 |
Um espectro ronda as obras brasileiras. Há uma queixa generalizada de construtores de diversas regiões do País quanto ao concreto entregue nos canteiros. Segundo eles, o material entregue não estaria atingindo a resistência característica à compressão exigida nos projetos estruturais. As suspeitas recaem diretamente sobre as concreteiras, fornecedoras do material. Em sua defesa, essas empresas lembram que falhas podem ocorrer em etapas do processo de controle tecnológico que fogem à sua alçada, mas que poderiam comprometer a qualidade da avaliação da resistência do concreto. Da falta de cuidados na moldagem de corpos de prova à baixa confiabilidade de alguns laboratórios brasileiros, apontam, vários fatores poderiam alterar o resultado final que chega ao construtor (ver também na seção Como Construir como receber concreto e moldar corpos de prova). Essas são algumas das faces de um problema complexo e polêmico, que envolve construtores, concreteiras, projetistas e laboratórios, que vem crescendo há alguns meses e que permanece sem solução.
 |
| Para moldagem dos corpos de prova, a norma determina que seja coletado concreto do terço médio do caminhão-betoneira, entre 15% e 85% do descarregamento do material |
 |
| Após a moldagem, o corpo de prova deve ser corretamente identificado para permitir adequada rastreabilidade. Durante o período de cura, deve ficar protegido das intempéries |
 |
| Laboratórios com equipamentos calibrados e pessoal capacitado são fundamentais para garantir credibilidade do controle da qualidade do concreto |
Notificações de concreto abaixo da resistência não são novidade em nossa história recente, conforme lembram profissionais da área. "Alguns anos atrás, nosso escritório teve uma quantidade absurda de consultas sobre concretos que chegavam às obras com resistência abaixo da especificada", conta o projetista estrutural José Roberto Braguim, da OSMB Projetos e Consultoria. Segundo a superintendente do Comitê Técnico de Cimento, Concreto e Agregados da Associação Brasileira de Normas Técnicas (CB-18/ABNT), Inês Battagin, o que aconteceu é que algumas concreteiras estavam adicionando escórias e outros materiais no concreto sem conhecer suas potencialidades. Com a regulação da situação, por meio de normas técnicas, a situação melhorou e se estabilizou. "Depois disso, apesar de não ter havido uma piora, o problema persiste e começa a incomodar", avalia Braguim.
Via crucis
Quando a baixa resistência de um determinado lote de concreto é identificada, começa um longo e extenuante caminho para o construtor. Se a qualidade e idoneidade do laboratório responsável pelas análises são reconhecidas por todas as partes, os resultados são enviados para o projetista estrutural, que os irá analisar e dar seu veredicto. Dependendo da resistência obtida, do tipo de elemento estrutural afetado e dos coeficientes de segurança estrutural adotados, ele poderá autorizar o prosseguimento normal da obra. Caso contrário, procede-se à extração de testemunhos da própria estrutura para confirmação do resultado. Também é possível que sua posição seja revisada - e até contestada - por um consultor independente. Só depois que os envolvidos chegarem a um acordo, e isso pode demorar, é que começa efetivamente a etapa operacional do processo. As intervenções vão de simples reforços de pilares ou vigas à necessidade de demolição de pilares localizados sob diversos pavimentos já executados.
Os atrasos de cronograma podem até inviabilizar economicamente um empreendimento. "Hoje as margens de lucro são muito apertadas. Em casos assim, podemos enfrentar desde prejuízos financeiros decorrentes de um retrabalho pontual até o comprometimento da rentabilidade do empreendimento, se ele atrasar mais de dois meses", afirma Paulo Sanchez, diretor presidente da Sinco Construtora, de São Paulo.
Para deixar claro para os projetistas estruturais o que fazer nessas situações, a Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) elaborou um texto com os procedimentos mais adequados para quando os profissionais se depararem com o problema. Um exemplo abordado é quando um consultor estrutural externo é chamado e apresenta uma proposta com a qual o projetista "titular" da obra não concorda. "Isso pode gerar problemas éticos", afirma Braguim, que também é membro da Abece. A recomendação, nesses casos, é de que as partes interessadas elaborem um documento conjunto tornando claros os limites das responsabilidades de cada um dos profissionais envolvidos no problema. O texto da Abece traz ainda orientações para questões de natureza comercial e técnica.
Implicações jurídicas
A comunidade técnica tem usado a expressão "concreto não conforme" ao se referir ao produto que não atende ao fck definido pelo projetista. Essa definição de não conformidade, contudo, não está completamente correta. A norma "NBR 12.655:06 - Concreto - Preparo, Controle e Recebimento" diz que a resistência característica à compressão (fck) é o "valor de resistência à compressão acima do qual se espera ter 95% de todos os resultados possíveis de ensaio da amostragem feita conforme [o item] 6.2.2". Ou seja, se até 5% dos resultados ficarem abaixo do fck, o concreto é considerado conforme. "O fornecedor estaria cumprindo o previsto em norma técnica e, portanto, não estaria infringindo nem o Código Civil nem o Código de Defesa do Consumidor", explica o perito Paulo Grandiski, membro titular do Ibape-SP (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia).
Todavia, isso não exime a concreteira de suas responsabilidades. Grandiski explica que, quando o problema surge e o calculista considera necessário um reforço pontual ou a demolição e reexecução de parte da estrutura, é dever da fornecedora arcar com os custos do reparo. "A concreteira pode ser condenada a ressarcir os danos causados à construtora por fornecer concreto abaixo do especificado", conclui Grandiski citando o artigo 427 do Novo Código Civil.
