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| Depois de captar a descarga, o sistema de proteção
contra descarga atmosférica deve dividir a corrente entre as
diversas descidas para condução ao aterramento. Eficiência
e segurança estão ligadas à quantidade de condutores |
Não é possível proteger completamente uma estrutura
contra as descargas atmosféricas. Os pára-raios, tecnicamente
chamados de SPDA (Sistemas de Proteção contra Descargas Atmosféricas),
atuam na proteção contra incidência direta e, mesmo
assim, sempre haverá riscos, ainda que substancialmente minimizados,
de ocorrerem descargas na edificação. A função
desses sistemas é receber o raio e encaminhá-lo para dissipação
no solo pelo caminho mais curto e rápido. O nível
de proteção desejável para uma edificação
é definido pela NBR 5419 - Proteção de Estruturas
contra Descargas Atmosféricas, que traz tabelas que classificam
a edificação de acordo com o tipo de ocupação,
o tipo de construção, seu conteúdo, localização
e topografia da região. Conforme for a classificação
da estrutura, a norma indicará a necessidade de haver ou não
SPDA, além do nível de proteção e respectiva
eficiência. É necessário levar em conta, ainda, o
mapa de curvas isoceráunicas*, que indica a quantidade anual de
cargas por quilômetro quadrado. Em São Paulo, por exemplo,
ao dividir a quantidade de raios pela quantidade de prédios, as
estatísticas indicam que os prédios são atingidos
por um raio a cada 15 anos, em média. "As descargas têm
preferência pelos prédios mais altos e com maior massa",
explica o engenheiro Duílio Moreira Leite, diretor da Encontre
Engenharia.
O diretor da divisão de potência do IEE-USP (Instituto de
Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo), Hélio
Eiji Sueta, conta que a revisão da norma está sendo feita
com base nas normas do IEC (International Electrotechnical Commission).
A norma do IEC é composta por quatro partes, sendo, respectivamente,
referentes a aspectos gerais e principais conceitos; gerenciamento de
riscos e probabilidades; proteção das estruturas e seres
vivos; e proteção de equipamentos eletroeletrônicos
internos. "Vai modificar bastante a atual norma brasileira",
prevê Sueta, que participa do comitê de revisão.
Uma das mudanças é a ênfase na proteção
de equipamentos, especialmente contra danos decorrentes de surtos provocados
pela alta intensidade das descargas. Para tanto, divide as áreas
externas do prédio de acordo com a sujeição à
queda direta de raios. Assim, determina os protetores a serem colocados
em cada ambiente a partir do risco de descargas.
* Curva isocerâunica é
a que une dois pontos da superfície terrestre a um idêntico
número de dias em que são observadas trovoadas (se só
se vêem relâmpagos, não são computados), em
um intervalo de tempo
Proteção composta
Após definir os riscos a que está sujeita a edificação
e qual é o nível de proteção desejado, são
tomadas as decisões técnicas de projeto com relação
a cinco pontos fundamentais: sistema de captadores, sistema de descidas,
sistema de aterramento, distâncias de segurança e equipotencialização.
Os dois últimos dizem respeito, respectivamente, ao distanciamento
das descidas em relação a portas e janelas e à continuidade
da descarga durante sua trajetória até o aterramento. "Curvas
no sistema de condução podem afetar a continuidade da descarga",
alerta Sueta.
Para entender o funcionamento de um SPDA, é importante conhecer
os três subsistemas que o compõem, pois são os mesmos
em qualquer metodologia de cálculo adotada. O subsistema de captação
é responsável por receber as descargas diretas. De acordo
com o engenheiro e consultor da Guismo Engenharia, Jobson Modena, "tudo
o que for metálico e estiver no topo de uma edificação
pode ser considerado elemento de captação". O mesmo
vale para objetos metálicos localizados nas laterais a mais de
20 m de altura a partir do solo. É esse subsistema que diferencia
a metodologia de cálculo do SPDA, como veremos adiante.
