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Giorgio Vanossi


Diretor técnico da Construtora Living acredita que só um modelo racionalizado e pré-engenheirado pode viabilizar construções econômicas


Por Simone Sayegh


A Cyrela uniu-se a parceiros e incorporadores e nasceu a construtora Living, da qual o senhor é diretor técnico. De que forma a Living pretende entrar nesse mercado de habitação econômica e garantir a qualidade e produtividade que o senhor apregoa?

O grande desafio para nós começou há um ano, com estudos e produção de um protótipo em laboratório, que só vai ser validado com a produção de outro em campo. É um trabalho de parceria, de conscientização, de cultura, dependemos de nossos parceiros e de trabalharmos dentro dos mesmos conceitos. Podemos colocar tudo a perder se no canteiro não implantarmos sistemas padronizados de montagem. E a palavra-chave nisso tudo é o treinamento da mão-de-obra. Todos buscam isso porque agora temos a oportunidade, a renda e o agente financeiro. Mas temos que perpetuar essa linha de imóvel econômico para atender essa faixa, senão vira uma especulação que vai acabar.

Na prática, como será esse projeto da Living?

Estamos trabalhando em cima de uma plataforma digital, com softwares que, além de modelar o projeto em 3D, nos dão a possibilidade de controlar todos os componentes da construção em termos de quantidade, metragem, tamanho, com resultados exatos [trata-se do Building Information Modeling ou BIM]. Dessa maneira, evitam-se enormes perdas na construção. Ninguém sabe quanto se gasta exatamente de cimento, de luz, de água em uma obra. São estimativas que incluem as perdas e o desperdício. A modularidade permite controle e adequação total. Podemos mudar todos os revestimentos e calcularmos o orçamento, para comparações. Onde perdemos? Na execução, que é nosso grande desafio. Estamos tentando entender como funciona uma indústria para resolver nosso caso. Por isso criamos esse laboratório de ensaios, por isso nossa ideia de, até o fim do ano, estar com o protótipo em terra.

Para empreendimentos que se repetem, há uma vantagem e uma desvantagem: você desenvolve uma solução única para milhares de construções, mas também pode repetir o erro milhares de vezes. Como se faz a gestão da qualidade desse tipo de obra?

Temos que ter uma pré-engenharia detalhada. Fazer da execução seu laboratório é erro na certa. Deve-se desenvolver parcerias, sistemas de produção, escolher a tecnologia, testar tudo isso em um laboratório, treinar a mão-de-obra para minimizar erros, de maneira a se criar uma equipe especializada e constante, sem empreitadas.

Se nesse tipo de empreendimento a montagem em canteiro dita o sucesso do projeto, como controlar gastos e possíveis erros na hora da produção?

Nesse tipo de empreendimento deve-se eliminar totalmente a imprevisibilidade. Os cronogramas devem ser por hora, não a cada semana ou mês. Imagine se o engenheiro da Volkswagen perceber que a produção não andou só depois de um mês? Quebra a empresa. Avaliar a cada semana ou mês não é linha de produção e sim de avacalhação. E devemos acabar com as diferenças de produção entre os operários. Todos devem apresentar a mesma produtividade, evitando-se soluções particulares. O engenheiro deve somente supervisionar a produção, e não apagar incêndios. Nas obras artesanais o material corresponde a 60% do custo enquanto que a mão-de-obra representa 40%. Em uma obra planejada, padronizada e sistematizada, montada no canteiro, o material irá corresponder a mais que 80% do custo, enquanto que a mão-de- obra não chegará a 20%. Mais produtividade e menos desperdício.

É vantajoso, em alguns casos, desenvolver linhas de produção em canteiro, como, por exemplo, de coberturas ou elementos pré-fabricados?

A primeira coisa é analisar o tamanho do empreendimento. Não sou muito amigo dessa ideia, mas, no futuro, para grandes produções e montagens, ela poderá ser necessária, mas com uma ressalva: quem gerencia a fábrica de peças não pode estar envolvido na montagem e vice-versa. O engenheiro já vai enfrentar dificuldades em montar o produto, imagina pensar no gerenciamento da fábrica do componente do produto. É muita coisa. O profissional tem que entender de indústria de pré-moldados, dos prazos do pré-moldado, do concreto, fôrmas etc. E o negócio do engenheiro é montar edifícios, não é fazer pré-moldado. Por acaso as linhas de montagem de grandes indústrias fazem alguma coisa no espaço de montagem? Não fazem nada, somente montam. Mas é claro que para isso devemos pensar em estoque pulmão, o mínimo para andar a obra.

Que países considera modelo no desenvolvimento de soluções de baixa renda?

Os Estados Unidos, mas não por causa da tecnologia em si, mas pela total padronização. O Brasil é o único País do mundo que não tem padronizações. Não tem modularidade na construção, cada fornecedor faz o que quer e não conversam entre si. Os americanos não têm preconceito, as portas são iguais, as janelas são iguais, todo mundo tem a mesma bay-window, pode-se comprar tudo por catálogo. A globalização é isso, e no mundo todo: como seria possível um projeto italiano ser construído por uma empresa francesa com tecnologia alemã? Padronização. Esse é o verdadeiro processo construtivo econômico, que gera toda uma cadeia de atividades relacionadas. Aqui no Brasil os arquitetos ficam detalhando loucamente tudo. Eles gastam cerca de 20% do valor do negócio na criação e perdem 80% detalhando o que não deveriam, "componentes" da construção que deveriam vir de fábrica padronizados. Aqui não tem modularidade, não tem economia, somente perda de tempo. Esse é um grande desafio.

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