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Mudanças de hábito e instalação de móveis com sobrepeso nas sacadas dos edifícios de classe média alertam para o risco de patologias estruturais


Por Renata D' Elia


Marcelo Scandaroli
O valores estabelecidos em norma (2 kN/m2, sem acesso público, e de 3 kN/m2, com acesso público) são mais do que suficientes para garantir a segurança estrutural. O maior problema apontado é a dificuldade de garantir um bom posicionamento da armadura negativa junto à borda
Churrasqueiras, móveis, jardineiras, grandes vasos: com apartamentos cada vez menores, surge a necessidade de valorizar os espaços externos, levando à permanência prolongada nas sacadas residenciais pelas famílias de classe média. Elas transformam o espaço numa extensão natural da sala e algumas vezes ultrapassam a carga suportada por estruturas que trabalham isostaticamente e com armadura negativa, servindo como alavancas das lajes. As concentrações localizadas dessas cargas podem gerar esforços acima dos previstos e causar sérias patologias estruturais, inclusive desabamentos. Em São Paulo, por exemplo, há registros de vários casos de acidentes estruturais em locais de conservação deficiente ou precária.

Entre os projetistas estruturais, o consenso é de que o problema não está nos edifícios mais novos, que já preveem a instalação de churrasqueiras e outros itens. A questão são os espaços que, originalmente, não previam essa utilização. Por isso, as inspeções temporárias são importantes. O engenheiro Eduardo Barros Millen, vice-presidente de Relacionamento da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural), garante que o principal é respeitar as normas da ABNT NBR 6120/1980, que define os valores mínimos de cargas verticais nos projetos estruturais de terraços, sacadas e marquises: 2 kN/m² para locais sem acesso ao público e de 3 kN/m² para locais com acesso ao público. "Esses valores são suficientes para ocupação normal e usual. Com uma boa execução e uma boa manutenção ao longo dos anos, não haverá acidentes", diz. Millen também informa que, caso seja constatada uma sobrecarga acima da prevista em projeto, deve-se verificar se a estrutura já sofreu danos. "Quando ainda não ocorreram patologias, basta retirar o excesso de carga. Caso contrário, é necessário fazer um reforço estrutural."

Para o engenheiro Francisco Graziano, diretor da Pásqua & Graziano Associados, o risco está na armadura principal - próxima à borda superior da laje -, que é negativa. "Há certa dificuldade dos engenheiros em garantir a posição correta da armadura no projeto, tendo em vista a pouca utilização de espaçadores de forma eficiente", explica. "Nos projetos atuais, tem nos parecido suficiente considerar também 2,5 kN/m na borda do terraço, adicionados os pesos próprios dos revestimentos, peitoris e outros itens", afirma. Millen reitera que os projetos atuais consideram o aumento dos vãos, não deixando as lajes em balanço, mas sim apoiadas em pelo menos três lados. "Quando o projetista tem conhecimento prévio de que, por exemplo, será feito um jardim com 20 cm de altura de terra, ele considera nessa região a sobrecarga de 3,6 kN/m²", exemplifica.

As hipóteses de cálculo não são simples. Nas sacadas e marquises pode-se considerar uma margem de segurança de 40% para o carregamento variável, valor correspondente ao "coeficiente de ponderação". No caso do Estado Limite Último, leva-se em conta a variabilidade de ações, a simultaneidade delas, os possíveis desvios gerados nas construções e as aproximações feitas em projeto do ponto de vista das ações. "Portanto, os 40% não significam um acréscimo impune de cargas. Deve-se considerar ações sobre o guarda-corpo correspondentes a 2,0 kN/m verticais e 0,8 kN/m horizontais", afirma Millen.

De acordo com Graziano, cabe ao projetista considerar os coeficientes de ponderações prescritos nas normas ABNT NBR 6118/2003 e ABNT NBR 8681/2003, que mencionam a probabilidade de ruína entre 1/105 e 1/106. "O bom projetista deve atentar a avisos e recomendações quanto à necessidade do uso de suportes e espaçadores para garantir o posicionamento da armadura e sua proteção pelo cobrimento adequado à região da obra e seu microclima", ressalta. Eventuais aumentos de cargas com relação às normas devem ser formalmente comunicados ao contratante para que, numa eventual auditoria de projeto, não haja comentários de exageros e consequentes acréscimos de custo da estrutura.

Divulgação: Abece
Os condomínios devem alertar os moradores para o uso correto das sacadas quanto aos riscos de se mobiliar a área e promover a ocupação excessiva do local
Desabamentos

A rigor, o risco de acidentes e desabamentos relacionados às ações dinâmicas é baixo nas sacadas residenciais. A simples concentração de pessoas dançando numa sacada, teoricamente, não a fará desabar em uma festa, a menos que seja utilizada "como um trampolim de piscina, de forma proposital", como menciona Graziano. Mas o engenheiro Millen atenta para o perigo dos efeitos dinâmicos regulares e frequentes. "Nos terraços de casas de danças e shows, a sobrecarga vertical a ser considerada é de 5 kN/m². Em uma sacada não projetada para isso, se as pessoas ficarem pulando, os limites de sobrecarga podem ser ultrapassados significativamente, podendo causar problemas sérios estruturais", ressalta.

