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Alto desempenho, baixo impacto


A correta escolha da fachada garante maiores conforto e eficiência energética nas edificações. A polêmica que não cala é: fachadas cortina podem gerar pequeno impacto ambiental?


Simone Sayegh


O projeto de Norman Foster é um dos primeiros modelos de edifícios ecológicos de Londres. As fachadas são formadas de vidro duplo com metalização e cavidade de 15 cm ventilada
Fachadas ventiladas

Além da tradicional solução de proteção solar passiva, tem-se discutido no Brasil o projeto de edifícios com fachadas duplas ventiladas. Primeiramente, o termo foi conferido às soluções com painéis opacos fixados afastados do paramento. A função da segunda pele nas fachadas ventiladas opacas é de promover um sombreamento na fachada, além da ventilação retirar carga térmica. Nesse tipo, já utilizada no Brasil há mais de 13 anos, são usados como revestimentos da segunda camada produtos panelizados, como pedras, cerâmica e alumínio compósito, na maioria das vezes com juntas seladas, com distância entre camadas de no mínimo 10 cm.

O uso desse tipo de fachadas deve obedecer aos requisitos técnicos de estanqueidade (veja tabela 2). Deve-se impermeabilizar muito bem o paramento por trás dos elementos da segunda camada, independentemente do envelope externo. "Não há o conhecimento pelo usuário final, e muitas vezes nem pela construtora, da necessidade de se tornar estanque esse paramento", explica Duarte. "A falta da impermeabilização é tratada apenas como uma simples redução de custos", conclui.

Com quase 50 anos, o prédio do arquiteto Rino Levi, hoje do Banco Itaú, na avenida Paulista, em São Paulo, é um dos mais eficientes em conforto ambiental e consumo de energia (acima). Sistemas de proteção solar passivos como os brises (detalhe), aliados às fachadas cegas, com massa exposta e alta inércia térmica, garantem controle da incidência de carga térmica e sombreamento estratégico

Já o uso de duas peles de vidro com uma cavidade entre elas, ventilada ou não, são largamente empregadas fora do Brasil e estão associadas a edifícios altos. "Por sua natureza intrínseca, as fachadas duplas transparentes ventiladas resultam em sistemas tecnologicamente complexos, com custos iniciais elevados", explica Mônica. Dentre os argumentos mais defendidos pelos projetistas para o emprego desse tipo de fachada está o aumento na eficiência energética e no conforto dos usuários, a diminuição da transmissão sonora, pois barra ruídos externos, e a redução dos ganhos solares, aliada a uma maximização da transparência. Além dessas características, esse sistema permite a ventilação natural em andares mais altos.

Em climas mais frios a grande preocupação é manter o calor no edifício, necessidade exatamente oposta à brasileira. As fachadas duplas garantem que a luz incidente sobre a primeira camada gere um calor que fica estocado na cavidade. Nas primeiras tipologias, em dias mais amenos esse calor podia ser retirado por meio da convecção do ar provocada por vãos existentes nos limites superior e inferior da cavidade. Esse modelo foi abandonado devido à ventilação que percorria toda a extensão vertical da fachada não ser suficiente para retirar toda a carga térmica dos andares mais elevados, onde o acúmulo é maior. Hoje, a tipologia básica conta com aberturas de vãos superiores e inferiores em cada pavimento, separados por chapas opacas ou grelhas. Além da separação entre andares o sistema conta com proteção solar interna à cavidade, que auxilia na reflexão da luz e calor. Esse tipo de solução pode ser visto no novo edifício do New York Times, na cidade de Nova Iorque e no edifício de escritórios Aurora Place, em Sidney, Austrália, ambos os projetos do arquiteto Renzo Piano. Os avanços tecnológicos nessa área não param, e já existem projetos em que a segunda camada conta com uma sucessão de aletas em toda a sua extensão, com abertura automatizada, mesmo em situações de altas velocidades de vento, de maneira a prolongar o período no qual o edifício pode ser naturalmente ventilado. É o caso do Debis Building, outro projeto de Piano, em Berlim, com solução de fachadas totalmente automatizada, mas a um custo altíssimo mesmo para os padrões internacionais. Em dias quentes com baixas velocidades de vento, e em dias de chuva as aletas se fecham e o ar-condicionado é automaticamente ligado.

O edifício Debis, em Berlim, Alemanha, apresenta fachada dupla ventilada com camada exterior com aletas de vidro passíveis de abertura automatizada. É a última geração em fachadas duplas ventiladas. O projeto é de Renzo Piano
Quando se abrem todas as aletas, o sistema funciona como uma pele de vidro simples. O sistema alia a ventilação natural e a artificial, que deve ser corretamente dimensionada para esse fim, sem excessos de carga instalada. "Projetos onde trabalhem juntos todos os projetistas envolvidos, inclusive o do ar-condicionado, garantem os melhores resultados de eficiência energética no futuro", recomenda. Em São Paulo, onde o aquecimento é uma das maiores preocupações em edifícios de escritórios altos, as fachadas duplas ventiladas (tipologia básica) podem ser empregadas para expandir o período em que o edifício pode ser naturalmente ventilado, em épocas de mais frio. Quando há muito calor e pressão de vento insuficiente aciona-se o condicionamento artificial. "O modo misto de condicionamento de ar é ideal para o clima brasileiro", acredita Mônica.

Normatização a caminho
No Brasil ainda não existem normas que regulem o conforto ambiental nos edifícios de escritórios. No máximo, existem requisitos mínimos de desempenho para fachadas de habitações em um projeto de norma da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) que deve ser publicado ainda neste ano. As normatizações principais são relativas ao funcionamento do ar-condicionado e à fabricação de vidros e esquadrias.

No entanto, o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Catarina, por meio de um convênio firmado com a Eletrobrás no âmbito do programa Procel Edifica (Programa

O edifício do Commerzbank, projetado por Norman Foster, é um ícone de conforto ambiental e eficiência energética na Europa. Possui modo misto de condicionamento de ar, que alia a ventilação natural de estratégicas aberturas e a ventilação mecânica do sistema radiante de forros gelados

Nacional de Conservação de Energia Elétrica para Edificações), desenvolveu um documento em que apresenta os requisitos técnicos necessários para a classificação do nível de eficiência energética de edifícios comerciais, de serviços e públicos, com o objetivo de promover a etiquetagem voluntária. A regulamentação trata da eficiência e potência instalada do sistema de iluminação, da eficiência do sistema de condicionamento do ar e do desempenho térmico da envoltória do edifício. Ela permite uma classificação do nível de eficiência A (mais eficiente) a E (menos eficiente), e inclui incentivos adicionais para aumento da eficiência ao implementar sistemas como energia fotovoltaica ou co-geração.

O professor Roberto Lamberts, pesquisador do laboratório e membro do CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável) explica que a etiquetagem já está em implementação junto ao Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial). Os cálculos e simulações recomendados podem ser efetuados com softwares especiais voltados à simulação de consumo de energia de edificações, que estudam o impacto de alternativas de fachada. "Esses programas simulam o consumo de energia hora a hora durante um ano inteiro e permitem análises detalhadas", explica Lamberts. Nesse meio tempo, arquitetos e projetistas que já desenvolvem projetos mais sustentáveis buscam se adequar a certificações internacionais como o Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), que faz parte do USGBC (US Green Building Council), conselho norte-americano de construção sustentável. Para receber esse selo, o empreendimento deve se enquadrar em critérios que envolvem tipo de terreno, economia de água, eficiência energética, qualidade do ar interno, reciclagem e inovação do projeto.

Simone Sayegh, Colaboraram Mônica Marcondes, Paulo Celso Duarte e Roberto Lamberts

Serviço
www.cobracon.org.br
www.labeee.ufsc.br/eletrobras/reg. etiquetagem.voluntaria.html
www.usgbc.org
www.cbcs.org.br

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