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Ensino

Faculdades de engenharia


A revista Téchne conversou com representantes acadêmicos de universidades das cinco regiões do País. Veja como eles avaliam a qualidade e o ensino de suas faculdades


Por Flávia Siqueira


Marcelo Scandaroli
O centro acadêmico da Escola Politécnica da USP teve participação importante na história do País
A formação de um bom engenheiro começa na graduação. Sim, dizer isso é chover no molhado. Mas como as universidades brasileiras estão tratando o curso de Engenharia Civil? Segundo oito alunos ouvidos pela reportagem da revista Téchne, todos ligados a centros e diretórios acadêmicos, as deficiências escolares e de infraestrutura existem, em maior ou menor grau. Mesmo assim, as universidades estão conseguindo formar bons engenheiros para o mercado de trabalho.

Para os estudantes Hudson Thiago de Oliveira e Andreyve Vieira Melo, da Universidade UEG (Estadual de Goiás), o potencial e a qualidade dos alunos acabam garantindo boas colocações no mercado de trabalho, apesar de certas deficiências da faculdade. Anna Luíza Nobre Bezerra, aluna de Engenharia Civil na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), tem a mesma opinião: "No que depender do conjunto universidade mais esforço do aluno, os estudantes certamente estarão bem preparados para exercer sua profissão em qualquer empresa de pequeno ou grande porte".

Uma das deficiências mais apontadas pelos alunos ouvidos está na infraestrutura das universidades: instalações deficientes, falta de bons equipamentos e computadores em laboratórios. Algumas universidades, como a UFRN, têm passado por reformas para melhorar esse aspecto. Outro elemento que tem sido alvo de reformulações é a grade curricular: UEG, Unesp-Bauru e UFPA (Universidade Federal do Pará) tiveram seu conjunto de disciplinas renovado recentemente.

Ingresso
Fábio Lamoréa, da Unesp-Bauru, Cristiano Comin e Aguinaldo da Silva Jr, da UFPA, criticam o vestibular como forma de seleção para o curso de graduação. "Quanto à instituição responsável pela realização e organização do vestibular da Unesp (Vunesp), a qualidade é indiscutível. Entretanto, essa forma de seleção é falha, não apenas nessa universidade, mas em todas que seguem o modelo", opina Lamoréa. Para os alunos da UFPA, o vestibular é "simplesmente incoerente e incapaz de avaliar tanto o aprendizado quanto a competência de um aluno em determinada área".

A Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) alterou, recentemente, a forma de seleção para o curso de Engenharia Civil. Hoje, o estudante pode optar, já no vestibular, pela Grande Área Civil, escolhendo no final do primeiro ano entre os cursos de Engenharia Civil e Engenharia Ambiental. "Quando eu entrei, em 2005, o vestibular selecionava para toda a Poli. No final do primeiro ano se escolhia entre uma das Grandes Áreas (civil, química, elétrica ou mecânica) e no final do segundo os alunos poderiam escolher a especialização dentro da grande área", explica o aluno Bruno Abrahão de Barros, da Poli. "Infelizmente, o método ranqueava os alunos. Como a Engenharia Civil era o curso menos concorrido na escola - por não ter muita procura e oferecer muitas vagas -, tivemos algumas "safras" de alunos desmotivados e insatisfeitos. Agora, o aluno já entra na Poli sabendo que vai fazer ou civil ou ambiental, o que nos tem rendido turmas mais motivadas."

Representação
Os centros e diretórios acadêmicos assumem, nas universidades, o papel de estimular a discussão sobre a estrutura do curso entre os alunos e repassar opiniões e ideias aos docentes responsáveis pela organização acadêmica da graduação. Muitas vezes, contudo, é necessário certo esforço: de forma geral, os alunos não são muito predispostos a esse tipo de discussão e reflexão. Cristiano Comin e Aguinaldo Silva Jr., da UFPA, afirmam que "os alunos sempre tiveram a oportunidade de discutir os problemas do curso, mas por uma cultura comodista isso não ocorria". Atualmente, contam os estudantes, há um esforço por parte dos alunos e docentes da instituição para mudar essa postura.

Os mecanismos de representação discente (assim como a docente) fazem parte dos critérios empregados pelo Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação de Educação Superior), do MEC (Ministério da Educação), para credenciamento de novas instituições de ensino superior. Instituições que possuem esses mecanismos obtêm mais pontos nessa avaliação. "O diferencial de um curso muitas vezes se mede pela própria presença do Centro Acadêmico atuando diretamente", opina o estudante Jaderson Zuanazzi, da Unochapecó (SC).

Os estudantes Hudson Oliveira e Andreyve Melo, da UEG (Universidade Estadual de Goiás), contam que o Caec (Centro Acadêmico de Engenharia Civil) da instituição participa de reuniões com os docentes, nas quais se discutem problemas da comunidade acadêmica e projetos a serem realizados.

Na USP, explica Bruno Barros, "todos os anos é eleita uma nova representação para o Centro Acadêmico e para o grêmio - que estão sempre em contato com a direção da escola -, assim como novos representantes discentes (RDs) para departamentos, coordenação de curso, congregação etc. Os RDs participam de reuniões e têm direito a voto". Veja, a seguir, como os estudantes entrevistados avaliam suas faculdades.

Depoimentos

Acervo pessoal
Anna Luíza Nobre Bezerra, 22, aluna do terceiro ano de graduação e ex-presidente do Centro Acadêmico
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Como você avalia a qualidade de ensino na sua faculdade? Quais são os pontos fortes e os pontos fracos?

