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Padrões de desempenho


Para engenheiro, construção baseada em desempenho torna relação entre cliente e construtor mais transparente. Além disso, torna requisitos de sustentabilidade mais precisos


Por Renato Faria


Wim Bakens

Formou-se no curso de Engenharia Arquitetônica da Universidade de Tecnologia de Eindhoven, na Holanda, em 1975. Na mesma instituição, concluiu seu Doutorado em 1992, com um trabalho sobre "O Futuro da Construção". Depois de trabalhar durante sete anos no Ministério da Habitação holandês, passou a coordenar pesquisas e sistemas regulatórios no segmento da construção. Na Bakkenist Management Consultants – uma das maiores empresas de consultoria do país, da qual foi consultor sênior e depois sócio –, coordenou um grupo de consultores especialistas no setor da indústria da construção. Desde 1994, é secretário-geral do CIB (International Council for Research and Innovation in Building and Construction).

Novidade no Brasil, o conceito de desempenho vem ganhando força no mercado europeu da Construção. Segundo o secretário-geral do CIB (em português, Conselho Internacional para a Pesquisa e Inovação na Construção), Wim Bakens, isso é resultado do crescimento da demanda por qualidade entre os consumidores de imóveis no continente. Além disso, acredita, é um instrumento que proporciona maior transparência nas relações comerciais entre cliente e construtor. Projetar tendo em mente o conceito de desempenho não é tarefa fácil. Exige dedicação e treinamento técnico. É verdade que novas tecnologias da informática, como alguns softwares de checagem de projetos, vêm sendo desenvolvidas para auxiliar esses profissionais a superar os desafios técnicos. Por outro lado, a construção baseada em desempenho, segundo Bakens, estimula a criatividade do projetista e o incentiva a desenvolver novas soluções tecnológicas. "Ele é obrigado a pensar, porque tem diversas opções disponíveis", acredita. O engenheiro defende o papel do Poder Público no processo de industrialização da construção. Na Holanda, exemplifica, duas décadas depois da Segunda Guerra Mundial, o governo estimulou a industrialização do setor por meio de uma troca com os construtores do segmento residencial: se essas empresas passassem a utilizar sistemas industrializados, o governo lhes garantiria novas obras para os anos seguintes. Em sua opinião, o setor da construção brasileiro deveria reivindicar o mesmo. "O segmento da construção também deve fazer sua parte, forçando a criação de regulamentações, reivindicando subsídios", conclui.

Como evoluiu o conceito de desempenho na construção européia?
O desempenho é mais exigido agora do que no passado. O que eu vejo nos países mais desenvolvidos é uma maior demanda por qualidade. As pessoas podem e querem pagar mais por melhor qualidade, seja na habitação, seja nos demais tipos de edifícios. A preocupação com os sistemas prediais vem crescendo cada vez mais na concepção da construção. As pessoas acreditam ser importante ter um sistema de climatização de qualidade, por exemplo, e querem investir nisso, pagar por isso. Às vezes, mais de 50% da verba de construção de um edifício é destinada ao projeto e à execução dos sistemas prediais. Na Europa de 20 ou 30 anos atrás as casas eram pequenas, baratas, fáceis de construir; hoje as casas são maiores, com maior ênfase em adaptabilidade.

Há diferenças entre edifícios comuns e de alto desempenho?
Acredito que o conceito de desempenho não se aplica a um outro tipo de edifício, mas sim a um outro processo. Eu, como consumidor de sistemas de climatização, posso definir, se quiser, que o sistema que eu adquiri deverá ter um nível mínimo de desempenho. Se o fizer, o projetista e o construtor deverão me apresentar exatamente essa solução. Isso evita que o cliente contrate um projeto de edifício de desempenho mínimo e o construtor lhe apresente um projeto caríssimo de alto desempenho. O conceito de desempenho deixa as coisas bem claras: isso é o que eu quero; então, traga-me as melhores soluções construtivas.

