Anos de investimentos precários em infraestrutura de transporte associados à retomada de crescimento econômico têm feito com que, nos últimos anos, não faltem oportunidades de trabalho para engenheiros de estradas. Desde 1994, quando foram abertas as primeiras concessões no País, esta atividade só cresce. A procura por profissionais capacitados é tanta que muitas empresas têm recorrido à contratação de projetos no exterior, especialmente na França e em Portugal.
Para atender a essa demanda e ajudar a suprir as deficiências ainda flagrantes na malha rodoviária brasileira, o engenheiro que concebe estradas tende a ser cada vez mais valorizado. Porém, engana-se quem pensa que este profissional tem vida fácil. As exigências sobre os projetos têm aumentado gradativamente, incorporando múltiplas disciplinas e conceitos que até pouco tempo não eram prioridade, caso da integração com as comunidades existentes, da preservação ambiental e da preocupação com o controle de ruídos.
As estradas deixaram de ser concebidas apenas com o intuito de ligar duas localidades e permitir o máximo fluxo de tráfego possível entre elas. Hoje, o projetista tem, sob sua responsabilidade, o desenvolvimento de traçados e estruturas que devem ser capazes de garantir a segurança e conforto dos motoristas, sempre com a melhor relação custo-benefício e o menor impacto ambiental. A atenção à durabilidade e à necessidade de manutenções são outros aspectos a serem incorporados neste trabalho, sobretudo porque interrupções para a realização de serviços sempre geram algum impacto aos usuários.
Caminho certo
Fazer parte desse mercado requer do profissional flexibilidade, criatividade, disposição para viajar a lugares remotos, além de liderança e habilidade para o trabalho em equipe. "Entre os conhecimentos técnicos necessários, fora os fundamentos da engenharia obtidos na faculdade, é recomendável o domínio de disciplinas como Topografia, Geotecnia, Hidrologia, Terraplenagem, Pavimentação e Obras-de-Arte", revela o engenheiro Piotr Slawinski, projetista da Projconsult.
No contexto atual, torna-se igualmente importante desenvolver boa capacidade de visualização tridimensional, ter raciocínio ágil e conseguir aproveitar bem os recursos oferecidos pelos softwares de desenho e de projetos que estão em evolução a cada ano. "O projetista também precisa ter profundo conhecimento sobre as normas de projeto de estradas, que variam em cada órgão público, e se interessar pela busca de aprimoramento constante", destaca o engenheiro João Vicente H. G. K. Wanka, projetista da Engevix.
Wanka conta que, há dez anos, após iniciar sua carreira como estagiário em projetos de drenagem, decidiu complementar sua formação estudando a fundo as normas e os softwares específicos para a concepção de estradas. A iniciativa ocorreu em resposta à necessidade da empresa na qual trabalha.
Até com base em sua experiência pessoal, Wanka afirma ser fundamental ao engenheiro de projetos saber identificar as oportunidades que aparecem. "Uma boa rede de relacionamentos é desejável, principalmente para os projetistas autônomos", recomenda, ressaltando, ainda, a importância de estar sempre aberto à troca de experiências com outros colegas para enriquecimento profissional.
O engenheiro José Alberto Moita, gestor de obras da Engelog, braço de engenharia do Grupo CCR, concorda que o sucesso nessa carreira passa, inevitavelmente, pela dedicação e pelo aprendizado constante, sobretudo com o apoio de profissionais mais experientes. Mas acrescenta, entre os requisitos importantes aos projetistas de estradas, a experiência em campo, complementar à formação acadêmica.
Isso porque um projeto de estradas completo não é algo que se faça apenas dentro do escritório. Além do acompanhamento da execução, assim como ocorre com outros projetos de engenharia, a solução mais adequada na concepção de estradas é aquela que leva em consideração uma ampla gama de informações sobre o local de implantação. "Sem conhecer o local da obra, fica muito difícil para o projetista propor soluções factíveis, já que o papel aceita tudo", afirma Moita, na posição de contratante de projetos de estradas. "Se o projeto prevê o uso de pedras, é importante que o projetista confira se há pedreiras na região. Se propõe o uso de bate-estaca, tem que ponderar os transtornos às edificações vizinhas", exemplifica o engenheiro da CCR.
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| David Albuquerque, coordenador de projetos da Engelog (Grupo CCR) |
Personagem
O que o levou a escolher essa profissão?
Foi a paixão pelas estradas e a consciência de que elas fazem parte da vida das pessoas, ao transformar cidades, agregar conforto e segurança. Ainda na faculdade de engenharia eu comecei a me sentir atraído por essa área e, desde então, venho trabalhando com estradas.
Quais são os maiores desafios enfrentados no cotidiano?
Não raras vezes precisamos lidar com a pressão e o estresse de ter que administrar um volume de serviços muito grande. O mercado está bem aquecido e, por isso, frequentemente trabalhamos com prazos bastante enxutos. Mas isso não é um problema exclusivo do projeto de estradas. Todas as carreiras que envolvem mercados aquecidos têm que conviver com isso.
Do que você mais gosta em sua profissão?
Esse campo da engenharia nos permite misturar conhecimentos de diferentes áreas, como geologia, terraplenagem, drenagem, pavimentação e obras-de-arte. Isso é bastante interessante e estimulante.
Que dicas você pode dar para o profissional que almeja ingressar nessa atividade?
Para os que estão começando, é fundamental estudar bastante geologia, terraplenagem, obras-de-arte especiais, geotecnia. Outra coisa importante é acumular experiências, não só na área de projetos, mas também na execução de obras. Atualização é fundamental, principalmente para poder acompanhar a evolução das práticas, dos softwares, das máquinas e dos equipamentos. Mas vale a pena lembrar que nada disso adianta se não houver paixão pelo que se faz.
Currículo
Formação: graduação em engenharia civil complementada por cursos na área de rodovias (geotecnia, segurança de tráfego e obras-de-arte, por exemplo).
Atribuições:
realiza estudos de viabilidade, projetos básicos e executivos. Também faz o acompanhamento técnico da execução dos serviços.
Aptidões e habilidades:
sólidos conhecimentos sobre topografia e terraplenagem, drenagem, geotecnia e segurança de tráfego. É importante dominar softwares de desenho e de projeto de estradas, bem como saber sobre as normas de projeto de estradas. Também é importante ter boa capacidade de visualização e gostar de trabalhar em equipe.
Disponibilidade:
normalmente o trabalho em escritórios de projeto requer dedicação por 8 horas diárias, mas a carga horária é variável de acordo com o volume de encomendas. É importante ter disponibilidade para viajar para diferentes localidades, inclusive as mais remotas.
Oportunidades de trabalho:
em escritórios de projeto (contratado ou como profissional autônomo), concessionárias de rodovias e órgãos públicos.
Remuneração média:
variável em função da região, forma de contratação e experiência do profissional, mas geralmente fica em torno de R$ 4 mil para um Engenheiro Civil Júnior. Como o mercado de trabalho nesse segmento está aquecido, é possível encontrar remunerações mais altas na iniciativa privada e nos órgãos públicos das esferas federais e estaduais, principalmente.