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| Para utilizar a estrutura do edifício como
condutora da descarga recebida, é necessário garantir
que as ferragens apresentem continuidade elétrica. Teste é
feito com equipamento que mede a resistência à corrente |
Região mais sujeita à queda de raios,
beiradas devem ser protegidas com anel periférico que interliga
os condutores |
O segundo subsistema é responsável por receber a descarga
dos captadores e dividir e conduzir, por meio das chamadas descidas, a
corrente para o aterramento. Não afeta o cálculo para disposição
dos captadores, mas a quantidade de descidas pode influenciar a eficiência
da condução. "A quantidade mínima está
ligada à norma e ao nível de proteção",
elucida Modena. Se a corrente estiver concentrada em poucas descidas,
pode saltar para janelas, por exemplo. Por isso, ao utilizar as ferragens
da própria estrutura para condução, "a diferença
é brutal", reforça.
Em vez de utilizar entre 15 e 20 descidas externas, exigidas pela norma,
toda a ferragem da estrutura conduz a corrente. Considerando que cada
pilar tem, pelo menos, quatro barras de aço, bastariam cinco para
igualar a eficiência. "É muito mais barato. Não
é usado por desconhecimento e por achar que pode estragar o pilar,
o que não é verdade", lamenta Modena. É importante,
no entanto, atentar para que todas as barras estejam em contato e bem
amarradas. "O campo magnético gerado pela corrente faz com
que as barras tendam a se atrair", explica Leite.
Alternativas para evitar o roubo de cobre, apontadas por Normando Virgílio
Borges Alves, da Termotécnica, são o uso de materiais mais
discretos e menos visados, que não prejudiquem também a
estética da fachada. Ele sugere barras chatas de alumínio
ou aço galvanizado a fogo, pintadas na cor da fachada ou instaladas
antes da aplicação do reboco.
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| Uso da estrutura como condutora de descargas é
preferido pela norma. Custos podem ser reduzidos e capacidade de dispersão
da corrente é maior devido à divisão entre as
ferragens dos diversos pilares |
O mesmo princípio vale para o subsistema de aterramento. "Se
as ferragens da estrutura estiverem ligadas às das fundações,
o aterramento está pronto", afirma Sueta. O volume de metal
dentro dos blocos de fundação aliado à umidade do
subsolo garante a dispersão da corrente na terra. Nos casos em
que a fundação não é usada para esse fim,
os condutores de descida devem ser interligados por um anel que contorna
toda a estrutura. Esse deve distar 1 m da periferia do prédio e
estar enterrado a 50 cm de profundidade. O recuo evita que a diferença
de potencial entre o interior e o exterior provoque a chamada tensão
de passo. Ainda é costume enterrar uma haste ligada aos condutores
para compor o aterramento. No entanto, "essa recomendação
será retirada da revisão da norma", alerta Sueta, pois
dissipa menos a corrente do que o anel.
Há uma tendência, inclusive com preferências indicadas
pela norma, para o uso de elementos naturais à edificação
para composição do SPDA. "Fica muito mais econômico.
Só precisa instalar os captadores", afirma Leite. As edificações
com estrutura metálica configuram um bom exemplo. Embora sejam
alvos mais fáceis para descargas, desde que atendam aos requisitos
da norma referentes à continuidade elétrica dos elementos
e à condição de receptividade quanto à perfuração,
"a estrutura pode ser considerada autoprotegida", observa Modena.
"É o que ocorre em tanques de combustível feitos em
chapas metálicas com mais de 5 mm de espessura", compara.
Em prédios metálicos, a corrente se divide muito entre as
colunas, eliminando os riscos aos usuários.
A proteção contra descargas para apartamentos de cobertura
não foge às regras gerais e considera a proteção
contra descargas diretas. Isso significa que a área ao ar livre,
assim como as pessoas que nela estiverem, estão teoricamente protegidas
contra descargas diretas. Ainda assim, no entanto, podem ocorrer descargas
laterais ou centelhamentos perigosos que não cabem ao SPDA evitar.
"A recomendação, nesses casos, é que as pessoas
se dirijam às áreas cobertas quando começar a trovejar",
resume Jobson Modena.
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