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Futuro planejado


Cursos, experiências internacionais, habilidade em lidar com pessoas. Veja as qualificações e habilidades que podem alavancar sua carreira


Por Flávia Siqueira


Fotos: Marcelo Scandaroli
As carreiras antes em "I" retiravam dos canteiros de obra profissionais experientes para atender a demanda administrativa. Para o profissional, isso significava promoção e aumento de salário. Hoje, a área técnica é tão bem remunerada quanto a administrativa

Não existe uma receita para tornar um engenheiro civil bem-sucedido na carreira. Como mostram especialistas e profissionais ouvidos pela Téchne, o "sucesso" depende muito do autoconhecimento, das oportunidades que surgem ao longo do tempo e, claro, das escolhas feitas pelo profissional. "É uma tarefa que não se pode delegar a outra pessoa ou à construtora em que se trabalha", afirma a consultora Irene Azevedo, que trabalha com transição de carreiras na DBM Brasil, empresa especializada em gestão de capital humano, e dá aulas na Brazilian Business School. "Cabe ao profissional escolher os caminhos que ele quer trilhar."

Irene sugere àqueles que pretendem "gerenciar" sua carreira começar inventariando suas próprias características. O estudante ou engenheiro civil deve identificar as coisas que lhe dão satisfação ou insatisfação e as funções que condizem com seu estilo pessoal. "Tente se visualizar no futuro, cerca de cinco anos à frente", recomenda. Manter registros sobre a própria trajetória profissional pode ajudar nessa reflexão: quais foram os cargos ocupados, as funções exercidas, o que motivou uma possível troca de área ou de emprego, quais foram os momentos de frustração. Esse olhar sobre o próprio passado auxilia na identificação de erros, acertos e pontos a melhorar. Com essa auto-análise, fica mais fácil definir ambições e projetos.

Setor imobiliário aquecido gerou grande demanda por projetistas estruturais. Construtoras se queixam de ter que recorrer sempre aos mesmos especialistas, por falta de bons profissionais no segmento
Além disso, deve-se tomar cuidado para que o plano de carreira não fique enrijecido. Como orienta Irene, é importante ter um "plano B". "Ninguém tem um único interesse", diz. Segundo ela, o profissional que quiser mudar de área pode buscar uma recolocação na própria empresa em que trabalha. "A mobilidade é possível. O profissional contratado vem, num primeiro momento, para a vaga à qual ele concorreu. Mas esse é só o primeiro passo", afirma Edna Simões, consultora de Recursos Humanos da Método Engenharia. 

Graduação e pós-graduação
Os momentos mais propícios a experimentações e mudanças são a graduação - em programas de estágio e trainee - e os primeiros anos de atuação na área. A professora Mércia Maria Bottura de Barros, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, sugere que o recém-formado dedique-se a trabalhar durante alguns anos antes de partir para uma especialização ou um MBA, exceto se ele for um pesquisador nato e quiser se dedicar à pesquisa fazendo um mestrado. "De modo geral, os cursos de Engenharia Civil são extremamente amplos. O aluno sai com uma visão do todo e não como um especialista", explica. "Se o profissional acabou de sair da faculdade, o melhor é ele ingressar no mercado de trabalho, procurando um posicionamento na área com a qual ele tem mais afinidade. Ao entrar em uma boa empresa, poderá obter no próprio trabalho o conhecimento para seu desenvolvimento inicial. Por um bom tempo, ele terá muitos ganhos, pois vai absorvendo o conhecimento consolidado na empresa. Mas ele não deverá ficar satisfeito com isso. Será necessário buscar sempre novos conhecimentos, pois esses são dinâmicos, evoluem continuamente."

