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Obra

Shopping Paralela


Implantado em área de preservação ambiental, novo centro comercial de Salvador, a caminho do aeroporto, recorre à luz natural com grandes domos


Por Giovanny Gerolla



RESUMO
Obra: Shopping Paralela
Localização: Av. Luis Viana Filho, 8.544, Salvador (BA)
Área do terreno: 60 mil m2
Área ocupada: 30 mil m2
Área verde: 19 mil m2
Área construída: 120 mil m2

Foi inaugurado em Salvador, Bahia, na última semana de abril, o Shopping Paralela, com mais de 350 lojas, dentre âncoras e megastores, seis salas de cinema, praça de alimentação, 2.400 vagas de estacionamento, uma praça de eventos com mais de 1.000 m2 e outros 600 m2 de bosque interno com vegetação tropical nativa.

Não só o conceito arquitetônico de Fernando Peixoto Arquitetura é atípico, com fachada composta de cubos de concreto que se apoiam mutuamente. A própria origem do terreno, em área de preservação junto a uma das principais avenidas da capital baiana (popularmente conhecida por Paralela), impôs um arranjo diferente do conjunto. "O terreno é trapezoidal e cai abruptamente em declive acentuado, a partir da altura da avenida (onde fica a fachada), para uma cota de 6 m, terminando em área verde, a partir da qual não há acesso ao shopping", explica Peixoto.

Os cubos da fachada sofrem tração e compressão, e se apoiam pelo vértice no chão. Foram feitos estaqueamentos para que se mantivessem equilibrados, e os blocos das estacas, por sua vez, atirantados, para compensar esforços de afastamento no encontro de suas estruturas diagonais.

Nos fundos do shopping, um pátio contém lagoa que faz parte da área de preservação. Os 60 mil m2 de terreno, contudo, já estavam desmatados, porque serviram como canteiro para outra obra, e a equipe concentrou-se apenas em replantar mais de três mil mudas nativas. Mesmo assim, a área total construída ocupou somente a metade do espaço disponível.

O acesso é todo feito pela avenida. Abaixo do nível dela, o projeto arquitetônico previu dois pavimentos de garagens - tendo sido o mais profundo escavado -, com uma contenção à frente e aberturas nas laterais e fundos, por onde entra iluminação natural. Acima das garagens estão dois pavimentos de lojas, num pé-direito duplo com mezanino.

Segundo Renato Arléo, engenheiro civil e sócio-proprietário da Duomo Construções, o projeto arquitetônico já era adaptado à topografia do terreno, o que é raro. Fez-se então a terraplanagem com um corte no lado direito do terreno (para quem o olha da avenida) e aterro no lado esquerdo. "Praticamente não houve bota-fora", complementa Haroldo Silveira Fernandes, sócio-proprietário da construtora Fersan, ao se referir aos 30 mil m3 de terra transportados de um lado para o outro.

Fotos: Mila Peixoto
Estacas centrífugas foram pré-moldadas no canteiro
Fundações
As fundações escolhidas foram as pré-moldadas em canteiro, centrifugadas e ocas. Foi preciso, entretanto, pré-furar o solo de camada superficial muito dura com broca em hélice rotativa, antes que as estacas fossem batidas. Pelo fato de serem armadas, apresentaram a resistência certa para chegar a 10 m ou até mesmo 25 m de profundidade.

"Na época da execução das fundações tivemos um problema com excesso de chuvas que dificultavam a locomoção das estacas, lembra Fernandes. "Por isso optamos pelas helicoidais: a hélice de perfuração era montada sobre um trator que não atolava e possibilitou o trabalho, mesmo com toda a lama." Apesar do pequeno atraso, foi ainda possível cumprir o cronograma previsto para as fundações.

