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Eficiência Energética


Apesar das iniciativas do governo para minimizar o consumo energético em edificações, o Brasil ainda tropeça na adequação de projetos mais eficientes


Por Eliane Quinalia


Marcelo Scandaroli
Preocupação entre os países de Primeiro Mundo, a energia, bem como o melhor aproveitamento dos recursos naturais, também tem sido alvo de atenção entre os brasileiros, especialmente após a crise energética de 2001, que surpreendeu a população com o memorável blecaute. Foi a partir desse evento, que o governo brasileiro se viu obrigado a tomar medidas eficientes visando à expansão da capacidade energética e sua adequada limitação, nos casos em que a população precisava ser conscientizada sobre a melhor maneira de empregar tal recurso em residências.

Entretanto, engana-se quem pensa que apenas essas ações permearam o cenário de energia nacional. O famoso "apagão" trouxe à tona uma outra vertente - a da melhoria dos níveis de eficiência energética em eletrodomésticos e eletroeletrônicos, que não demoraram a influenciar também o panorama da construção civil, com o uso de sistemas construtivos que priorizassem a redução do consumo de energia. Nada mais justo, afinal, a construção e o uso dos edifícios são um dos maiores consumidores de recursos naturais no ambiente, consumindo cerca de 16,6% do fornecimento mundial de água pura, 25% de madeira e 40% de combustíveis fósseis e materiais manufaturados (Wines, 2000). Isso sem mencionar a emissão de CO2 na atmosfera, na qual a indústria cimenteira também tem grande participação.

O consumo de energia elétrica no mundo, especialmente nos países mais desenvolvidos, tem crescido com o passar dos anos. No Brasil, por exemplo, as edificações consomem anualmente 44% do total de energia elétrica do País, sendo 22% destinados ao setor residencial, 14% comercial e 8% para o público, conforme apontam os dados divulgados pelo LabEEE (Laboratório de Eficiência Energética em Edificações) da Universidade Federal de Santa Catarina. (Veja o quadro Evolução do consumo de energia elétrica por habitante no mundo).

Como estratégia para combater tal desperdício, o governo tem aprimorado leis, investido em programas de eficiência energética e recentemente desenvolveu o selo de eficiência em parceria com o Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica), destinado a aparelhos e equipamentos energeticamente eficientes - etiqueta Inmetro (A-E). O que poucos imaginam é que esse selo também será empregado na construção civil em edifícios comerciais, de serviços e públicos, que passarão a receber etiquetas conforme o desempenho energético de cada construção. "Nosso marco legal é a lei 10.295/01 e o decreto que a regulamenta, 4.059/01. Ambos dispõem sobre a política nacional de conservação e uso racional de energia, atribuindo ao poder executivo a prerrogativa de estabelecer níveis máximos de consumo ou mínimos de eficiência para máquinas e aparelhos consumidores de energia, que permitiu determinar critérios para a etiquetagem de edificações", diz Paulo Augusto Leonelli, gerente do departamento de desenvolvimento energético do Ministério de Minas e Energia.

O Procel Edifica, como é chamado o programa, a partir deste ano deverá etiquetar os edifícios, concluídos ou em reforma e retrofit, atribuindo conceitos que vão de A a E conforme o consumo de eletricidade. A regra é simples: estarão enquadrados nesse programa os edifícios com área total útil mínima de 500 m2 e que apresentem tensão de abastecimento superior ou igual a 2,3 kV. O objetivo será avaliar a eficiência e potência instalada do sistema de iluminação, no sistema de condicionamento do ar e no desempenho térmico da envoltória (análise da cobertura, áreas de vidro, janelas, aberturas e vãos) do edifício. Com essas ações o governo espera atingir uma economia de 50% em novas construções e 30% no retrofit.

Iniciativas x impasses
Apesar do empenho do governo para incentivar projetos bioclimáticos com uso de energias renováveis nas construções, o Brasil ainda engatinha em termos de eficiência energética, principalmente se comparado aos demais países de primeiro mundo que investem pesado no desenvolvimento de tecnologias para a sustentabilidade e melhor aproveitamento energético.

De acordo com o engenheiro civil Roberto Lamberts, também coordenador do LabEEE (Laboratório de Eficiência Energética em Edificações), da Universidade Federal de Santa Catarina, o Brasil deveria caminhar de forma mais rápida nesse sentido, especialmente devido às alterações climáticas que afetam o mundo, em termos de aquecimento global. "As ações do governo ainda são modestas. É preciso evoluir muito em termos de medição da eficiência. A sociedade precisa se conscientizar e pressionar o governo para desenvolver níveis mais altos", explica. O engenheiro se baseia nos últimos fatos da administração de Barack Obama, no governo norte-americano, o qual destinou US$ 16,8 bilhões para o desenvolvimento de ações em eficiência energética e energia renovável, dos US$ 43 bilhões destinados à energia do país. "Os EUA têm investido, mas aqui ainda falta muito em termos de divulgação. As pessoas desconhecem o que é o programa de etiqueta. Todos deveriam saber."

