Por possuir uma especialização pouco conhecida mesmo no meio técnico, o projetista de pararraios - também conhecido como SPDA (Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas) - acaba enfrentando, de vez em quando, dificuldades na interação com alguns clientes. "Por incrível que pareça, um dos maiores desafios dessa área não é técnico, mas psicológico. É preciso convencer os clientes leigos de que todas aquelas crenças que eles escutavam quando crianças sobre raios e pararraios não têm respaldo científico", afirma o engenheiro Normando Virgílio Borges Alves, projetista da Termotécnica. "Assim, torna-se necessário explicar ao cliente conceitos básicos de proteção para que ele não tenha suas expectativas frustradas logo na primeira chuva e descubra da pior forma que o SPDA não protege equipamentos eletrônicos", exemplifica.
O projetista de SPDA é o especialista responsável pela análise da edificação, sua utilização, os níveis de risco a que está sujeita e, de posse dessas informações, dimensionar todo o sistema de pararraios da construção. A base do trabalho desse profissional é a norma que rege a elaboração desse tipo de projeto, a "NBR 5419 - Proteção de Estruturas contra Descargas Atmosféricas". É no documento que ele encontrará as classificações da edificação segundo o tipo de ocupação, de construção, localização, topografia da região etc.
"Um bom projeto de SPDA deverá conter todas as informações técnicas necessárias para que a empresa instaladora tenha o mínimo possível de dúvidas", explica Alves. O detalhamento inclui plantas baixas que mostram os elementos de captação, descidas, aterramento e equalização de potenciais. O projeto deverá conter também legenda e notas técnicas sucintas para orientar os executores. "Para uma maior compreensão", afirma Alves, "o documento poderá ser acompanhado de um dossiê técnico com mais informações técnicas para facilitar o entendimento e a execução".
O estágio de desenvolvimento da obra determinará, no momento da concepção do projeto de SPDA, o tipo de sistema a ser utilizado - externo ou estrutural, isolado ou não isolado - e o método de dimensionamento mais adequado para a edificação em questão. Para conhecer melhor as características da construção, Alves aconselha ao profissional fazer uma visita técnica ao local para fazer um levantamento de custos e para ter uma ideia próxima da realidade da obra.
Durante a execução, além de toda a logística operacional e de segurança e medicina do trabalho, recomenda-se que o projetista planeje com atenção os locais de passagem dos condutores de modo a evitar problemas futuros, como rompimento involuntário de instalações existentes. A execução das instalações também pode causar alguns transtornos e interferir em outras atividades em andamento no edifício. Por isso, é importante ter uma reunião com o cliente para lhe mostrar os transtornos que podem ocorrer e para negociar espaços e horários.
Segundo Alves, o responsável técnico pelo SPDA dialoga principalmente com o engenheiro responsável pela execução das instalações e, eventualmente, com o arquiteto da obra. Com o primeiro, o objetivo é explicar detalhes do projeto sobre os quais a instaladora porventura tenha dúvidas e dar soluções técnicas para problemas não identificados durante a elaboração do projeto. Com o arquiteto, a conversa normalmente ocorre para que se busquem alternativas de materiais que tragam o menor impacto estético possível à construção.
Normalmente, as empresas não costumam desenvolver unicamente projetos de SPDA. "São poucas as que se dedicam exclusivamente a esse assunto. A grande maioria das empresas projetistas tem o projeto de SPDA como um complemento para agregar valor ao seu pacote de projetos de instalações, seja predial, seja industrial", afirma Alves. A carteira desses escritórios de projeto pode incluir, entre outros, instalações elétricas e de telecomunicações.
Engenheiros elétricos e civis especializados são aptos a desenvolver esse tipo de projeto. Em sua formação, é aconselhável que o profissional, além de estudar e procurar conhecer a NBR 5419, procure a literatura sobre o tema e participe de cursos específicos, palestras e seminários. "No Brasil existem dois eventos internacionais - o Sipda (Simpósio Internacional de Proteção Contra Descargas Atmosféricas) e o Ground - anualmente alternados - e o Enie (Encontro Nacional de Instalações Elétricas)", indica Alves.
A capacitação adequada de um projetista passa pelo estudo de conceitos importantes, como comportamento dos raios, segurança contra acidentes, métodos de dimensionamento, componentes e sistemas de SPDA, cálculo, entre outros. Esses são os tópicos abordados nos principais cursos sobre o tema no País.
Quanto à experiência em canteiro, Alves acredita não ser indispensável ao projetista. No entanto, como faz parte de seu trabalho ir a campo e acompanhar a execução dos sistemas, essa vivência pode ajudá-lo nas decisões operacionais. Normando acredita que o profissional que começa "do zero" demora aproximadamente três anos para adquirir maturidade técnica suficiente para assumir um projeto sozinho, integralmente.
Currículo
Atribuições: desenvolvimento dos projetos básico e executivo dos Sistemas de Proteção contra Descargas Atmosféricas e acompanhar sua instalação
Formação: Engenharia Elétrica e Civil, cursos de especialização e seminários técnicos
Experiência: cerca de três anos em escritórios de projetos de SPDA; vivência de canteiro não é imprescindível, mas pode ajudar na tomada de decisões durante a execução dos serviços
Aptidões: conhecimentos em segurança, elétrica, cálculo e softwares CAD, entre outros
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| Normando Virgílio Borges Alves diretor da empresa Termotécnica |
O profissional
Como foi seu início de carreira?
Comecei como vendedor de pararraios há 25 anos, tendo como professor meu tio Antonio Alberto Morais, que me iniciou e estimulou nessa área.
Como você se atualiza profissionalmente?
Lendo artigos, participando de seminários e ministrando cursos, que também é um meio de aprender ensinando.
Quanto de seu tempo você dedica ao seu trabalho?
Atualmente tento trabalhar oito horas por dia, mas por muitos anos cheguei a trabalhar mais de 14 horas diárias, o que atualmente condeno totalmente. O mais importante não é a quantidade de horas trabalhadas, mas a qualidade do tempo usado.
Quais as tarefas mais comuns em seu cotidiano?
Hoje estou num cargo de diretoria, portanto mais estratégico e menos operacional. Minhas atividades relacionadas com a área de projetos incluem análise de contratações de projetos, acompanhamento de cronograma físico e financeiro, verificação das soluções técnicas de cada projeto e a compatibilidade com o risco, entre outros.
Quais os principais desafios de seu trabalho?
As maiores dificuldades consistem em encontrar pessoas capacitadas e comprometidas com a atividade e a formação, que é lenta e dispendiosa. As concorrências desleais são outro fator desestimulante, mas que fazem parte do negócio. É preciso transformar os problemas em oportunidade e alavancar novos clientes, novos mercados e novos diferenciais de mercado.
O que mais o atrai na profissão?
Lidar com as pessoas e ajudá-las a resolver problemas difíceis. Ministrar cursos e palestras é outra atividade que faço com o maior prazer, pois me aproxima das pessoas.