Pelo fato de o shopping não ter um formato simétrico, a estrutura de concreto convencional armado e protendido (30 MPa, 40 MPa e 60 MPa) mostrou-se mais viável - a pré-moldada, neste caso, exigiria um número grande de fôrmas em função da variabilidade volumétrica e de quantidade de peças diferentes que demandaria. O mais desafiador foi, contudo, o cálculo desenvolvido por Murilo Miranda Associados, de forma que todo o espaço de mall (corredores do shopping center) ficasse completamente livre de pilares. "Nos grandes vãos, optamos pelo concreto protendido e também tracionado, em algumas vigas", relata Fernandes.

Para compensar vãos que ficaram sem vigas, as lajes convencionais, espessas e planas, têm capitéis nos pilares. Há ainda estruturas em aço fechadas com vidro laminado refletivo, que evita superaquecimento dos interiores e cobre o bosque e a praça de eventos, formando duas grandes abóbadas geodésicas, de diâmetros que ultrapassam 25 m.

Fotos: Mila Peixoto
Os cubos da fachada sofrem tração e compressão e se apoiam pelo vértice
Fechamentos
Externamente, foram utilizados blocos convencionais de concreto, enquanto internamente e na divisão das lojas a opção foi pelo drywall. O drywal tem paredes duplas, de até 18 cm.

Ele acredita que o drywall diminuiu muito a quantidade de entulho e lixo da obra, além de ter reduzido o peso das paredes em mais de 60% e facilitar manutenções ou mudanças no layout da obra.

Placas acartonadas únicas e lisas entraram também nos forros, apoiadas por estrutura metálica. Nos vãos do mall, com média de 10 m de largura por 150 m de comprimento, Fernando Peixoto sugeriu que fosse colocada fibra de vidro, formando degraus, já que o gesso seria mais suscetível a fissuras.

"O forro de fibra forma domos, onde tivemos que usar um policarbonato especial importado, que filtra a luminosidade e impede o calor de entrar", explica Fernandes.

Em diversos pontos da área do shopping, a iluminação natural combinou-se com a artificial, para menor consumo de energia elétrica durante o dia. Ainda no quesito eletricidade, a economia é feita no sistema de resfriamento, controlado por computador. Na verdade, todo o shopping é automatizado, de portas, elevadores e escadas rolantes a instalações prediais, e conta até mesmo o número de visitantes que entram e saem do edifício.

O lojista economiza 30% em sua conta de luz, já que o Shopping Paralela foi construído junto a uma subestação 69 (69 mil kW), localizada do lado esquerdo do prédio, e que recebe diretamente a carga que vem da rua. A energia é então rebaixada para 11.8 (11 mil kW) por meio de outras três subestações internas ao edifício - uma só para o ar-condicionado e duas para todos os outros serviços.

Fotos: Mila Peixoto
As divisórias das lojas têm paredes duplas de drywall com 18 cm

Ar-condicionado, por sua vez, é composto por um sistema de água gelada que fica num tanque de três milhões de litros. Grandes máquinas gelam a água que é transportada por todo shopping através de tubulação com terminações em cada uma das lojas. Nelas, um ventilador sobre serpentina condutora da água gelada sopra ar resfriado para dentro dos ambientes.

Como o tanque metálico é isolado com neoprene, a economia de energia se dá por termoacumulação, pelo uso da água do tanque, sempre que as máquinas estão desligadas. O tanque possui também termostatos e uma proteção mecânica em alumínio, que o reveste. "Trata-se de um enorme tonel, de 20 m de altura", contam os engenheiros.

A eletricidade, por sua vez, não corre totalmente por cabos. O sistema conhecido como busway permite que a energia corra por barras de cobre. Renato explica que o sistema "conduz a energia de forma mais limpa, ocupando menos espaço que os cabos". Estes últimos não são, contudo, inexistentes no projeto, mas em quantidade inferior.

Para Fernandes, a vantagem é que o busway, apesar de 30% mais caro, é muito mais seguro (mais difícil de queimar).

