Metade
do terreno ocupado pelo centro tecnológico e administrativo do
grupo Mahle Brasil, dedicado ao desenvolvimento de motores, é classificado
como APP (Área de Preservação Permanente). Localizado
na Serra dos Cristais, em Jundiaí, cidade do interior de São
Paulo, o terreno fica no entroncamento das rodovias Bandeirantes e Anhangüera,
no km 48, e foi doado pela Prefeitura.
A preservação da mata nativa e a convivência harmoniosa
com os animais que residem na região é inerente às
obras em APPs. E como esse terreno é localizado dentro de uma microbacia,
foi necessário restaurar a mata ciliar das duas lagoas existentes
no local.
Com a implantação do Programa de Gestão da Racional
Engenharia, empresa responsável pela execução da
obra, foram identificados riscos e impactos decorrentes da atividade construtiva.
Daí foram definidos controles operacionais e planos de emergência
que contemplaram, inclusive, a coleta seletiva de resíduos.
Uma das primeiras ações, então, foi cercar a APP
com arame liso e mourões de eucalipto. Assim, a cada 30 m de cerca
foram deixadas aberturas de 1 m de largura para permitir a passagem de
animais e restringir a circulação de pessoas. Como complemento
a essa medida, foram instituídos serviços de ronda e vigilância
patrimonial para impedir o acesso de terceiros, além de treinamentos
e trabalhos de conscientização de colaboradores, fornecedores
e visitas. "Não se pode entrar na APP sem justificativa e
sem comunicar os órgãos responsáveis", salienta
Luciana Biondi, coordenadora do Sistema de Gestão Integrada da
Racional.
De acordo com os preceitos da ISO 14001 (norma que define os requisitos
para estabelecer e operar um sistema de gestão ambiental), a Racional
adota materiais recicláveis ou reciclados para montagem do canteiro.
Caso, por exemplo, do uso de painéis de madeira e telhas de cimento
recicladas sem amianto e das telhas translúcidas para minimizar
o consumo elétrico. "O custo de montagem de canteiros é
até menor por usar material reciclado", afirma Wilson Pompílio,
diretor-executivo da construtora. Além disso, os caminhões
que saem do canteiro têm as rodas lavadas em sistema que conta com
duas caixas de decantação.
O restauro da mata ciliar se deu com a implantação de um
programa de manutenção de plantio de mudas. Entre quatro
e cinco mil espécimes vegetais nativas foram reintroduzidas ao
meio. A escolha por mudas nativas visou a melhor adaptação
às características climáticas da região.
Como a área onde se encontra a obra não conta com redes
para abastecimento de água e coleta de esgoto, a captação
de água, desde o início da construção, é
feita em poço artesiano e os dejetos são acondicionados
em tanques até a transferência para a estação
de tratamento presente no empreendimento. Após tratamento, a água
é armazenada em tanque de reúso, com 150 m³ de volume.
A estação de tratamento tem capacidade para processar até
30 m³ de água por dia. Toda essa água será reutilizada
para jardinagem, lavagem de áreas externas, arrefecimento dos motores
em teste, em vasos sanitários e mictórios.
Projeto sustentável
Parte dos efluentes será aproveitada nos espelhos d'água
existentes nas lajes do primeiro e do segundo pavimento. A cobertura do
terceiro anel e das marquises conta com telhas zipadas ou trapezoidais.
Além do efeito arquitetônico, os espelhos aumentam a inércia
das lajes e diminuem os efeitos da carga térmica decorrente da
insolação. Como conseqüência direta, há
o incremento no conforto ambiental dentro da edificação
e a redução no consumo de ar-condicionado. A impermeabilização
dessas lajes foi feita com manta dupla e, devido à minimização
da oscilação térmica, demanda menos manutenção
ao longo dos anos.
A implantação do edifício no terreno íngreme
propiciou, além da criação dos espelhos d'água
e de melhor aproveitamento da iluminação natural, a incorporação
do talude à construção e, logo, sua proteção.
A arquitetura, do arquiteto Ricardo Loeb, deixou os taludes aparentes
em locais como restaurante, recepção e biblioteca para criar
um efeito visual diferenciado. A preocupação com os taludes
se deu já no início da obra, com a construção
dos acessos ao canteiro. Embora com custo mais elevado, uma das vias de
acesso foi executada com gabiões para diminuir o pé do talude
e evitar invasão à APP.
A estrutura foi executada com elementos pré-moldados e moldados
in loco, a depender da solicitação e da peculiaridade do
local. Em alguns pontos adotou-se a execução de vigas pré-moldadas
em canteiro, pois a inclinação do terreno impediria a chegada
de peças pré-moldadas com 16 m de comprimento. A empresa
prioriza o uso de elementos pré-moldados devido à racionalização
e ao menor impacto ambiental proporcionado pelo uso de fôrmas metálicas.
"Adotamos pré-moldados por questões logísticas
e de melhor execução", aponta o gestor de contratos
da Racional, engenheiro Waldemar Marotta.
O projeto de distribuição elétrica dentro do empreendimento
também levou em conta a otimização no uso de energia
elétrica. Previu a instalação de subestações
separadas e com divisões de acordo com os usos. Dessa maneira,
foi possível receber a energia da concessionária em média
tensão e redistribuí-la internamente. Essa estratégia
acarretou menor perda de carga ao longo do deslocamento.
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