A exigência de níveis de eficiência mais altos se deve particularmente à questão dos sistemas de condicionamento de ar em edificações. Os modelos etiquetados pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) e Procel destinados à janela ou mesmo split, têm sido mais procurado por consumidores, especialmente na região Norte do País. Para se ter uma ideia, de acordo com a última pesquisa do Procel, o uso desse aparelho na região já representa 40% do consumo de energia elétrica, ou seja, mais até que o famoso vilão, o chuveiro, em outras regiões. (Veja o quadro Avaliação do mercado de eficiência energética no Brasil: Pesquisa na classe residencial). "Falta uma política pública mais agressiva do Ministério de Minas e Energia em elevar os níveis mínimos (E) de eficiência desse equipamento. Apenas assim teremos máquinas mais econômicas. Aqui no Brasil esse valor ainda é de 2.2. Ou seja, compra-se o equipamento por um preço baixo, mas o quanto se vai pagar de conta de luz é outra história", diz Lamberts.

O aumento do uso de ar-condicionado nessa região, e até no Brasil, pode ser facilmente explicado por um problema térmico das fachadas. Hoje, muitas construções ainda são entregues sem proteção externa, ou seja, venezianas e brises. Com isso, as salas ou aposentos recebem não apenas a luz solar, mas armazenam energia em forma de calor, fato que resulta na compra de aparelhos de ar para amenizar a sensação térmica de "estufa" deixada no ambiente. "Infelizmente, a maioria de nossas fachadas não são inteligentes. Elas deveriam ser projetadas para controlar os ganhos solares e bloquear o ganho excessivo de energia no verão. Nossas fachadas são inteiras de vidros transparentes. Falta ainda muito sombreamento", diz Lamberts.

Outro ponto que chama a atenção são os sistemas ou fontes alternativas de energia, que englobam especialmente os aquecedores solares de água. Recentemente o Brasil tem abraçado essa ideia como a solução de todos os problemas energéticos, o que não é verdade. Apesar da solução ser eficaz e proporcionar reduções energéticas notáveis, o mercado ainda sofre com problemas de instalação. Afinal, se o coletor for mal posicionado e a resistência elétrica no reservatório não for regulada - e isso traz custos - os resultados são ineficazes. Além disso, é recente, porém notável, a ação de algumas empresas em instalar tais sistemas para a baixa renda. A CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e a CPFL Energia (Companhia Paulista de Força e Luz), por exemplo, deverão instalar sistema de aquecimento solar para água do chuveiro em seis mil moradias, em 300 municípios de São Paulo, até 2010. "A baixa renda deve ser privilegiada com tal sistema, especialmente se o mercado desenvolver coletores mais econômicos, como de plástico, por exemplo. Apenas seria necessário, nesse caso, complementar a instalação com um chuveiro elétrico", diz Lamberts. Nesse sentido, a classe média também pode ser beneficiada com aquecedores a gás, desde que o País se empenhe mais na qualificação de seus profissionais, já que a maior parte dos problemas desse setor se deve à má instalação de equipamentos.

Ferramentas auxiliares
Para auxiliar a concepção de edifícios mais eficientes, alguns softwares simuladores têm sido lançados no mercado, principalmente porque de acordo com as exigências do Procel Edifica, as novas construções deverão ter seu consumo de energia avaliado por um simulador validado pela Ashrae Standard 140, capaz de modelar variações horárias de ocupação, potência de iluminação e equipamentos e sistemas de ar-condicionado, definidos separadamente para cada dia da semana e feriados. No site do Procel Info, por exemplo, diversos programas gratuitos podem ser utilizados para tal aplicação, basta que o usuário esteja cadastrado no site. "O uso de softwares como o Energyplus, que permite a simulação horária do consumo de energia de um edifício para um ano inteiro, já é corriqueiro nos grandes empreendimentos executados em São Paulo", conta Leonelli. A ideia, é que o método de simulação compare o desempenho da edificação proposta com uma similar, cujas características estejam de acordo com os níveis de eficiência exigidos em projeto.

Vale ressaltar ainda, que segundo especialistas, a maioria dos investimentos em eficiência energética são retornáveis em menos de três anos, além de serem ambientalmente sustentáveis.

 

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