Mestrado Profissional em Habitação do IPT: reconhecido pelo MEC, curso promove pesquisas aplicadas, capacita e atualiza tecnologicamente engenheiros com perfil técnico
O engenheiro civil Fernando Câmara, gerente de engenharia da Rossi Residencial, diz que uma carreira sem cursos complementares é estagnada. "Um profissional sem pós ou que não se atualiza será, provavelmente, sempre preterido em relação a outro, no caso de uma contratação ou de uma promoção." Mércia destaca, como causa disso, a velocidade com que o conhecimento evolui hoje: "Antigamente, o aluno podia terminar a graduação e trabalhar por dez ou 15 anos sem que muita coisa mudasse ao longo desse tempo. Hoje, ele tem duas opções: ou o seu trabalho lhe oferece a oportunidade de se desenvolver e se atualizar, ou ele precisa voltar à escola para conseguir acompanhar essas alterações". 

A pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) é voltada para a formação de pesquisadores. Embora possa ser útil em alguns casos, a experiência no mercado não é um requisito para ingressar nesses programas. "O aluno de mestrado ou doutorado é instigado a ir em busca do conhecimento consolidado e a dar um passo à frente, contribuindo para o seu desenvolvimento", explica Mércia. De um modo geral, as empresas brasileiras na área de Engenharia Civil ainda não valorizam mestres e doutores como fazem as empresas estrangeiras. Aqui, esses profissionais são aproveitados principalmente por instituições de ensino. Mas a professora enxerga uma tendência de mudança, ainda que lenta. "Em algumas empresas, isso começa a fazer diferença no momento da contratação", diz. A indústria de materiais e componentes e as empresas construtoras que têm áreas de desenvolvimento tecnológico são as que mais valorizam e contratam esses profissionais. 

Divulgação
Construtora de Dubai, nos Emirados Árabes, procura profissionais brasileiros para atuar em 18 posições. Inglês fluente e conhecimentos em construção rápida são indispensáveis
Requisitos

Embora faça sentido pensar em uma divisão entre carreiras técnicas e carreiras executivas na Engenharia Civil, existem algumas habilidades gerenciais que são necessárias a todos os profissionais da área. A principal delas: trabalhar em equipe. "Para a obra, é preciso ter conhecimento técnico, mas também é necessário saber um pouco de administração. Ela é como uma 'empresinha'. É preciso gostar de pessoas e saber lidar com elas", diz Fernando Câmara. De acordo com Mércia, essa habilidade de se relacionar tem sido valorizada cada vez mais pelas empresas. Com isso, profissionais que têm dificuldade de lidar com pessoas, ainda que com boa capacidade técnica, enfrentam problemas para crescer no mercado de trabalho. Nesse contexto, os trabalhos sociais voluntários podem ser "uma importante fonte de aprendizado", segundo a professora. "Eles permitem olhar as necessidades do outro e, com o auxílio do conhecimento do grupo envolvido, ir em busca da solução. Isso é desenvolver trabalho em equipe." 

Inglês e experiências internacionais também têm feito diferença na hora da contratação. "Hoje, na graduação, o pessoal que sai para intercâmbio é muito valorizado", afirma Mércia. "Isso denota pró-atividade. Só sai para intercâmbio quem procura."

A língua inglesa tem sido fundamental nas seleções de engenheiros para atuar em obras no exterior. A consultora Sheila Papautsky, da MRINetwork Brasil, está trabalhando na seleção de profissionais brasileiros para uma construtora em Dubai. Segundo ela, ter inglês fluente é um critério decisivo na pré-seleção dos currículos enviados. Aos engenheiros interessados em buscar uma experiência profissional no exterior, Sheila recomenda a constante atualização sobre as tendências da construção. "Atualmente, está pesando muito o critério da velocidade na construção, com o uso de tecnologias como os pré-fabricados", diz. Outras recomendações: ter conhecimento de software de gestão de projetos, focar a experiência em empresas de renome e procurar vagas que sejam compatíveis com a linha de atuação do profissional.

