Os resíduos sólidos e líquidos gerados por centrais
dosadoras de concreto são classificados como perigosos pelas agências
ambientais e, portanto, devem receber tratamento adequado. De acordo com
a Abesc (Associação Brasileira das Empresas de Serviços
de Concretagem), anualmente cerca de 45 mil t de concreto são dispensadas
como rejeito, o que acarreta prejuízos ambientais e custos adicionais
de produção. Tais resíduos são gerados pela
devolução de concreto fresco, não usado nas obras,
lavagem dos caminhões-betoneira para evitar o endurecimento dos
resíduos no interior do balão e a lavagem do pátio
das centrais.
A água de lavagem dos caminhões fica com pH fortemente
alcalino, em torno de 12,5, e com elevado teor de sólidos em suspensão.
O problema é ampliado pelo volume de água demandado para
a lavagem diária de cada caminhão: em média 700 l.
Essa água, na grande maioria das centrais, vai para tanques de
sedimentação e recebe agentes químicos para corrigir
o pH. O tratamento, contudo, "não evita a formação
de resíduos sólidos - lama - e o elevado consumo
de água na operação", explica o professor Wellington
Repette, do Departamento de Engenharia Civil da UFSC (Universidade Federal
de Santa Catarina).
Já existe, no entanto, uma alternativa a esse processo agressivo,
que provoca alto consumo de água, contaminação do
meio ambiente por águas e resíduos alcalinos e desperdício
de concreto rejeitado. Uma pesquisa, desenvolvida no âmbito da UFSC
e coordenada por Repette, comprovou a viabilidade e a eficiência
do emprego de AEH (aditivo estabilizador de hidratação do
cimento, ou hydration control admixture, em inglês) ao término
da operação de descarga do concreto. Por evitar o endurecimento
dos resíduos, o aditivo permite que a água de lavagem permaneça
por muitas horas no interior do balão. A vantagem é a possibilidade
de incorporar essa água à composição da próxima
carga de concreto, eliminando qualquer descarte ou desperdício
de água.
Embora o aditivo e o método sejam conhecidos, havia dúvidas,
que a pesquisa visou sanar, sobre os efeitos no concreto produzido com
a água aditivada, além da viabilidade econômica da
operação. O foco da pesquisa, financiada pelo CNPq (Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e
Funcitec-SC (Fundação de Ciência e Tecnologia de Santa
Catarina), foi investigar os efeitos da solução na pega
do concreto, na taxa de ganho de resistência e na resistência
final do concreto. As avaliações técnica e econômica
da solução foram feitas a partir da observação
da quantidade de aditivo incorporado e do tempo de estabilização
até a mistura do concreto. Para tanto, os pesquisadores caracterizaram
as propriedades dos concretos produzidos com a água aditivada nos
estados fresco e endurecido.
A pesquisa ainda visava estabelecer um processo racional de dosagem
do AEH, analisar as quantidades de materiais remanescentes em caminhões
já descarregados, compreender o comportamento e os efeitos do aditivo
nas águas de lavagem, verificar a viabilidade técnica e
econômica do método em concretos com resistências de
25 MPa a 45 MPa e definir procedimentos práticos para sua implementação
em centrais de dosagem. Concluiu-se que o concreto não sofre alterações
nos estados fresco ou endurecido. O custo é competitivo, sobretudo
por reduzir o consumo de água e os gastos com deposição
dos resíduos resultantes do processo convencional.
Para chegar ao resultado esperado, os pesquisadores realizaram os estudos
numa central dosadora, onde estabeleceram que seria necessário,
no retorno do caminhão, adicionar uma quantidade conhecida de água
ao balão - no caso, 200 l para balões de 8 m³-,
e o teor determinado de AEH. Em seguida, rotacionar o balão. A
maior parte dos resíduos se depositará no fundo, junto com
a água e o aditivo. "É importante que a quantidade
de água seja medida e padronizada, pois afetará o traço
do concreto que complementará a carga na retomada da produção",
salienta Repette. O volume de água também afetará
o teor de aditivo necessário para estabilizar completamente a mistura
pelo período necessário. Este pode ser de aproximadamente
12 horas - quando a produção encerra num dia e é
retomada no outro - ou, até mesmo, 64 horas - com parada
na sexta-feira à tarde e retomada na segunda-feira pela manhã.
Durante esse tempo, a tampa do balão deve permanecer fechada para
que não haja evaporação excessiva ou entrada de água
de chuva.
Na retomada da produção, desconta-se o volume de água
já adicionado para realizar a nova carga de materiais. "O
aditivo, desde que adicionado em quantidades adequadas, perde seu efeito
estabilizador com a adição do material da carga", explica
o pesquisador. A quantidade de AEH é definida de acordo com o tipo
de cimento e as condições de produção do concreto.
Observados esses detalhes, não há efeitos colaterais indesejáveis,
seja no estado fresco ou endurecido.