Millen adverte que as estruturas bem-feitas costumam avisar quando estão sobrecarregadas: deformações, fissuras, trincas e estalos são sinais de que algo vai mal. "Esse é o momento em que a estrutura está prestes a desabar", afirma. Mas nem sempre as estruturas dão esses sinais antes dos acidentes.

Critérios básicos de arranjo das armaduras da laje em balanço

Divulgação: Abece
A precariedade do sistema de impermeabilização pode contribuir para o colapso. O excesso de carga de outdoor e placas também deve ser visto com rigor
Manutenção

Sacadas, terraços e marquises sofrem com a ação do tempo, por estarem ao ar livre. Por isso, as impermeabilizações desses locais devem funcionar adequadamente, evitando a penetração de umidade no concreto e a consequente oxidação das armaduras, sua perda de seção, deformação da estrutura e até mesmo sua ruína a médio ou longo prazo. Considera-se também que os agentes agressivos são hoje muito mais intensos do que há algumas décadas, o que resulta na deterioração natural das estruturas. Por isso, a Abece recomenda a inspeção periódica de marquises.

O engenheiro Graziano aponta alguns cuidados especiais. "A armadura negativa é posicionada junto à face superior da laje e estará tracionada em caso de lajes em balanço. Por estarem na face superior da laje, as fissuras podem acumular agentes agressivos e induzir a corrosão da armadura. Se não evitada, essa corrosão pode levar a laje à ruína, mesmo que não haja sobrecarga. Evidentemente, uma laje mais solicitada do que o normal fissurará mais e acelerará esse processo", informa. A manutenção deve controlar a existência das fissuras e seus regimes de "seco e molhado", o que poderá acelerar a corrosão, com a perda de seção das armaduras e da capacidade resistente da laje.

"Há uma espécie de acomodação da sociedade no que diz respeito à manutenção preventiva de estruturas. Acredita-se que elas são permanentes e resistentes a tudo. Além do mais, os governantes não promovem essa manutenção, já que o serviço não reverte em votos. Há uma necessidade urgente de aprovação e cumprimento de leis específicas para vistorias em sacadas e marquises, para que a segurança da população não seja ameaçada. Mas isso ainda não se cumpriu", afirma Millen.

Impasse político

Em junho de 2007, a Abece enviou ao vereador Domingos Dissei, vice-presidente da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara Municipal de São Paulo, uma minuta de projeto de lei para tornar obrigatória a vistoria técnica estrutural para a avaliação das condições de uso e manutenção de marquises e sacadas construídas em todos os edifícios da cidade. Após aprovação da câmara, o projeto foi sancionado pelo prefeito Gilberto Kassab, com vetos a todos os objetivos da proposta e a inclusão de duas emendas referentes a pinturas em muros. Segundo a Abece, a alegação no despacho do prefeito foi de que já havia uma lei relacionada, embora não trate de marquises, terraços e sacadas.

Proposta original da Abece:

Vistoria técnica elaborada por profissional autônomo ou pessoa jurídica regularmente inscritos no Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo) com habilitação em engenharia civil e especialização comprovada em estruturas.

Relatório técnico deve conter histórico dos relatórios anteriores, cadastramento geométrico da marquise ou sacada (com dimensões, espessura dos revestimentos e carregamentos atuantes), descrições sobre o estado geral da impermeabilização e situação do sistema de coleta de águas pluviais e a caracterização do eventual quadro patológico encontrado. Deve indicar, em conformidade com as normas nacionais vigentes, a eventual necessidade de serviços de recuperação e prazo para início.

Relatório com validade de cinco anos. Nesse espaço de vigência do "Habite-se", a responsabilidade pela vistoria deverá ser do construtor.

Penalidades aos infratores da lei pela inexistência do relatório técnico e pela exibição em desacordo com as exigências.

As edificações existentes terão prazo de 180 dias para atendimento aos dispositivos impostos por essa lei.

Lei 14.806, aprovada pelo prefeito Kassab em 26/06/2008

Todos os artigos relacionados às vistorias em sacadas, marquises e terraços dos edifícios da capital paulista foram vetados.

Inclusão de artigo que proíbe pichar, desenhar, escrever ou pintar propagandas políticas em muros, fachadas, colunas, paredes, pórticos, ou qualquer outro lugar público ou privado visível do passeio público.

Para saber mais sobre o Projeto de Lei e seus desdobramentos, visite o site oficial da Abece: www.abece.com.br.

 

 
 
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