A Resolução Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) no 307, em vigor há seis anos, ao responsabilizar o gerador pelo destino dado ao entulho visa diminuir a quantidade de resíduos depositados em bota-foras. De acordo com o texto, os resíduos de gesso não podem ser descartados juntamente com os demais, uma vez que esse material não conta com tecnologia de reciclagem economicamente viável. A partir desse fato, a F A Oliva Empreendimentos Imobiliários passou a buscar uma alternativa de revestimento que gerasse menos resíduos no canteiro de obras.
Foi assim que a Comunidade da Construção de Campinas, em parceria com a Abai (Associação Brasileira de Argamassa Industrializada), a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) e empresas de cimento, desenvolveu um revestimento cimentício de pequena espessura para uso em interiores. Vicente Paulo de Souza, engenheiro da F A Oliva e membro do Conselho da Comunidade da Construção, explica que a empresa colocou uma de suas obras à disposição para a realização de testes. Os trabalhos de desenvolvimento do produto demandaram também treinamento de mão-de-obra para obtenção da produtividade almejada.
A argamassa, obtida à base de cimento, cal, areia e aditivos não tóxicos, tem tempo em aberto controlado. Foi atestada conforme a NBR 13281 - Argamassa para Assentamento e Revestimento de Paredes e Tetos - Requisitos, em vigor desde 2005.
Inicialmente, o produto foi aplicado nas paredes internas de quatro unidades do Residencial Torres da Ponte, localizado na cidade de Jundiaí, no interior paulista. Os resultados positivos motivaram a F A Oliva a adotar o revestimento, em detrimento do gesso, nas 52 unidades de outro empreendimento na mesma cidade. Dentre as vantagens observadas, Souza destaca a qualidade do acabamento final, a velocidade de execução, a limpeza com menor geração de resíduos e o desempenho. "O custo ficou próximo do que tínhamos com o gesso", conta. Um dos motivos para o custo competitivo foi a possibilidade de usar mão-de-obra própria, sem a necessidade de terceirização. "Antes, contratávamos gesseiros", explica Souza.
Para a aplicação, manual, foi adotado método semelhante ao do gesso. "O maior tempo em aberto ajudou no desempenho dos operários", observa Souza. Usou-se desempenadeira plástica para a aplicação, corrugada para desempeno, e lisa para o acabamento final. O desempenho da aplicação foi atestado com medições de tempo de cada etapa, desde a preparação até o acabamento final.
A forma de aplicação foi fundamental para a economia de material. Em vez do sistema convencional - chapado com colher de pedreiro - a desempenadeira com argamassa é comprimida contra o substrato. Isso possibilitou que o revestimento tivesse 5 mm de espessura, com consumo de 9 kg de argamassa por metro quadrado de parede. Os revestimentos cimentícios convencionais consomem até 16 kg de argamassa para recobrir a mesma área. O volume de resíduos em comparação ao total consumido não chega a 4%.
A produtividade dos pedreiros atendeu às expectativas da Comunidade da Construção campineira. Cada operário tem executado aproximadamente 5,5 m² e revestimento por hora, no caso das paredes, e 4 m² por hora, quando se trata de teto. "Houve também resultados positivos obtidos com ensaios de cisalhamento e resistência à aderência", comemora Souza.
Por se tratar de um procedimento em desenvolvimento, alguns pontos estão sendo observados para aprimoramento. Um deles é a própria forma de aplicação. Embora a construtora perceba melhoras na performance da mão-de-obra, a Comunidade da Construção está avaliando os benefícios da mecanização da aplicação. A intenção é eliminar a etapa de sarrafeamento com a projeção da argamassa já na espessura desejada. Outro ponto é a aplicação de massa corrida. "Acabamos utilizando um pouco a mais desse material do que o utilizado para corrigir as imperfeições do gesso", conta Souza. É importante ressaltar que revestimentos tão delgados podem "fotografar" as juntas dos blocos. Também pode ocorrer rápida evaporação da água, o que prejudica a aderência da camada ao substrato.
Seqüência do desenvolvimento do revestimento de baixa espessura
1. Disponibilidade da obra
2. Caracterização do revestimento de gesso
3. Experimentação com revestimento de argamassa - aplicação manual
4. Observações comparativas dos sistemas
5. Expectativas e resultados