São poucas as querelas entre construtores e concreteiras que vão parar na justiça. Os construtores reconhecem que as fornecedoras de concreto se mostram prestativas e arcam com todos os custos decorrentes de um material de baixa resistência. Mas isso não parece satisfazê-los. "O que a gente vê é que as concreteiras não se importam em pagar pelos reparos. Parece-me que elas incluem no preço do concreto o custo de recuperação da estrutura, correndo riscos de forma planejada", afirma Cláudio Burgos, coordenador de contratos da Jotagê Engenharia, de Salvador.
Wagner Lopes, presidente da Abesc (Associação Brasileira das Empresas Prestadoras de Serviços de Concretagem), defende as empresas associadas da entidade. "Com certeza não é assim que trabalham nossas associadas, que investem grande parte de seus recursos em capacitação dos seus funcionários, automatismo de seus sistemas e modernização de seus laboratórios", afirma Lopes. "O bem mais valioso para uma empresa prestadora de serviços de concretagem é a confiança dos seus clientes", justifica.
 |
| Demora na entrega e no descarregamento do concreto podem afetar a qualidade do material que irá para a estrutura |
Da central ao laboratório
Efetivamente, a responsabilidade da concreteira é zelar pela qualidade do preparo do concreto e de seu transporte até o local de obra. Sua função é saber selecionar os insumos - cimento, areia, agregados, aditivos e água -, conhecer a fundo o comportamento desses materiais, estar atenta à calibração de seus equipamentos, fazer a dosagem correta e garantir o transporte e a entrega adequados do concreto na obra. Fernando Jardim Mentone, da Abratec (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Construção Civil) ressalta que, no País, os agregados não têm qualidade homogênea. "Eles recebem um rápido tratamento e já vão para a central de dosagem. Até que ponto uma coincidência de fatores não está levando a uma queda de resistência?", questiona. Da mesma forma, a qualidade do cimento também pode interferir na resistência do concreto.
Mas a maior desconfiança gira em torno do consumo de cimento para a produção do concreto. "Nos três últimos casos em que atuei, ficou muito claro no controle estatístico total, ou seja, de todos os caminhões da mesma central, que a concreteira centra o valor de dosagem no valor limite do fck, quando deveria centrar no valor fcj aos 28 dias, um valor bem maior", relata Grandiski. Quem é que ganha nesse processo, levando no limite? É a concreteira, que está fazendo economia de cimento", opina o perito.
 |
| Centrais dosadoras de concreto devem conhecer a fundo o comportamento dos materiais usados na produção do concreto |
Wagner Lopes, da Abesc, afirma que as empresas associadas à entidade controlam rigorosamente a qualidade dos insumos. "Os associados rastreiam todos os processos críticos cumprindo as normas da ABNT, como a NBR 12.654, a NBR 7.212, entre outras", afirma Lopes. "A vida de um concreteiro é fazer ensaios, confrontando os resultados dos materiais componentes do concreto que estão sendo usados com as resistências obtidas nos corpos de prova."
Problemas com o não atendimento do fck podem estar relacionados, ainda, com falhas no processo de controle tecnológico. Há procedimentos normalizados, e que devem ser seguidos, para a coleta do concreto e a moldagem do corpo de prova. Além disso, é imprescindível o cuidado no armazenamento e no transporte dessas peças. Os corpos de prova são elementos sensíveis, principalmente nas primeiras horas de idade, e qualquer descuido pode alterar sua resistência característica à compressão. Para comprovar falhas nessa etapa, será necessário realizar a extração de testemunhos da estrutura já executada - medida dispendiosa e cara.
 |
| De preferência, o transporte deve ser feito ainda na fôrma. Laboratório é local ideal para a desenforma da amostra |
Outro elo da cadeia que tem sido questionado é o dos laboratórios responsáveis pelas análises dos corpos de prova. Poucos no País são acreditados pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), ou seja, seguem os requisitos da norma ABNT NBR ISO/IEC 17.025 e se submetem a auditorias periódicas. O maior obstáculo é arcar com os investimentos necessários para a capacitação laboratorial exigida pelo órgão nacional. "Esta acreditação se iniciou em 2000 no Brasil e realmente começou a ser implementada a partir de 2005, portanto é bastante recente", afirma Antônio Sérgio Ramos da Silva, engenheiro do laboratório Concreta, de Salvador. A empresa, que há nove anos possui a certificação de qualidade ISO 9000, deve se tornar, em 2010, o segundo laboratório acreditado pelo Inmetro na região Nordeste.
Silva também se mostra preocupado com o índice de concretos com resistência abaixo do fck. Ele relata que já trabalhou numa obra em que se teria configurado, de fato, a não conformidade do fornecimento do concreto: "Em uma situação específica, tivemos mais de 30% de resultados inferiores ao fck estabelecido pelo projetista estrutural".
Por enquanto, o problema continua sem soluções. Inês Battagin acena com a possibilidade de revisão das normas técnicas, principalmente a NBR 12.655, de 2006. Ela conta que, na época em que esta versão estava sendo discutida, as noções de cálculo estatístico de recebimento do concreto chegaram a ser abordadas à luz de normas estrangeiras. "A conclusão a que se chegou é que nós não estávamos prontos para colocar em nossa norma o que se estava fazendo lá fora", relata. "Nossa realidade é diferente e o concreto dosado em central é uma pequena parcela do total usado no País." Com o debate atual, e o envolvimento de tantas partes interessadas, ela acredita que o conhecimento técnico sobre o tema amadureceu e a sociedade estaria pronta para repensar esses pontos da norma.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >>