Arquitetura sustentável
O que torna um projeto referência em sustentabilidade sob o aspecto arquitetônico? Qual o alcance do arquiteto para determinar aspectos de sustentabilidade a despeito das características impostas pelo incorporador?
A arquitetura desde seus primórdios conteve em suas premissas técnicas a busca de boas soluções construtivas e espaciais visando higiene, salubridade, rigor estético, dentre outras. São diversos os exemplos possíveis de serem listados de boa arquitetura, sobretudo brasileira, onde os atuais conceitos de sustentabilidade, tão em moda atualmente, sempre estiveram magistralmente presentes. Entre os conceitos, estão a correta implantação da edificação, visando insolação, ventos predominantes, topografia; a padronização e racionalização na produção e montagem das obras; a indústria como parceira do projeto, além de soluções arquitetônicas como brises, elementos vazados, beirais, caixilhos guilhotina e materiais cerâmicos com inércia térmica adequada ao clima tropical. Lamentavelmente, com a globalização, a internacionalização de valores e demandas, a produção de arquiteturas tendeu a uma pasteurização arriscada: soluções tecnológicas e estéticas definidas pelo cliente e pela indústria e, a bem da verdade, aceitas também pelos arquitetos, a despeito das características geoclimáticas, ambientais e culturais das regiões de implantação das obras.
Talvez a sustentabilidade nos ajude a aproximar intenções e resultados e fortalecer o vínculo entre a indústria e os projetistas. Uma indústria consistente e responsável por sua produção e por seu sistema produtivo só tem a agregar à qualidade do projeto bem como à satisfação do cliente, seja ele o incorporador ou o usuário final. E, mais do que isso, ela só terá a fortalecer um aspecto fundamental que é a cultura, o repertório. Uma sociedade que tenha a oportunidade de aprender, apreender e experimentar qualidade por usufruto de bons espaços bem projetados, bem construídos e com passivos ambientais reduzidos tende a exercer cidadania e boas relações com o espaço privado, público e a sociedade.
Adriana Levisky, arquiteta e urbanista
titular da Levisky Arquitetos Associados
adriana@leviskyarquitetos.com.br
Paisagismo urbano
É importante incluir áreas verdes em todo projeto? Além da permeabilidade do solo para absorver águas de chuva e do sombreamento, que outros benefícios o paisagismo pode oferecer, mesmo que em pequena escala?
Há muito tempo, o objetivo da arquitetura paisagística era tratar os vazios urbanos, pela composição estética. Hoje, além de tratá-los, a meta é conseguir criá-los com qualidade de dimensão, forte presença visual e continuidade de conexão, resultando em corredores verdes de vida entre os maciços construídos da cidade. O grande desafio do paisagismo brasileiro atual é conciliar suas antigas funções de um elemento de contemplação e enriquecimento estético da paisagem, com a sustentabilidade ambiental, resultando na dimensão social. Ou seja, ganhou a função ambiental e de integrador da sociedade, por isso sua importância em todo projeto, independente de sua escala. Por isso, costumo projetar ambientes de estar ao ar livre, com bancos e mesas, para que as pessoas possam se encontrar, se reunir, bater papo e até mesmo trabalhar junto à natureza. Pode ser desde um pequeno lounge no jardim de casa ou do condomínio até um fumoir com estar no empreendimento corporativo e bancos dispostos em praças e parques públicos. É uma forma de estimular o convívio social, propondo maior aproximação entre as próprias pessoas e delas com o verde.
Outra das principais contribuições do paisagismo está relacionada às condições climáticas. É fato que a temperatura nas áreas urbanas está cada vez mais alta e os centros urbanos não estão preparados para o inevitável aquecimento global. A inserção da vegetação, assim, ganha um papel fundamental nas massas edificadas, pois melhora a umidade relativa do ar, ajuda no equilíbrio da temperatura, minimiza a poluição do ar e, em grandes massas, a sonora, além de criar uma harmonia de paisagem nas nossas desarmônicas composições volumétricas das cidades. Mais do que isso, o paisagismo valoriza o uso da vegetação que reproduz ecossistemas locais contribuindo para conservação ambiental. Para escolher a vegetação, deve-se avaliar o espaço disponível no projeto, o clima e o solo do local onde está situado o empreendimento.
Numa casa no litoral de São Paulo, por exemplo, é interessante propor espécies tropicais da Mata Atlântica, como palmeiras e coqueiros. Plantas nativas são sempre bem-vindas e, junto com uma composição de variadas texturas, espécies floríferas e frutíferas, conseguem representar bem nosso ambiente natural. Vale lembrar que o conceito de "ser sustentável" só possui resultado efetivo se for aplicado de forma global, desde a micro até a macroescala. Em edifícios e casas, por exemplo, cabe desenvolver um trabalho de esgoto reciclado, com pequenas estações de tratamento individual de água; reaproveitar água da chuva; usar células fotoelétricas; promover aquecimento solar de água e usar a ventilação natural como forma de diminuição no consumo de energia. Já em condomínios grandes, bairros e cidades, é possível fazer lagos de abastecimento para drenagem; tratar esgoto em wetlands, eliminando esgotos domésticos; adotar piso drenante nas ruas e calçadas; promover a proteção de rios e mananciais; preservar a vegetação existente e plantar mais árvores nas calçadas de forma a manter boas condições climáticas; atrair a avifauna e pequenos animais e estimular a compensação de carbono, viabilizando o reflorestamento de áreas desmatadas.
Benedito Abbud, arquiteto paisagista
dono do escritório Benedito Abbud Arquitetura Paisagística