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| Alexandra Lichtenberg, arquiteta da Ecohouse e mestre
em conforto ambiental e eficiência energética pela FAU
(Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da UFRJ (Universidade Federal
do Rio de Janeiro). |
O que é sustentabilidade O
que caracteriza um projeto sustentável?
A principal característica de um projeto sustentável é
a eficiência no uso de energia, água e recursos ao mesmo
tempo em que propicia um excelente nível de conforto (higrotérmico,
lumínico, acústico, visual e de mobilidade) ao usuário.
Como conseqüência, redução na emissão
de carbono. A edificação deve ser monitorada em sua fase
de uso e manutenção para verificação de consumos
(benchmarking) e possíveis correções a serem feitas.
Que critérios balizam a elaboração de um
projeto que visa ser sustentável? Defende a idéia de que,
no futuro, esses critérios sejam requisitos obrigatórios
para os projetos de arquitetura?
Acredito que não seja possível tornar obrigatório
um processo de produção. Porém, o próprio
mercado vai induzir a isso, porque atualmente os melhores resultados foram
atingidos com o uso desse modelo.
Como se dividem e como devem trabalhar as equipes nesse contexto?
Deve sempre existir um gerenciador ou coordenador do projeto, que vai
convocar a presença dos diversos profissionais envolvidos. Mas
a maioria deles vai estar presente desde a fase inicial. As fases de planejamento
e projeto nesse modelo demoram e custam mais, mas vão trazer economias
de recursos, tempo e dinheiro nas fases de construção, uso
e manutenção da edificação.
A flexibilidade de uso caracteriza a construção
sustentável? Que aspectos um edifício deve reunir para atender,
de forma eficiente, as necessidades de proprietários distintos?
Sem dúvida. Uma edificação deve durar no mínimo
50 anos, e durante esse período é muito provável
que as necessidades de seus usuários sejam variáveis, mesmo
que dentro do mesmo tipo de uso. E atualmente vemos várias edificações
mudando de uso, por exemplo, de edifício de escritórios
para edifício residencial, de armazém para edifício
de escritórios ou residencial etc. Os aspectos principais são:
a estrutura da edificação deve ser bem detalhada e flexível.
A alvenaria estrutural, por exemplo, apesar de ser mais barata para a
construção, não permite essa flexibilidade. As instalações
elétricas e hidrossanitárias devem ser bem detalhadas e
instaladas em shafts com boa acessibilidade, para permitir modificações
futuras de projeto.
Quais novos conhecimentos devem possuir arquitetos, projetistas,
empreiteiros e incorporadores diante desse novo quadro mundial? Como deve
ser a formação desses profissionais?
Os profissionais devem sempre se manter atualizados a respeito de novas
tecnologias, principalmente sobre energias renováveis e novos materiais.
Precisam entender os benefícios e saber como projetar de acordo
com o clima e a topografia local, e saber especificar os melhores materiais
para cada situação.
As escolas de engenharia, arquitetura e negócios devem incluir
o tema sustentabilidade integrada em seus currículos.
No Brasil, quais as reais implicações da adoção
das estratégias da arquitetura ecológica para a indústria
da construção civil e para o mercado imobiliário?
Veja, a fachada ventilada, recurso bastante usado lá fora, ainda
não é difundida no Brasil, por onerar o custo dos imóveis,
sobretudo os residenciais. Isso é mito. Alguns relatórios
oficiais já foram produzidos nos Estados Unidos para provar isso.
Estratégias de arquitetura de acordo com o clima do local não
são utilizadas por falta de conhecimento dos profissionais envolvidos.
O que as incorporadoras exigem hoje nos projetos? O que o edifício
deve ter de sustentabilidade mínima para atrair locadores e compradores?
Os incorporadores e investidores no Brasil atualmente exigem lucro máximo
em detrimento do conforto do usuário e da sustentabilidade da edificação
- e levam os legisladores a reboque nesse esforço.
A grande maioria dos edifícios residenciais está sendo
construída com pé-direito útil entre 2,40 m e 2,55
m.
No clima tropical úmido é impossível conseguir conforto
higrotérmico com essa altura de pé-direito sem uso de ar-condicionado
(equipamento intensivo em uso de energia). Não há preocupação
com a proteção das fachadas e aberturas contra insolação
direta - mais uso de ar-condicionado. As construções
de antes do advento do ar-condicionado tinham um pé-direito alto
(mínimo 3 m) para que o ar quente que se acumulasse no teto e não
interferisse no conforto do usuário, e ventilação
cruzada, para que esse ar quente pudesse ser levado para fora. O que ainda
se vê muito no nosso mercado é o "green washing",
expressão utilizada para indicar apenas o uso cosmético
da sustentabilidade. Com as recentes publicações do IPCC
(em português, Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas),
a sustentabilidade mínima de edificação passou a
ser mais abrangente - os quesitos de eficiência energética,
uso da água e tratamento de esgotos, uso de recursos naturais e
mobilidade precisam todos ser considerados no projeto.
Assembléia
Nacional do País de Gales, em Cardiff, no Reino Unido
Selecionado por meio de uma licitação internacional, o
projeto do arquiteto ítalo-britânico Richard Rogers para
a nova sede do parlamento de Gales, inaugurada em 2006, tem como destaque
uma
imensa
cobertura de chapas metálicas e forro de madeira certificada pelo
FSC (Forest Stewardship Council). Sua extensa superfície propicia
a coleta de água de chuva que é armazenada num tanque subterrâneo
de 100 m³. A água é destinada para os lavatórios,
bacias e jardinagem. O edifício conta ainda com estratégias
passivas de climatização, como o sistema de esfriamento
que extrai água a 100 m debaixo da terra, a uma temperatura de
16ºC. A cobertura dispõe de um cone envidraçado com
um jogo de espelhos que promove a entrada de luz natural até a
câmara dos deputados, localizada no centro da edificação.
Cerca de 36% do valor da construção foi investido em materiais
e mão-de-obra locais.

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