Pode-se dizer que a carreira de engenheiro geotécnico existe há mais de 80 anos. O marco inicial de sua história se deu em 1925, com a publicação do trabalho Erdbaumechanik, que lançou as bases do conhecimento em Mecânica dos Solos. O livro foi escrito pelo austríaco Karl von Terzaghi, considerado o pai da Engenharia Geotécnica.
"Ao longo do tempo, essa área do conhecimento cresceu, absorvendo a Mecânica das Rochas e a Geologia aplicada à Engenharia", afirma Alberto Sayão, professor da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e membro da ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica). De acordo com Sayão, o campo de atuação do engenheiro geotécnico vem se ampliando. Uma das áreas de destaque, exemplifica, é a ambiental, com atribuições de investigação do nível de contaminação de solos e elaboração de projetos de tratamento dos terrenos - trabalho importante em tempos de expansão das fronteiras imobiliárias na direção de antigas regiões industriais de grandes centros urbanos. Além da Construção Civil, o setor petrolífero do País tende a ser um pólo de atração de engenheiros geotécnicos, dada a expansão das atividades de exploração de óleo na costa nacional.
No segmento imobiliário clássico, os serviços desse profissional são solicitados principalmente nas etapas iniciais da obra. É ele quem coordenará as atividades de investigação do solo, terraplanagem, escavações, contenções, projeto e execução de fundações, entre outros.
Nas sondagens dos terrenos, o engenheiro geotécnico é responsável por identificar as camadas de solo da região, determinar suas propriedades mecânicas e geotécnicas - como a resistência e a deformabilidade -, realizar a análise qualitativa dessas informações, estudar a hidrologia subterrânea e estabelecer as camadas seguras para apoio das fundações, entre outras atribuições. É sua responsabilidade, também, realizar estimativas de deformações ou rupturas devido a escavações de terra ou aterro em obras de terraplanagem.
O cálculo das fundações e contenções de uma construção, área onde solo e estrutura estão em permanente interação, também deve ficar sob responsabilidade de um engenheiro geotécnico. Ele estará à frente do planejamento e execução das escavações e contenções do terreno, acompanhando com atenção as acomodações de solos decorrentes do serviço. Esse profissional escolherá, ainda, o melhor tipo de contenção para cada obra, além de cuidar da estabilização dos solos, no caso de terrenos acidentados.
Nas etapas de produção e execução dos projetos de um edifício, o calculista das fundações manterá, na maior parte do tempo, contato próximo com o arquiteto e, principalmente, com o calculista estrutural da construção. O primeiro traça o desenho geral do edifício, o segundo projeta a estrutura e determina as cargas atuantes nas bases dos pilares - informações necessárias para que o projetista de fundações dimensione a base de apoio do edifício e escolha a melhor tecnologia para sua execução: radier, sapatas, tubulões, estacas pré-moldadas e hélice contínua, entre outros. Eventuais ajustes são tratados com o calculista estrutural, que negocia alterações no desenho com o arquiteto responsável.
E qual o caminho para chegar à Engenharia Geotécnica? Para quem acaba de sair da faculdade, o ideal, segundo os engenheiros entrevistados pela Téchne, é primeiro adquirir certa experiência em canteiro. "É muito difícil um engenheiro começar uma carreira geotécnica sendo um recém-formado", afirma Ivan Joppert Júnior. Ele acredita que, nessa especialidade, a experiência do profissional é muito valorizada pelo mercado. Alberto Sayão concorda com o projetista: "na faculdade, o profissional aprende a calcular e projetar; no canteiro, porém, ele toma contato com as diversas metodologias construtivas, problemas e soluções". "O melhor profissional é aquele que estudou muito e que amassou muito barro, errou bastante e aprendeu com seus erros o limite da sua área de atuação", brinca Joppert.
A realização de cursos de atualização e pós-graduação em geotecnia é indispensável. Para Alberto Sayão, depois de dois anos em canteiro, o engenheiro está apto a partir para um curso de pós-graduação. Na visão do professor, a melhor opção seria o mestrado. "Cursos de Especialização (lato sensu) em Geotecnia são mais raros no País", afirma. "O Mestrado, por sua vez, é um grande treinamento. Com os conhecimentos adquiridos na graduação, o aluno se debruça sobre um problema, resolve-o e enfim o reporta em seu trabalho final." Para Joppert, a participação em congressos e palestras também é importante para agregar ao conhecimento do profissional a experiência prática de outros colegas do ramo.
Essa base teórica e prática irá compor os fundamentos da carreira do engenheiro geotécnico. Por isso, o profissional deve focar sua formação básica em disciplinas como geologia, mecânica dos solos e obras de terra, fundações, estabilidade da construção e estruturas de aço e concreto armado. Com essas ferramentas, será mais fácil lidar com os desafios que surgirão no dia-a-dia. Mas, apesar das dificuldades, para Ivan Joppert Júnior o trabalho é gratificante. "Não existe rotina, todos os dias você aprende e tem que utilizar o seu potencial intelectual e toda a sua experiência e conhecimento para resolver os problemas cotidianos. A sensação de realização é muito grande", conclui.
Currículo
Atribuições: investigação de solos, elaboração de projetos de fundações, contenções e escavações, supervisão de serviços de terraplanagem, perícias técnicas
Formação: graduação em engenharia civil e pós-graduação (especialização ou mestrado) com disciplinas da área geotécnica (mecânica dos solos, estabilidade das construções, estruturas metálicas e de concreto armado)
Experiência: de dois a cinco anos trabalhando em canteiros
Aptidões: afinidade com cálculos estruturais, estabilidade das estruturas, mecânica dos solos, entre outros
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| Ivan Joppert Júnior, projetista de fundações e diretor da Infraestrutura Engenharia |
O profissional
Como foi o início de sua carreira?
Comecei como estagiário numa grande empresa chamada Themag. Na época, tive a felicidade de estagiar na Usina Hidroelétrica de Tucuruí (AM) e fiquei maravilhado com os equipamentos de terraplanagem, pelo túnel escavado em rocha sob as estruturas de concreto, instrumentações da barragem e laboratório de solos. Foi paixão à primeira vista que dura até hoje.
Como é a sua rotina diária?
Normalmente chego muito cedo no escritório para organizar projetos, no meio da manhã visito obras de fundações e contenções e à tarde desenvolvo projetos. À noite sonho com as obras com as quais estou envolvido. Acredito que a maioria dos profissionais desse ramo tem estilo de vida muito parecido com o meu.
Como você se atualiza profissionalmente?
Leio tudo o que é publicado. Nesse aspecto, parabenizo a Téchne que, por vezes, me proporcionou novos conhecimentos por meio de suas publicações técnicas.
Quantas horas, em média, trabalha por dia?
Eu não trabalho, eu me divirto exercendo a minha profissão em média 12 horas por dia de segunda a sexta-feira e quatro horas no sábado.
Quais as maiores dificuldades enfrentadas no dia-a-dia?
Atualmente, os prazos apertados e o conseqüente desgaste que geram nos relacionamentos profissionais.
Do que você mais gosta em sua profissão?
O que mais me atrai é a falta de padronização das obras, pois o solo é heterogêneo, cada obra tem a sua solução particular, o que exige criatividade constante para solucioná-las.