Com relação aos revestimentos, os pisos receberam cerâmica Brennand combinada com mármore Perfect White, importado da China e beneficiado na Bahia. A especificação foi do arquiteto Fernando Peixoto. Segundo o engenheiro da Duomo, para evitar manchamentos, o piso foi assentado com argamassa branca.

Lucas Silva
Em diferentes pontos do shopping, os domos e outros recursos de projeto permitem combinar a luz natural e artificial de modo eficiente

Captação de água
A cobertura do edifício é impermeabilizada com uma manta ardosiada (manta asfáltica com proteção de grânulos de ardósia), de 4 mm de espessura. Superficial, ela não pede proteção mecânica adicional (não precisa ser cimentada). Tem a cor esverdeada do mineral, o que produz efeito estético diferente.

Em vez de ter aplicado tubos hidráulicos de PVC, foi especificado o sistema Geberit, formado por tubos pretos de polipropileno que funcionam por diferença de pressão, por sucção mecânica. "Não há uma máquina que exerce a força", diz Renato. "Se não fosse por esse sistema, teríamos de ter empregado o dobro do número de ralos sobre a cobertura." Estes formam um sistema próprio, com bandeja chumbada no concreto da laje, por onde a água cai e encontra as tubulações.

A principal diferença qualitativa é que o Geberit funciona sob vazão plena, enquanto que no sistema de PVC ela é de aproximadamente 50% da secção do tubo.

Conteúdo online exclusivo:
>>> Veja mais fotos do Shopping Paralela, em Salvador

 

Ficha técnica
realização: Capemisa Vida e Previdência e WBarretto; administração: REP; projeto arquitetônico: Fernando Peixoto; compatibilização de projetos: Amplus Arquitetura; consultoria de shopping center: Esper Schoucair; estudo de viabilidade: CBRE Richard Ellis; pesquisa de mercado: GIS Market; consultoria ambiental: Gaia Recursos Naturais; construção: Fersan Construções e Incorporações Ltda. e Duomo Construções e Consultoria em Engenharia; fiscalização: N&A Consultores; ar-condicionado: MAS; gás: Bahiagás; reservatório metálico: DSI; drenagem e pavimentação: Ebrae; projeto contenção: Envgeo/Ativo; execução: Ativo; projeto esgotamento: Ecosfera; execução: Fersan/Duomo/Ebrae; projeto estaqueamento: Geotec; execução: T&A; estação elevatória: Holz; projeto estrutural: Murilo Miranda; execução: Fersan/Duomo; projeto estrutura metálica: AGN Estrutural; execução: Rotula; projeto estrutura fachada: Adailton Gomes/Célia Neves; execução: Fersan/Duomo; projeto reforço estrutural: Fortes Associados; execução: Mundo do Concreto; solo grampeado: HB; projeto incêndio e SPDA: Iguape; execução: Teckma; estrutura metálica (docas): Indamel; irrigação: Terwal; projeto de divisórias em gesso: Knauf; execução: Acartonado e Jasserand; projeto paginação de piso: Mixdesign; execução: Itadur; fibras e aditivos para pisos: Construquímica; projeto escada metálica: PC&M; execução: OMK; projeto iluminação interna: OMNI; execução: Teckma; projeto iluminação externa: Peter Gasper; execução: Teckma; projeto paisagismo: Planta & Arte; execução: Brasil Verde; projeto passarela externa: João Filgueiras Lima; execução: Fersan/Duomo; projeto estrutural de passarela externa: Roberto Vitorino; execução: Fersan/Duomo; projeto elétrica: Pierlorenzo Marimpietri; execução: Teckma; projeto sonorização: Roberto Woolf; execução: MAC; projeto comunicação visual: SR&V; execução: Pinto & Bordo; projeto subestação: Fersan/Duomo; execução: Teckma; projeto telefonia celular: Qualitest; execução: Romitel; casa de comando: Trafo; projeto automação e CFTV: Tuma; execução: MAC

 

 
 
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