FRANCISCO PEDRO OGGI
Em 1970, cursou Desenho e Ilustração na Escola Panamericana de Arte, em São Paulo. Oito anos mais tarde, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie. Participou de diversos eventos e fez diversas especializações em estruturas e préfabricados, como o Master Course - Projeto de Estruturas Pré-moldadas da ABCIC (Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto), em 2007. É consultor em sistemas para pré-moldados desde 1992, atuando pela ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), Abesc (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem) e ABCIC. É presença freqüente em feiras de equipamentos e tecnologia do exterior, tendo participado de mais de 20 nos últimos 12 anos.
Falta mão-de-obra.Falta tempo para projetar.Faltam equipamentos e até materiais. Faltam técnica e tecnologias, além de participação dos arquitetos. Mas falta, antes de tudo, visão estratégica aos que decidem como as obras serão realizadas. Essa é a principal crítica de Francisco Oggi ao modelo de negócios consolidado na construção civil brasileira, que ainda parte do princípio de que há operários sobrando e que, portanto, podem ser contratados a baixo custo para processar todos os materiais "in loco". Segundo o engenheiro, o setor já avançou o máximo possível em desempenho e produtividade e não conseguirá ir além sem alterar a compreensão do que é construir de maneira industrializada. Isso significa olhar para o canteiro e perceber que, em vez de uma equipe de armadores, poderia contar com dois ou três funcionários ocupados em operar uma máquina que processe o aço de maneira rápida e eficiente. Mais do que isso, direcionar o raciocínio não para o custo do equipamento, que sempre parecerá alto, mas para os efeitos da industrialização no resultado final das contas. Com menos funcionários, pode-se aumentar os salários,logo, a produtividade tende a aumentar - mesmo porque contam agora com equipamentos. Com planejamento adequado da produção, os prazos são reduzidos junto com as despesas indiretas. Conseqüentemente, os ganhos com vendas e locação vêm antes. Assim, mesmo que algumas etapas, agora industrializadas, sejam mais caras, o custo global é menor. Essa é a argumentação de Oggi em entrevista concedida à Téchne.Acompanhe.
O que é uma construção industrializada?
Aquela em que, com projeto e planejamento, chega-se a um canteiro com elementos dependendo de simples montagem. A comparação é com a indústria automobilística, que mantém em seu poder apenas a linha de montagem, que seria nosso canteiro de obras. Por questão de logística, a indústria automobilística tem seus fornecedores próximos.
Como ocorre a aplicação desse conceito na construção, sendo que cada linha de montagem fica em um lugar?
Com parceiros fabricantes de portas, de estruturas de concreto e de instalações que industrializem parte do serviço e venham ao canteiro fazer a montagem. Na construção civil isso não acontece e todo mundo vem fazer artesanato no canteiro. Há um volume muito grande de gente, e é muito difícil tomar conta desse povo todo. Acabo não fazendo montagem, mas construindo tudo ali, pecinha por pecinha.
Por que a construção se configurou dessa maneira?
Nas décadas de 1960 e 1970, o BNH (Banco Nacional da Habitação) estimulava a utilização de mão-de-obra para liberação de financiamento, pois não éramos industrializados, os setores de serviços e de agricultura não eram desenvolvidos e a maioria da mão-de-obra estava disponível para a construção civil. Com o fechamento das fronteiras para importação e excesso de operários, desenvolvemos a melhor maneira de juntar os dois quanto a custo e desempenho. Após 40 anos, não dá mais para aperfeiçoar dentro desse modelo, com um monte de gente e material chegando picadinho.
"Na industrialização, saímos da visão fracionada para a visão sistêmica, que pensa no resultado final do empreendimento e objetiva um valor de investimento menor do que o previsto"
Por que estamos pensando em industrialização agora?
A estabilização econômica gerou inclusão social e estímulo à aquisição de bens duráveis, como carros, celulares e, agora, imóveis. A construção é o único setor em que o operário não compra o que produz. O déficit habitacional está se transformando em demanda. Mas, como atender à demanda se, a cada ano, o volume de mãode- obra para a construção civil diminui? Falta de tudo no mercado, desde servente até engenheiro sênior. E, com esse pouco de recurso humano, tem que fazer muito mais do que antes.
Esse cenário estimula a industrialização?
A MRV afirmou que fará,em 2009,tudo o que fez em 28 anos. São 40 mil unidades. Mesmo que trabalhe 24 horas por dia, não dá para cumprir essa promessa sem industrialização.Dinheiro não falta, mas é difícil pensar em recursos humanos e tecnológicos de uma hora para outra.Ou importamos tecnologia de especialistas que determinem as fórmulas para a evolução, ou vamos ter que buscar por conta própria.
Essa postura é melhor do que adaptar algo importado?
A importação de tecnologia tem a grande vantagem de ganhar o tempo que outros perderam para chegar à solução. É ignorância tentar inventar a roda, esquecer que já existe.Vai lá fora, paga e, quando voltar, recupera. O brasileiro não entende isso porque não viaja, não conhece as feiras lá fora, porque ficamos fechados por 40 anos. Só agora temos duas feiras importantes de equipamentos, a Concrete Show (veja programação nesta edição) e o M&T Expo. Se incrementadas, serão as portas de entrada das tecnologias, porque o pessoal de fora está de olho.
Onde se concentram os ganhos com a industrialização?
Industrialização significa racionalização, fim do desperdício. O primeiro ganho está aí. Se a peça industrializada custa mais, os fatores de racionalização, de redução de desperdício e de prazo representam ganhos muito superiores. Na visão sistêmica do empreendimento, o custo é menor, mas, normalmente, temos uma visão fracionada da obra. Ou seja, contrata-se e verifica-se tudo em separado, elementos que depois têm que ser juntados.
Como assim?
Pensa-se apenas no preço e compra-se a porca de um fabricante e parafuso de outro. Quando aperta, tem diferença na rosca. Parafuso e porca chegaram mais baratos à obra, mas não funcionam. É o que acontece hoje.Na industrialização, saímos da visão fracionada para a visão sistêmica, que pensa no resultado final do empreendimento e objetiva um desembolso menor do que o previsto.Mesmo que algumas das etapas intermediárias saiam mais caras, o que importa é o resultado final.
Ou seja, pensar no produto final?
No processo completo, não picado. São 12, 15 escritórios de projeto envolvidos, e juntá-los numa reunião de compatibilização é difícil, porque demora demais e o projetista da fundação não quer saber do da telefonia.No exterior, esse processo é mais concentrado e o arquiteto, dono do projeto, cuida de tudo e entrega um pacote pronto.Aqui a gente projeta durante a execução da obra.
Por que é difícil antecipar os projetos?
Porque significa colocar dinheiro antes. O construtor não planeja uma obra que vai fazer daqui a cinco anos. E o setor da industrialização anda à medida que o da construção se mexe, não na frente, propondo prazos menores. Nenhuma empresa de pré-fabricado, no Brasil, tem expertise para fazer prédios em três ou quatro meses, desde a fundação até a chave. Estamos numa fase de muitas transformações.
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