Por que no Brasil não temos muitas obras que empregam estruturas metálicas? Falta de cultura ou de sistema tecnológico compatível?
A linguagem do concreto no Brasil foi inventada por gente como Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, entre outros. São grandes criadores com o concreto. Qual é a estética brasileira do aço? Não existe. A estética brasileira do aço está para nascer porque o que nós ainda fazemos é a repetição de modelos importados versados para tecnologia tupiniquim.
E a solução para isso?
O que deveríamos fazer aqui é entender nosso clima, nossa gente, nossos valores estéticos e culturais e colocar isso em construção metálica. Como o brasileiro faria uma arquitetura com aço? São os grandes vãos? O retorno das varandas? A varanda é nosso lugar mais brasileiro, tropical e democrático. É o momento de pensar as várias ideias, e as várias correntes que estão aí sufocadas virem e aparecerem com suas propostas. Não é o momento de repetir os erros do passado.
Poderia citar arquitetos brasileiros que usam o aço com propriedade, fora o senhor e os arquitetos Siegbert Zanettini e João Walter Toscano, entre outros?
Eu não tenho dúvidas que existam vários arquitetos que lutam com as mesmas dificuldades que eu luto, mas não é uma questão de um indivíduo, é uma questão muito mais ampla, de cultura mesmo, é uma questão da sociedade que não pensa em arquitetura como solucionadora de problemas. Eu não sei se a arquitetura foi em algum momento colocada na história para fazer "boniteza" em vez de beleza, como algo supérfluo. No entanto, arquitetura é fundamental para que o homem viva em paz com o seu planeta, porque ela promete gentilezas e harmonias. Existem arquitetos jovens em Minas que fazem esse trabalho, mas como esses arquitetos ainda não têm um apoio substancial - a indústria do concreto dá esse apoio - existem muitos equívocos de fundamentos no uso das estruturas metálicas.
Que equívocos são esses?
São questões da linguagem arquitetônica. O aço não é para fazer um detalhe agressivo, ou de impacto, em um canto da esquadria, ou exibir uma cobertura de um grande vão. Quando uma obra é de aço, ela nasce de aço, ela não é alternativa ao concreto. A partir do primeiro croqui ela nasce de aço. O aço tem características próprias, ele trabalha melhor à tração, é mais esbelto, mas não me atrai essa arquitetura cheia de diagonais que à primeira vista o aço obriga a fazer. Todo mundo que eu conheço, no senso comum, faz estrutura metálica como uma coisa toda irrequieta, cheia de diagonais.
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| Escola Guinard: bom exemplo de aplicação do aço na cultura brasileira, privilegiando espaços abertos e varandas |
Quem consegue ser diferente hoje?
O Renzo Piano e o Richard Rogers conseguem, hoje, dentro do senso comum do lugar, fazer coisas extremamente livres.
Os arquitetos brasileiros não têm essa liberdade?
Não.
Por quê?
Porque a própria indústria não banca essa liberdade. Não banca esse jogo com a forma e com a matéria para nossa realidade. É preciso "bancar" essa liberdade que os arquitetos têm lá fora.
E o que é bancar a liberdade?
Eu acho que é evolução tecnológica, é dar suporte e acreditar que a coisa é para valer, séria, das escolas à arquitetura, da arquitetura à obra.
Existem tantas associações, indústrias, grupos especializados de estudo do aço, por que tantas dificuldades?
Existem incentivos ao uso do aço, mas não aparecem, são parciais, muito centrados, muito focados em poucas pessoas e oportunidades, não geram massa crítica para haver uma grande mudança, são ensaios. Vemos o uso do aço em construções dentro de padrões absolutamente previsíveis.
O senhor acha que o país perde em visibilidade no mercado internacional por não usar o aço?
Eu acho que perde. Nós temos uma visão de aço para países de frio rigoroso. Não se vê uma solução em aço para situações bioclimáticas tropicais onde a sustentabilidade entra como questão. Podemos pensar em coleta de água de chuva, em grandes superfícies e sombreamentos, na integração interior-exterior - é um mundo de provocações típicas dos espaços de país tropical que podem evitar o uso intenso de ar-condicionado.
É possível baratear os custos do aço para viabilizar seu emprego massivo como sistema principal da construção?
Eu não sei falar de preços, sou meio gago para números. Eu gostaria de imaginar um grande encontro de sensibilidades, de inteligências e de abordagens da construção, de objeto de arte e cultura até objeto tecnológico. Se fizéssemos isso, sem privilegiar nenhum aspecto, colocando todos eles no mesmo debate e trabalhando de uma forma sinérgica, parceira, amiga e fraterna, eu acredito que nós poderíamos fazer no Brasil uma grande transformação nesse sistema de construção, porque vejo que muitas vezes o emprego do aço é feito de maneira vulgar e banal, de uma forma perdulária. Eu preferia que não se suprimisse nenhuma das questões, para não levar a dogmas no uso.
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