Aplicar o conceito a um empreendimento encarece o produto final?
Para se desenvolver esse tipo de projeto não é necessário gastar muito dinheiro, mas muita energia criativa. Recentemente, em uma pesquisa do World Business Council, perguntou-se aos construtores de diversos países qual seria, na opinião deles, o custo adicional na construção de um edifício energeticamente eficiente. As respostas giraram em torno de 20%. Entretanto, o valor real, segundo a entidade, é de 5%. Esse valor tem sido bastante utilizado por defensores da Construção Sustentável que afirmam que, investindo um pouquinho a mais de dinheiro e exigindo um pouco mais de dedicação dos profissionais envolvidos, é possível obter um edifício muito mais econômico durante o uso, que utilizará 20% menos energia, terá 20% menos manutenção, será mais adaptável. Pode não ser importante agora, mas talvez o seja daqui a dez anos. Vale a pena? O cliente é quem decide.

Onde estão os obstáculos para a disseminação do conceito?
Em licitações para obras públicas, por exemplo, os construtores geralmente são obrigados a apresentar propostas com o menor custo possível. Em outras palavras, se alguém aparece com uma proposta 5% mais alta, mas que resultará em uma economia de 50% durante o uso, essa pessoa não ganhará a licitação. Portanto, isso é decisivo. Acredito que, se os clientes se derem conta disso, exigindo não apenas menor custo de construção, mas também menor custo de utilização durante a vida útil do empreendimento, e fazendo um investimento inicial maior, eles poderão também ter lucros ou benefícios maiores.

Há alguma obra pública que tenha adotado requisitos de desempenho?
Na Holanda, neste momento, um órgão ligado ao governo, responsável pela construção e administração de instalações prisionais, contratou empresas para construir dez presídios pelo país. O órgão descreveu o que queria e abriu um processo de licitação. Como contratante, ele definiu que o sistema de segurança dos presídios é a parte mais importante da edificação. Dessa forma, o próprio órgão definirá o tipo de sistema a ser utilizado nas instalações, não deixará a escolha a critério do construtor. Para o resto da construção, foram estabelecidos determinados requisitos de desempenho que deverão ser atendidos pela construtora. Esta definirá os sistemas construtivos mais adequados.

O uso de sistemas construtivos industrializados garante melhor desempenho a um edifício?
Em uma situação normal, todo edifício é um projeto singular. Nele, os construtores cometem erros, que vão se repetir em um outro projeto singular. Em um processo de produção industrial, alguém – no caso, a fábrica – está olhando para o sistema e aprendendo, adaptando. Erros são cometidos apenas uma vez. Em um ambiente industrial é possível obter também uma precisão muito maior, reduzir o desperdício de materiais, projetar melhor etc. Estou convencido de que há um salto de qualidade e a prática mostra isso.

Isso implica aumento da vida útil da construção?
Isso não significa automaticamente uma vida útil maior para a construção. Trata-se de uma questão completamente diferente. Muitos edifícios deveriam ser projetados para existir por apenas dez ou 20 anos, mas o normal é concebê-los para existir por 100 anos. Acho isso bastante insustentável. É preciso diferenciar a parte estrutural dos edifícios e seus sistemas internos. A parte estrutural pode ser projetada para durar 50 ou 100 anos. Mas os sistemas internos podem ser projetados para serem adaptáveis ou trocados em um período menor. Seria muito mais barato concebê-los para durarem apenas 20 anos, usando sistemas industrializados ou não.

É possível melhorar a performance de construções já existentes?
Se é possível? Antes de tudo, é necessário. Quase todas as construções que temos são edificações antigas, talvez menos de 1% são novas. Com as mudanças de nossos estilos de vida e de nossas necessidades, precisamos aproveitar os edifícios já existentes em vez de construir novas unidades. O problema é que, no passado, as construções não eram projetadas para serem flexíveis ou adaptáveis. Por isso, é muito caro adaptá-las hoje. Atualmente, temos desenvolvido o conceito de projetar tendo em vista a adaptabilidade no futuro. No final das contas, fica muito mais barato.

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