Podemos citar como pontos fortes a qualidade dos profissionais e a estrutura que é disponibilizada para os alunos. Um ponto fraco é a falta de cursos paralelos ou, simplesmente, de apoio e incentivo para que os próprios alunos de graduação os desenvolvam.

E quanto à grade curricular do seu curso? Você sente falta de algum conteúdo?

A grade curricular utilizada pela UFRN é muito arcaica. Não só os alunos, mas também professores e profissionais de fora da universidade percebem a necessidade de mudança. Existem matérias de computação que não são classificadas como obrigatórias, mas que deveriam ser complementares. Por outro lado, há deficiências em áreas como segurança no trabalho, patologias e recuperação de estruturas e perícias de Engenharia Civil. Os softwares CAD, por exemplo, são dados como uma espécie de revisão, como se os alunos de engenharia já entrassem na universidade sabendo utilizar o programa. Deveriam ser dados como disciplina, pois se trata de um conteúdo específico e de grande utilidade no curso.

Como você avalia a infraestrutura da sua faculdade para o curso de Engenharia Civil?

A UFRN tem buscado melhorar esse aspecto. Então, ainda é muito cedo para analisar a estrutura. Desde que ingressei, o setor de engenharia encontra-se em reforma, e está ficando cada vez melhor. Com relação aos laboratórios, por enquanto estão suportando e dando conta da quantidade de alunos.

 

Acervo pessoal
Eduardo Leonardo Araújo Santos, 23, aluno do terceiro ano do curso de Engenharia Civil na UFRJ, presidente do Centro Acadêmico de Engenharia da UFRJ
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Como você avalia a qualidade de ensino na sua faculdade? Quais são os pontos fortes e os pontos fracos?

O curso de Engenharia Civil da UFRJ se destaca como um dos melhores cursos do País. Possui um grande aprofundamento em cada área de sua atuação. Um ponto forte seria seu centro de excelência em pesquisa, o que demonstra a busca por se aprofundar cada vez mais na Engenharia Civil. O ponto fraco seria esse aprofundamento excessivo ainda na graduação, com o objetivo de que a grade acadêmica gere pesquisadores, e não engenheiros para mercado de trabalho.

Como se estrutura a grade curricular do seu curso? Você sente falta de algum conteúdo?

A grade curricular se divide em três partes: primeiro, o ciclo básico; do quinto ao oitavo período, temos o ciclo técnico, com matérias sobre todas as áreas de atuação da Engenharia Civil; no nono e décimo períodos, temos a Ênfase, com matérias naquela área de atuação em que você deseja seguir - seria uma especialização da Habilitação. O único problema seria essa especialização antes de se ter uma formação generalista na graduação. O que acontece é que fazemos uma pós-graduação antes mesmo de terminarmos a graduação.

Como você avalia a infraestrutura da sua faculdade para o curso de Engenharia Civil?

Houve uma grande reforma estrutural no curso, com a construção e reforma de salas, laboratórios. Neste momento, não há nenhuma pendência estrutural.

 

Acervo pessoal: Jaderson Zuanazzi
Da esquerda para a direita: Fernanda Daga, Evandro Kensy, Daiana Tussi, Jaderson Zuanazzi e Iris de Assis, alunos de Engenharia Civil da Unochapecó (SC)Respostas elaboradas coletivamente por alunos ligados ao Centro Acadêmico e colaboradores.*
Unochapecó (SC)

Como vocês avaliam a qualidade de ensino na sua faculdade? Quais são os pontos fortes e os pontos fracos?

Há uma melhora constante, notada ao longo dos anos. A grade curricular vem sendo aperfeiçoada diariamente. A qualidade do ensino às vezes peca. Alguns professores se negam a entender que não estão formando um futuro corpo docente, e a falta de matérias mais focadas em execução de obras muitas vezes desestimula o próprio acadêmico a correr atrás de um estágio nas obras da região. Nosso ponto forte são projetos, com bastante ênfase no cálculo estrutural. Desde o início somos testados para o raciocínio lógico e numérico.

Como se estrutura a grade curricular do seu curso? Vocês sentem falta de algum conteúdo?

Nossa grade tem como base inicial matérias que estimulam incansavelmente a lógica e a matemática das propriedades estruturais. O lado ruim é que as matérias específicas de Engenharia Civil ficam para o final da graduação, o que pode desestimular alguns alunos. Uma mudança possível seria implementar, no início da graduação, matérias que possibilitassem e estimulassem a prática, em estágios, de toda a teoria aprendida. Também sentimos falta de mais conteúdos na área de execução de obras, sistemas CAD que possuam interfaces fáceis e interativas, maior proximidade com programas estruturais existentes no mercado de trabalho e implementação de sistemas preventivos de incêndio.

Como vocês avaliam a infraestrutura da sua faculdade?

Recentemente foi inaugurado um pórtico de cargas para teste de resistência de diversos materiais. Mas a falta de um grande investimento em nosso laboratório é perceptível. Com o que temos hoje conseguimos fazer análises em cima de teorias já criadas, mas uma nova invenção ficaria difícil de aparecer e ser estudada; quando esta surge, o acadêmico tem muito mais trabalho em executá-la do que se estivesse em um laboratório mais equipado. As salas de aula, por outro lado, são bons exemplos de investimento. São amplas e em breve haverá equipamento de data show em cada uma delas.

* Iris de Assis (presidente), Evandro Kensy (vice-presidente), Cristiane Michelon (tesoureira), Tiago Berwanger (vice-tesoureiro), Rebecca do Pillar (secretária), Evandro Folletto (diretor de esportes), Daiani Tussi, Daniel dos Santos, Dirceu Raimann, Fernanda Daga, Francielle Nicaretta, Jaderson Zuanazzi e Patricia Rossoni (colaboradores)

 

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