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Entrevista
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Barreiras acústicas


Com 50 anos de experiência em conforto acústico, o engenheiro Schaia Akkerman conta que o padrão de consumo e a sensibilidade individual ao som são tão importantes na definição de projetos quanto os custos da obra


Por Giovanny Gerolla


Marcelo Scandaroli
SCHAIA AKKERMAN

Schaia Akkerman é engenheiro mecânico-eletricista e engenheiro civil, formado duas vezes pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, respectivamente em 1952 e em 1955. Desde então trabalha na área de acústica e isolamento térmico. Nos anos 1970 e 80 lecionou na Fundacentro-SP e na mesma politécnica onde se formou. É desde 1978 colaborador da ABNT-SP e atualmente dá seu nome à Akkerman Projetos Acústicos, tendo realizado projetos para DuPont, Souza Cruz e Vale do Rio Doce, dentre outras.

O grande crescimento experimentado pela construção civil nos últimos anos aquece ainda mais o mercado consumidor e exige que as empresas se ajustem a novos prazos de entrega e planos de desenvolvimento de produto. Principalmente quando o assunto é o cliente de baixa renda, a equação orçamentá­ria fica ainda mais apertada, no intuito de buscar competitividade cada vez maior. Com isso, alguns itens de projeto - ou que nem mesmo fariam parte dele, pelo valor mais baixo do novo imóvel a ser construído -, acabam comprometidos, como é o caso da isolação acústica. Consumidores reclamam constantemente das paredes e lajes cada vez mais delgadas, das esquadrias menos estanques ao barulho e da transmissão de ruídos aéreos e de instalações. O resultado são tubulações hidráulicas que são ouvidas no quarto vizinho e sons de máquinas, como de elevadores, que não deixam o morador ouvir a TV. Mais recentemente, o aquecedor de piscina também juntou-se à "turma do barulho" que às vezes torna a vida do morador um martírio sonoro. O entrevistado Schaia Akkerman discute as causas dos problemas acústicos e o que a indústria tem feito para resolvê-los. Schaia não acredita que é possível proporcionar um bom conforto acústico nos imóveis de classe média sem o desenvolvimento de um projeto e uso de materiais com melhor desempenho.

 

No projeto, qual o momento certo de pensar a acústica?

A acústica tem que ser pensada desde a fundação. Já na arquitetura se define por onde vai passar o elevador e onde ficará a caixa de máquinas, que deve ser isolada. É ainda com a arquitetura que janelas são definidas, onde estarão, se haverá forros, como vai ser o piso. Todas as interfaces devem ser acompanhadas pelo nível de conforto que a construtora quer oferecer, cruzando essas informações com o orçamento para a obra.

O preço de venda então vai definir se o produto terá um bom desempenho acústico?

Para apartamentos de R$ 300 mil, não poderá haver muitas exigências acústicas. É uma luta dos preços, entre o tipo de consumidor a quem se destina a obra, e o lucro da construtora. Ninguém tem uma construtora para não ganhar dinheiro - e ainda é preciso pagar empregados, pedreiros, impostos, materiais. Todos esses fatores são limitantes.

Quer dizer então que o conforto acústico é item de luxo?

Não digo que seja item de luxo, mas uma despesa a mais que deve ser muito bem pensada pelo investidor, para saber se vale a pena. Ele tem que ter em vista que isso pode até ser usado como argumento de venda, ou diferencial de produto.

A vida moderna, com seus novos instrumentos tecnológicos, como os home theaters, impõe uma nova abordagem aos projetos acústicos?

Não há dúvidas de que a abordagem já é outra, direcionada à busca pelo maior bem-estar do usuário.

O senhor vê desprezo aos aspectos acústicos nos empreendimentos destinados à classe média, por exemplo?

Eu não acredito que a acústica seja desprezada nesses empreendimentos residenciais. A questão é que as coisas vão evoluindo segundo as exigências do mercado. Quando os investidores são competitivos, eles precisam fazer produtos mais baratos, e isso, na maioria das vezes, compromete a qualidade final. As lajes e paredes mais finas são um exemplo. Só que no mercado de consumo tudo tem um limite. Se as paredes forem delgadas demais, o consumidor vai reclamar. Principalmente quando ele ouve barulhos do vizinho, da rua, do vento pelas janelas. Com as reclamações, que podem virar processos judiciais, investidores tendem a melhorar os produtos para atender as exigências dos compradores.