Para quem já possui uma carreira estabelecida no País, diz Irene Azevedo, a opção de deixar o emprego para uma experiência provisória no exterior deve ser analisada com cuidado. "É preciso avaliar o quanto isso agrega valor à carreira. A volta também deve ser levada em consideração. Será que é possível voltar para a mesma empresa, para o mesmo cargo?"

Divulgação: Sinduscon-SP
Realizado em parceria pela FGV-SP e SindusCon-SP, MBA Executivo da Construção Civil aborda áreas de economia, administração e finanças necessárias para gerenciar uma empresa do segmento. Na foto, cerimônia de formatura realizada no último mês de junho
Salário e troca de emprego

Fernando Câmara, da Rossi, e Alexandre Melão, sócio-diretor da incorporadora Ecoesfera, confirmam que os salários de cargos executivos ainda são mais altos do que os da área técnica, embora isso esteja mudando. A Método Engenharia, por exemplo, tem buscado reduzir a diferença entre os salários das duas áreas, segundo Edna Simões. "Por um tempo, nossos programas de estágio e trainee acabaram focando a área gerencial." "Dessa forma, acabávamos perdendo potenciais técnicos. Estamos mudando essa prática", afirma a consultora. O engenheiro civil Fabio Villas Bôas, diretor técnico da Tecnisa, diz que, por um bom tempo, "a área técnica foi o 'patinho feio' da Engenharia Civil". Hoje, segundo ele, não é mais assim: o engenheiro civil da área técnica está sendo muito procurado e pode ganhar salários altos. 

Segundo pesquisa feita em maio de 2008 pela Mercer, empresa de consultoria em recursos humanos, um engenheiro júnior recebe no Brasil, em média, R$ 4.596,00 mensais; um engenheiro pleno, R$ 5.979,00; um engenheiro sênior, R$ 7.634,00. A remuneração dos engenheiros tem crescido mais do que a de profissionais de outras áreas, informa a consultora da área de Capital Humano Ana Paula Henriques, da Mercer. Isso se deve à maior busca por profissionais especializados, que passam a ser disputados pelas organizações. Hoje, diz Ana Paula, é muito comum um engenheiro civil permanecer apenas um ou dois anos em uma empresa. 

Para a consultora Irene Azevedo, a troca de emprego vale a pena quando as possibilidades de aprendizagem e de carreira se esgotam na empresa. Aos mais jovens na profissão, Fernando Câmara recomenda paciência: nada de achar que se aprendeu tudo em dois ou três meses. "Aí, você não pára em lugar nenhum e corre o risco de estragar sua carreira", alerta o engenheiro.

Sofia Mattos
Em abril de 2004, a Téchne acompanhou um dia do então engenheiro de obras da Matec, Jefferson Tagliapietra. De lá para cá, o mercado da construção passou por algumas mudanças, mas uma mesma habilidade se mantém em alta: capacidade para gerir pessoas e delegar tarefas

Tendências da área técnica
Marcelo Scandaroli
Fernando Câmara, gerente de engenharia da Rossi Residencial
Fernando Câmara, 41, gerente de engenharia da Rossi Residencial, concluiu o curso de Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1992. Sua primeira experiência profissional aconteceu na Kallas Engenharia, onde começou como estagiário e passou a engenheiro de obra. Em 1995, Câmara começou a trabalhar na Setin Empreendimentos Imobiliários, onde permaneceu por 13 anos. Entrou como engenheiro residente, tornou-se coordenador e, por fim, gerente de engenharia. Sua ida para a Rossi aconteceu em dezembro de 2007.

Ele considera positiva a experiência de ter passado por empresas menores antes de chegar à Rossi. "Nas empresas médias e pequenas, você acaba fazendo um pouco de tudo. O aprendizado pode ser muito grande", diz. "Nas grandes organizações, o trabalho é mais segmentado, e é preciso desenvolver algumas competências diferentes. Você trabalha em contato com várias outras áreas, como marketing e vendas." Ele nunca trabalhou com a área de negócios e incorporação, mas diz que considera esse segmento como uma possibilidade futura em sua carreira.

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