com cálculos e estudos de
insolação. O resultado é típico da arquitetura
moderna: a incorporação de sistemas de proteção
solar passivos, como os brises, e fachadas cegas, com massa exposta, com
alta inércia térmica e sombreamento garantido. "Um
prédio de quase 50 anos ainda é o melhor de São Paulo
em termos de conforto térmico e eficiência energética",
explica Mônica. Ou seja, os brises tão difundidos na arquitetura
moderna, se empregados nas fachadas certas e exteriormente à envoltória,
suplantam a eficiência de torres totalmente de vidro, sem nenhuma
proteção solar passiva, e suas altas demandas energéticas.
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