Mas os produtos já melhoraram?

Há uma conscientização maior de que o imóvel precisa ser melhorado. O Secovi [Sindicato da Habitação], por exemplo, que reúne muitos construtores, acaba de produzir um documento sobre instalações acústicas dos empreendimentos imobiliários - um Manual de Acústica para a Indústria Imobiliária, de uma série de Manuais de Escopo de Contratação de Projetos e Serviços -, e que foi premiado pelo Instituto de Engenharia. Há outras recomendações, em outros manuais, para instalações hidráulicas, elétricas e sistemas de condicionamento de ar. Isso tudo demonstra como o setor vem se comprometendo com a qualidade do produto imobiliário.

Mas as reclamações continuam.

É uma questão de mercado, de competitividade. O que estava defeituoso, agora terá de ser melhorado, para que seja vendido. O cliente está de olho em determinadas questões, como o bom desempenho acústico, que será um diferencial de produto. É claro que há outros fatores envolvidos: nossas cidades (principalmente São Paulo) vivem o alto adensamento urbano, com muito ruído de tráfego, maior movimentação de voos em aeroportos (sobre bairros residenciais inclusive) e, com isso, as pessoas tendem a se queixar mais do barulho. O conjunto de fatores urbanos e mercadológicos faz com que surjam as primeiras providências por parte da indústria.

Dá para afirmar que a acústica é mais uma questão cultural do que técnica? Quanto maior o nível social, maior a preocupação com a acústica?

Exatamente. Isso é o que se evidencia no dia a dia da indústria da construção civil.

Podemos dizer que o layout dos apartamentos não privilegia a barreira de sons aéreos?

Depende muito do mercado - tudo é sempre muito relativo e subjetivo. Quem muda de algo paupérrimo para um imóvel melhor, ou sai do aluguel para uma casa própria, nem vai se preocupar muito com o ruído, porque a melhora, só com a mudança de patamar, ou de bairro, já é grande em si. Só que, com o tempo, quem comprou apartamento começa a querer melhorar ainda mais seu nível de vida, exigindo mais conforto acústico e térmico, para dormir melhor, por exemplo. Então surgem as reclamações ou ele busca um novo imóvel. Quem mora numa rua ruidosa e tem a sensação de que sua qualidade de vida caiu luta para sair daquela situação e ir para uma rua mais sossegada.

O senhor acredita que o comprador, no estande, aceitaria "customizar" o seu apartamento em troca de um melhor controle acústico? 

Eu acho que sim. O tratamento acústico é, hoje, um forte argumento de venda.

É possível dizer que, quanto à acústica, algumas medidas cabem à construtora e outras ao proprietário? Por exemplo, a escolha de revestimentos e forros?

Todas as medidas necessárias ao bom desempenho acústico cabem ao projeto e à construtora, que deverá ambicionar oferecer um produto melhor.

Em linhas gerais, que soluções usamos para resolver o conforto acústico em duas frentes: projeto e especificação de materiais?

Para resolver o problema com sons aéreos, as paredes não necessariamente têm de ser mais espessas. Elas podem ser mais pesadas - em vez de gesso, podem ser de blocos de concreto, que isola muito mais o som. O fato é que quando as construtoras optam por materiais mais leves, tiram cargas das fundações, reduzindo custos totais. Com isso, elas tendem a fazer paredes e lajes mais leves. O que não faz sentido é aumentar a espessura da parede, porque você perde com isso a metragem quadrada do imóvel, e isso não é bom negócio.

A escolha do bloco, cerâmico ou de concreto, faz pouca diferença no desempenho acústico?

Fará bastante diferença, em qualquer caso, a favor daquele material que tiver maior densidade superficial (kg/m2). Quanto maior a densidade do material, mais cara a obra e maior será o desempenho. Essa mesma lógica vale para especificação do revestimento argamassado para paredes, dentro dos limites mínimo e máximo para sua espessura.

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