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Mão-de-obra

Produção interna


Inflação dos serviços cobrados por empreiteiras não vem cabendo no orçamento de empreendimentos populares. Para algumas construtoras, contratar mão-de-obra própria pode ser a solução


Por Renato Faria


Marcos Lima
Vale a pena contratar mão-de-obra de produção própria? Há muito tempo a maioria dos construtores responde, sem hesitar, que não compensa assumir os ônus da contratação direta dos executores dos serviços prediais. Mas essa certeza vem sendo posta em xeque por algumas empresas. O bom momento por que passa a construção estimulou a demanda por materiais e mão-de-obra, pressionando a inflação no setor. Alguns construtores, principalmente os que atuam no segmento de baixa renda, identificaram um aumento sensível no valor dos serviços cobrados pelas empreiteiras e já se preparam para contratar diretamente os operários que trabalharão em seus canteiros.

Marcelo Scandaroli
Construtoras apostam na contratação de carpinteiros para execução das fôrmas das estruturas. Com mais obras no horizonte, essas empresas devem planejar remanejamento das equipes entre canteiros, reduzindo ociosidade
Pesam contra a decisão os custos decorrentes da gestão de recursos humanos, do pagamento de salários, gratificações, férias, 13º salário, horas extras, vale-transporte, treinamento e capacitação. Desde a década de 1970, quando o processo de terceirização começou no Brasil, as construtoras têm preferido repassar essas responsabilidades às fornecedoras de mão-de-obra especializada. Com a proliferação das empreiteiras, cresceu a competição no mercado e o custo caiu. "Foi quando essas empresas começaram a ser apertadas. Elas precisavam concorrer com preços competitivos e ser, portanto, mais eficientes", explica o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Ubiraci Espinelli Lemes de Souza. O problema é que muitas não conseguiram atingir níveis de produtividade satisfatórios que viabilizassem o preço apresentado e decretaram falência. Por isso, é preciso estar atento às empresas que apresentam valores muito abaixo da média praticada pelo mercado.

Acervo pessoal de André Aranha Campos
InMax contrata diretamente operários para produzir e montar sistema construtivo próprio. Mão-de-obra especializada nessa tecnologia não é encontrada no mercado
Um canteiro bem planejado pode facilitar o trabalho do empreiteiro e ser usado como moeda de troca na negociação com ele. "A responsabilidade pelo aumento da produtividade é também do construtor, com o correto planejamento do processo construtivo", afirma Souza. Se apresentar argumentos convincentes, a construtora consegue a redução do preço do serviço. "Se eu banco uma grua, meu fornecedor pode dispensar 20 homens e me cobrar um valor mais baixo", afirma Alcides Gonçalves, diretor de engenharia da Rossi Residencial.

Consideradas exceções, algumas empresas já trabalham há muito tempo com equipes de produção próprias. É o caso da Tarjab, que mantém uma equipe de carpinteiros e armadores para produção das estruturas de seus edifícios, e da InMax, que trabalha com um sistema construtivo próprio e necessita de mão-de-obra especializada, indisponível no mercado (confira estes e outros cases no quadro ao lado).

Marcelo Scandaroli
Aumento no preço cobrado por empreiteiras tem inviabilizado terceirização da mão-de-obra em empreendimentos de baixa renda. Construtoras já contratam pedreiros e armadores para execução de alvenaria estrutural, principal tecnologia construtiva usada neste segmento
Se a margem de lucro dos empreendimentos de alto padrão suporta, até certo ponto, as variações de preço das empreiteiras, no mercado de baixa renda o orçamento é apertado demais para absorver as pressões inflacionárias. Segundo construtores consultados pela Téchne, empreiteiras paulistas que há um ano cobravam entre R$ 13/m² e R$ 14/m² de alvenaria estrutural cobram hoje até R$ 19/m² pelo serviço - um aumento de mais de 40%. Na visão de algumas construtoras, a melhor alternativa foi migrar da terceirização para a contratação direta.

Com uma margem de lucro estreita, esses empreendimentos são rentáveis apenas quando produzidos em grande volume. A alta demanda por esse tipo de habitação dá a essas empresas a segurança de que executarão novas obras a longo prazo. A inexistência de intervalos favorece a contratação de mão-de-obra própria, pois elimina períodos de ociosidade das equipes de produção. "O planejamento de nossos empreendimentos leva em consideração a realocação de nossas equipes de produção para evitar que fiquem paradas" explica Marcelo Souza, diretor de operações da Fit Residencial (empresa do grupo Gafisa que desenvolve produtos imobiliários para o segmento popular).

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