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Roteiro acidental


Laudo do IPT reconstrói suposta seqüência de fatores que teriam culminado no desabamento do túnel da Linha 4 de São Paulo. Resumimos aqui os principais pontos do relatório


Seleção e organização: Heloisa Medeiros


Plano de monitoração do maciço
O relatório do IPT observa que o método NATM é observacional, um processo no qual o projeto pré-elaborado é revisto com o avanço da escavação, conforme as características do material escavado, os condicionantes geológico-geotécnicos encontrados e os dados da monitoração. Isso é conhecido como processo de validação do projeto e do método construtivo. Nesse contexto, os resultados da monitoração são vitais, pois dão suporte à comparação do desempenho versus previsão do projeto, retroanálise do comportamento, análise do nível de segurança e eventuais adequações do projeto e/ou método construtivo.

O plano de monitoração, portanto, é de fundamental importância na construção de túneis pelo método NATM. O IPT constatou que na Estação Pinheiros, o plano elaborado e implantado era deficiente para um bom acompanhamento da obra, provavelmente em conseqüência da pequena alocação de recursos para o item tecnologia (investigações, projeto e monitoração). O número de tassômetros e de marcos superficiais era reduzido. Em número muito abaixo do previsto no projeto, poucos piezômetros e indicadores do nível d''''''''água foram instalados, não permitindo a avaliação de eventual carga hidráulica atuante no sistema de suporte do túnel.

Em resumo, de acordo com o relatório do IPT, a instrumentação do túnel-estação sentido Faria Lima foi suficiente para identificar comportamentos anormais durante a escavação, mas insuficiente em termos de informações mais completas que permitissem a realização de retroanálises mais elaboradas. Em particular, a instrumentação associada ao acompanhamento hidrogeológico foi insuficiente, em termos de instalação de piezômetros destinados a confirmar a hipótese de que o maciço escavado encontrava-se efetivamente drenado.

Controle tecnológico
Em relação ao concreto projetado, principal peça estrutural do sistema de suporte primário do túnel, não existiu um controle sistemático e com freqüência adequada de sua resistência a baixas idades e do seu teor de fibras, em alguns trechos empregadas em menor quantidade que o especificado. Tais controles são fundamentais, destaca o laudo do IPT, pois afetam o tempo a partir do qual se pode contar com o concreto projetado como parte do sistema de suporte. Ocorreram ainda descuidos na concretagem do pé da parede do rebaixo, o que resultou em trechos sem apoio e sem suporte (falta de contato com o piso em rocha).

Em relação aos materiais empregados, telas de aço, cambotas treliçadas e tubulações de aço Schedule das enfilagens, embora não tenham sido submetidos durante a obra a todos os procedimentos de verificação e controle, atenderam aos requisitos mínimos exigidos pelo projeto, com base em amostragens e ensaios realizados durante a remoção dos escombros.

O controle da instalação das enfilagens foi precário, dadas as condições em que foram encontradas junto aos escombros. Inspeções visuais mostraram que a injeção de calda de cimento foi falha, pois foram encontrados tubos com preenchimento interno apenas parcial e vazios entre os tubos e o maciço.

Processo construtivo e desvios de projeto 
O procedimento construtivo, conforme estabelecido em projeto, previa a escavação da seção parcializada (calota e dois rebaixos), por meio de escavação a fogo. De acordo com o trabalho do IPT, na calota não houve maiores discrepâncias entre o previsto e o executado, mas na escavação do primeiro rebaixo houve desvios de projeto com impactos importantes na segurança da obra.

Tais desvios nos procedimentos de escavação do primeiro rebaixo incluem inversão do sentido de escavação, aumento da altura da bancada escavada e alterações na seqüência do plano de fogo, que não respeitou a escavação do caixão central avante dos alargamentos laterais alternados prevista em projeto. Esse conjunto de desvios, conclui o IPT, pode ser considerado uma violação do projeto e deveria implicar necessariamente um processo de verificações e ajustes e, conseqüentemente, novas previsões de projeto. Do contrário, afirma o laudo, pode-se dizer que existe uma desconexão entre o projeto executivo e o processo construtivo efetivamente executado.

A inversão do sentido de escavação do primeiro rebaixo, executado a partir do túnel de via em direção ao poço Capri, gerou uma redistribuição de tensões mais desfavoráveis ao sistema maciço-suporte do túnel do que a situação prevista inicialmente em projeto (do poço Capri ao túnel de via). Isso é agravado pela execução prévia do poço Capri, que gerou tensões menores no maciço no sentido do eixo longitudinal do túnel (descompressão do maciço) e tensões mais elevadas no sentido transversal (compressão). Portanto, a inversão do sentido de escavação do rebaixo é consideravelmente mais desfavorável do que o previsto em projeto, analisa o laudo.

Os trabalhos de investigação no campo mostraram que a altura escavada do primeiro rebaixo foi de 5,2 m, em média. Maior do que os 4 m previstos no projeto executivo, correspondendo a um acréscimo de 30%. O aumento da bancada do rebaixo também é mais desfavorável às condições de estabilidade do túnel, afirma o laudo.

No levantamento da documentação técnica sobre a escavação do primeiro rebaixo, o IPT constatou que inexistem Instruções Complementares de Execução ou outro documento que forneça suporte técnico, como análises, cálculos e justificativas, para as alterações de inversão do sentido da escavação, de altura da bancada e da parcialização da escavação (bancadas laterais avante do caixão central), o que constitui em violações de projeto, afirma o relatório.

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